sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Uma breve comparação entre Budismo e Espiritismo

As Quatro Nobres Verdades 



Carlos Igelsia

Indíce
I -Apresentação e Agradecimentos

II - Introdução: Uma retrospectiva - Ocidente & OrienteII - Visão Geral
As duas Doutrinas
História
As Quatro Nobres Verdades
III - Questões Filosóficas
Objetivos
A questão da Causa Primeira
O Homem em sua essência
Concepção deste mundo
Responsabilidade frente ao destino
Atitude perante a fé
IV - Prática
Impacto na sociedade
Organização Interna
Ritos
V - Conclusão

VI - Anexos
Para conhecer melhor as doutrinas discutidas neste artigo
Uma homenagem à Francisco Cândido Xavier
Breve vocabulário
Bibliografia



I - Apresentação e Agradecimentos

      Acredito sinceramente que a melhor maneira de evitar o fanatismo e o fundamentalismo religioso ou filosófico é o estudo de outras formas de pensar e de crer. A verdade última, realidade a que todos os caminhos espirituais buscam, só pode ser uma, nossa capacidade de compreensão é que é limitada e portanto só pode apreendê-la de forma parcial. Cada uma dessas verdades parciais, modelos criados pelo entendimento humano, aborda um ângulo especifico, traduz dentro de um contexto cultural definido, dentro das características psicológicas de um povo ou de uma época, a verdade maior.
    Indo ao encontro de outras crenças, percebemos que o critério da concordância universal [ 1 ], proposto por Allan Kardec, tem também seu aspecto externo. Como em todas as épocas da humanidade o espírito humano buscou transcender suas limitações e compreender o problema do ser, do destino e da dor - como sempre os mundos espiritual e material estiveram em contato - as verdades parcias de cada um, são mais confiaveis, quando podem ser validadas com as descobertas, ou revelações, vindas de diversas fontes, de diferentes povos, em diversas épocas, dentro de tradições diferentes. E, naturalmente, as diferenças que encontramos, são os diferentes enfoques, mais ou menos precisos, que cada um deu ao mesmo problema.
    Entendendo o enfoque dado por outros, compreendemos melhor o nosso, suas virtudes e suas limitações, e estamos aptos a vivencia-lo mais fielmente ou buscar novos rumos. O Espiritismo, como doutrina aberta a razão, ao estudo e a critíca, nos permite tal liberdade de consciência e nela está sua maior força.
    Portanto não poderia deixar de começar este artigo sem agradecer ao educador emérito, Allan Kardec, que construiu sobre alicerces tão firmes e duradouros, na elucidação dos fenômenos mediúnicos e na análise dos ensinamentos dos espíritos, uma nova forma de pensar sobre o ser humano e o mundo que o rodeia.
    Também gostaria de agradecer aos amigos do GEAE, que no exercício da razão, através do estudo fraterno e da troca salutar de idéias, trilham este caminho. Agradeço particularmente ao amigo Elzio Ferreira de Souza, por ter me feito rever minhas idéias sobre o pensamento oriental, mostrando-me onde meus estudos anteriores, por sua pouca profundidade, estavam incompletos e onde deveriam ser corrigidos. Inclusive trechos inteiros deste artigo foram revisados sob sua orientação.
    Obrigatório agradecer também ao extraordinário pensador e lider religioso do povo Tibetano, sua Santidade o XIV Dalai Lama, pelos excelentes livros[ 2] em que aborda as mais intricadas questões do Budismo de forma tão espontânea e sincera, com tanta simplicidade de expressão, que praticamente se tornam compreensiveis a nós que não crescemos entre as tradições milenares do Oriente.
    Muita Paz para todos,
    Carlos Alberto Iglesia Bernardo




1 - vide artigo "Verdade e Controversias em torno do ensinamento dos Espíritos" no Boletim GEAE número 3672 - O sucesso editorial dos livros do Dalai Lama entre o público brasileiro foi tema de artigos na revista "Super Interessante" da editora Abril - "A vida segundo o Dalai Lama", na edição de agosto de 2001 - e na revista "Meditação" da editora Três - "O Sucesso Editorial do Dalai Lama",  edição número 30.
 

II - Introdução: Uma retrospectiva - Ocidente & Oriente


  O fascínio do extremo Oriente sobre o Ocidente é velho de milênios, pois, já na grécia antiga, aventureiros, viajantes e comerciantes traziam notícias das riquezas e dos estranhos sábios que existiam para lá das fronteiras da Persia. Com a expedição de Alexandre, o Grande, que chegou ao vale do Indus por volta de 326 ac,  os dois mundos foram colocados em contato próximo. Os historiadores contam que esta expedição trouxe, ao retornar, um asceta jaina[1 ] que grande admiração causou entre os gregos [ 2 ].
    Durante os séculos seguintes, o ouro e a prata do Ocidente fluiram através das rotas comerciais asiáticas, trazendo de volta seda - daí a famosa "Rota da Seda" - especiarias e conhecimentos. Junto a estes bens materiais vinham também informações sobre reencarnação, karma, ascetismo, ligeiras notícias sobre Buda e Brahman.
    Foi somente a longa noite medieval que interrempou o fluxo,  que desviou-se para o Oriente próximo, alimentando espiritualmente a civilização Árabe Medieval no seu apogeu. Bagdá, Damasco, Córdoba e outras capitais do Islã medieval, receberam por suas caravanas e navegadores, os conhecimentos sobre o "zero", a "bússola" e a filosofia que se incorporou ao Islã em sua forma mais mistíca - o Sufismo[ 3 ].
    O antigo "Mare Nostrum" dos Romanos, ficou fechado para a navegação do Ocidente e até bem depois do ano 1000 não circulavam mais especiarias, nem ciência do espírito,  mal e mal algum tráfego marginal e lendas fabulosas. O Ocidente ficou fechado em sí mesmo, com seus monges e a igreja de Roma tentando a todo custo evitar a submersão total na barbaríe.
    Novo período se inicia pela época das Cruzadas, que apesar do desastre militar e moral que representaram, abriram caminho novamente para as rotas do Oriente. Por esses caminhos, comerciantes italianos, como Marco Pólo, começaram novamente os contatos com o extremo Oriente, que aos poucos levariam as grandes navegações do século XV e ao início da era moderna.
    Ricas e populosas, as cidades do Oriente distante, naturalmente passaram a atrair os navegadores ocidentais . No início estes causaram apenas incomodos marginais, os grandes impérios da Espanha e de Portugal mal se estabeleceram as margens da India e da China. Más aos poucos, novas levas, reforçadas pelos progressos da ciência material, permitiram o estabelecimento de protetorados e finalmente submeteram os principais centros culturais. A nova ciência da matéria e a cobiça levaram paises europeus pequenos a dominar territórios imensos, com civilizações muitas vezes mais velhas e sofisticadas. De todo o Oriente, somente o Sião e o Japão escaparam relativamente incólumes a este período.
    O século XIX marcou o auge do Imperialismo Europeu, a revolução industrial se espalhou pelo velho continente, fabricando mais e mais bens de consumo, para os quais os paises necessitavam tanto de mercados, como de fornecedores de matéria prima. Mesmo o velho império do meio, a China, sofreu golpes e humilhações tão profundas que o jogariam nos braços do materialismo comunista do século XX [ 4 ].
    Durante este processo de conquista, no sentido inverso, o Oriente fascinou os Iluministas europeus do século XVIII, povou a imaginação das cortes européias - que multiplicaram em seus jardins os pavilhões chineses e em seus pálacios as salas chinesas, com porcelanas e pinturas orientais - e, século XIX adentro, alimentou o esoterismo ocidental. No final do século XIX, Madame Blavaski e a Sociedade Teosófica, popularizaram a filosofia hindu na Europa e nos Estados Unidos.
    Este período histórico, o do auge do colonialismo ocidental no século XIX, marca também a transformação dos Estados Unidos em uma potência continental. A vitória contra o México, trazendo-lhe as riquezas da Califórnia e do Texas, consolidaram o esforço iniciado com os peregrinos do Mayflower. Foi nesta jovem democracia, única em sua época por sua organização social e política, que em 1848 começaram a ocorrer os fenômenos que dariam nascimento ao Modern Spiritualism e, ao atravessar o Atlântico, ao Espiritismo.
    Em 1857, o educador frânces, Hypollite Leon Denizard Rivail, mais conhecido pelo pseudônimo Allan Kardec, publica o "Livro dos Espíritos", dando por primeira vez uma verdadeira ciência do espírito ao Ocidente. Ciência dentro de todos os rigores metodológicos do racionalismo frânces, continuando de onde a filosofia iluminista não tinha conseguido passar.
    Século XX, século de conflagrações mundiais e de paradoxos. Se por um lado o Oriente se ocidentaliza para conseguir se libertar do jugo colonial, por outro o Ocidente se descobre carente de espiritualidade e olha para o Oriente. Nos anos 40, diante da não-violência e do amor a verdade de Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatama Gandhi, a grande alma, o império britânico recua.
    A partir dos anos 50, o Ocidente se vê fascinado pelo Budismo. Primeiro pelo Budismo Zen, vindo do Japão através das tropas de ocupação americanas, depois pelo Budismo Tibetando, trazido por monges que fogem da ocupação chinesa no Tibete. Se o Budismo perde o Tibete, ganha adeptos por todos os lados e simpatizantes sem fim.
    Seu lider espiritual, Tenzin Gyatso - Sua Santidade o XIV Dalai Lama - pela sua luta pacífica em defesa de seu povo e pela sobrevivência de sua cultura, hoje é uma das figuras mais populares entre os lideres religiosos mundiais e pode se dizer que divide com o Mahatama Gandhi o privilégio de ser um dos Orientais contemporâneos de maior influência entre os pensadores Ocidentais.
    Depois da turbulência ao final do século XX, com o desaparecimento da União Soviética e o pipocar de pequenas guerras nacionais, começamos o século XXI em um mundo globalizado. Ocidente e o Oriente estão de tal modo próximos, que é impossivel ignorarem-se mutuamente [ 5 ] ou deixarem de reconhecer que cada um tem seus méritos e deméritos.
    Há muito que se aprender mutuamente e não será por "conversões" ou por "conquistas" que esta compreensão virá. Nunca, desde que Alexandre chegou as margens do Indus, ouve tantas oportunidades de aprendizado em comum. Não é mais o super-civilizado Oriente olhando com desdém os rusticos bárbaros ocidentais, nem mesmo os orgulhosos senhores do mundo querendo impor seu cristianismo aos pagãos do Oriente - são povos iguais, sofridos e cansados, que mutuamente podem se apoiar na busca da libertação do sofrimento e de uma melhor compreensão do Universo[ 6 ].
    Assim é dentro deste escopo, de compreensão mutua, que pretendo desenvolver esta série de artigos. Analisando as diferenças e afinidades entre a sabedoria do Oriente - aqui representada pelo Budismo Tibetano[ 7 ]- e o Espiritismo, doutrina a que somos ligados. 

1 - Adepto de uma das escolas de filosofia da India - o Jainismo
2 - Sua estada entre os gregos continuou sendo motivo de muita curiosidade mesmo após sua morte. Esta inclusive deixou-os completamente aturdidos, pois ele se queimou voluntariamente em um pira:
    "With Alexander there had also gone one 'Calanus', a figure worth remembering in that he seens to be the first Indian expatriate to whom a name and a date can confidently be given. One of a group of ascetics encamped near Taxila, Calanus had accepted Alexander's invitation to join him in that city and subsequently acompanied him back to the west. There, in Persia shortly before his patron's death, his own death would cause a sensation.
    Calanus' doctrinal persuasion is uncertain. As one of his conpanions at Taxila had put it, trying to explain one's philosophy through a wall of interpreters was like 'asking pure water to flow through mud'. In that Calanus and his friends went naked, a condition in which no Greek could be persuaded to join them, they may have been 'nigrantha' or Jains. Jains nudity was dictated by that sect's meticulous respect for life in all its forms. Clothes were taboo because the wearer might inadvertently crush any insect concealed in them; similarly death had to be so managed that only the dying would actually die. Jains bent on ending their life, therefore, usually starved themselves to death. Yet Calanus, a man of advanced years, chose to immolate himself on his own funeral pyre. Though an extraordinarly stoical sacrifice in Greek eyes, this was a decidedly careless move for one dedicated to avoiding casual insecticide. Evidently the Persian winter had induced a chill, if not pneumonia, and Calanus had decided it was better to die than be an encumbrance. No one, not even Alexander, could dissuade him from his purpose. He strode to his cremation at the head of an enormous procession and reclined upon the pyre with complete indifference. This composure he mantained even as the flames frazzled his flesh.
    Visibly shaken by such an exhibition, the Greeks held a festival in his honour and drowned their sorrows in a Bacchanalian debauch. Calanus, though he had made no converts, had won many friends. He also left a profound impression well worthy of India's first cultural emissary. 'Gymnosophists', or 'naked philosophers', henceforth became stock figures in the Western image of India. As 'Pythagoreans', they were also identified with Greek traditions of abstinence and the conjectures of Pythagoras about rebirth and the transmigration of the soul.Lucian, Cicero and Ambrose of Milan all wrote of Calanus and his naked companions. " John Keay, India - A History.
3 - Os Sufis, procurando extrair dos ensinamentos de Maomé o seu significado profundo - além de cumprir as observações exteriores exigidas de todo muçulmano - incorporaram ao Islamismo conhecimentos sobre o espírito e o Universo, de nitída influencia indiana. Veja-se, por exemplo, os versos de um poeta persa do século XI:
"Como vela en la llama, en su fuego me derreti
 y el resplandor oscilante,
sólo a Dios vi.
Com mis proprios ojos, a mí mismo me vi,
 pero al mirar con los ojos de Dios,
sólo a Dios vi.

Desvanecido en la nada, me diluí.
Yo era la vida, el Universo ... y,
sólo a Dios vi."
    Outro exemplo são as obras de Ibn Arabi, sufi nascido em Murcia em 1164 e falecido em Damasco em 1240, considerado pelos árabes como o "maior dos mestres" e "vivificador da Religião":
"Lo que quiero decir es que tú no eres, o posees tal o tal cualidad, que no existes y que no existirás jamás, ni por ti mismo, ni por El, en El o con El. Tú no puedes cesar de ser, porque no eres. Tú eres El y El es tú, sin ninguna dependencia o casualidad. Si alcanzas a reconocer en tu existencia esta cualidad de la nada, entonces conoces a Alá. En otro caso, no.".
    Estes dois trechos são da tradução espanhola, por Roberto Pla (Editorial Sirio S.A. - Málaga, España), do livro "Tratado de La Unidad", escrito por Ibn Arabi.    Jalal ud-Din Rumi, poeta persa do séc XIII, assim se expressou sobre o mundo:
"Este mundo que é nada
e encobre a beleza de Deus
é também sinal e prova de sua presença.
Nossa existência - mero favor
de Shams de Tabriz, obséquio da alma -
encobre sua essência 
e diante dela se envergonha. " Poemas Místicos, Divan de Shams de Tabriz Jalal ud-Din Rumi Trad. José Jorge de Carvalho, Attar Editorial
4 - Um dos capítulos mais tristes da história ocidental, que compete com as cruzadas no tocante ao distanciamento a justiça e a verdade, foi a guerra do Ópio (1839-1842). Por esta guerra, as potencias ocidentais garantiram a abertura dos portos chineses ao comércio da nefanda droga:    "O ópio era o único produto estrangeiro, controlado por fornecedores estrangeiros, que os consumidores chineses desejavam, ou aprenderam a desejar, em grandes quantidades. Como ocorria com a droga mais suave exportada em troca - o chá, que se dizia ter sido descoberto por Buda para se livrar do sono -, sua demanda parece ter sido determinada pela oferta. Quando, em 1729, a China proibiu pela primeira vez este comércio, calculou-se que as importações eram de cerca de duzentas caixas anuais; em 1767, registraram-se mil caixas; no final da década de 1830, quando este comércio assumiu proporções que ameaçavam com a guerra, mais de dez mil caixas entravam anualmente na China. Para o governo chinês, sua exclusão era, ao mesmo tempo, uma questão de interesse econômico e de retidão moral; para a Inglaterra, a possibilidade de acesso ao mercado chinês era não só um imperativo material, mas também um símbolo da liberdade de comércio. Quando a China procurou energicamente impedir as importações, a Grã-Bretanha a invadiu. " Milênio - Uma história de nossos últimos mil anos, Felipe Fernández-Armesto, ed. Record.
5 - O leitor que duvide desta afirmação, que faça uma visita a São Paulo e dê uma caminhada pela região central da cidade, pelo bairro da Liberdade e suas imediações. Vai reparar que muito próximos encontrará igrejas católicas, templos budistas, lojas maçônicas, grupos espíritas, tendas de umbanda, igrejas protestantes, modernas faculdades e - simbolo máximo talvez da cultura americana - lanchonetes de "fast food" como o Mac Donalds.
6 - Vide o trecho transcrito abaixo, do livro "La Espiritualidad Hinduista", de Swami Vivekananda (1863-1902),  discipulo de Sri Ramakrishna. Ambos foram grandes reformadores do Hinduísmo na India Moderna e naturalmente depararam-se com a questão das relações entre ocidente e oriente:
    "Para um oriental, o mundo do Espírito é tão real quanto o mundo dos sentidos para um ocidental. No mundo espiritual, o oriental encontra o que deseja e espera, nele descobre tudo o que torna real sua vida. Do ponto de vista de um ocidental, o oriental é um sonhador; enquanto que do ponto de vista de um oriental, o sonhador é o ocidental, que lida com coisas efêmeras (que juega con juguetes efemeros) ... Cada um chama de sonhador ao outro.
    Porem o ideal oriental é tão necessário ao progresso da humanidade como é o ocidental. As maquinas não tem feito, nem farão jamais, feliz a humanidade .... Estas coisas não os farão felizes, a não ser que vocês levem dentro de sí a força da felicidade (estas cosas no os harán felices, salvo que llevéis dentro la fuerza de la felicidad); a não ser que vocês tenham conquistado a sí próprios.
    É verdade que o homem nasceu para conquistar a Natureza, porem, por "Natureza", o ocidental entende somente a natureza física e externa. A natureza externa com suas montanhas, seus mares e seus rios, com suas forças e sua infinita diversidade, é, sem duvida alguma, majestosa; contúdo, existe também a natureza interior do homem, que é mais majestosa ainda ... e nos brinda com outro campo de estudos. Neste sobresai o oriental, da mesma forma que o ocidental sobresai no outro. Portanto, é justo que, quando seja necesário um reajuste espiritual, este venha do Oriente. Também é justo que, quando o oriental queira aprender a construir maquinas, se coloque aos pés do ocidental e aprenda dele; porém, quando o ocidental queira saber coisas do espírito, de Deus e da alma, e do significado e mistério deste universo, há de colocar-se aos pés do oriental para aprender". (cap. El Neo-hinduismo, Espiritualidad Hinduista, Daniel Acharuparambil)
7 - "Iglesia, eu vou colocar algumas sugestões, mas há uma de ordem geral que lhe peço permissão para fazer. Acho que você deveria colocar as posições budistas e espíritas de um modo bem estrito, e depois fazer um comentário, demonstrando a identidade ou semelhança das doutrinas, embora a aparente diferença do discurso, nos casos em que couber, ou demonstrando as diferenças reais. Acho que deve haver uma advertência, esclarecendo que a comparação está sendo feita com o budismo tibetano, porque as doutrinas têm nuanças e é importante respeitá-las. Vivekananda, por exemplo, discorda da interpretação que muitos discípulos de Buda deram a suas lições. Em realidade, o que conhecemos, hoje, do Budismo passa pelos olhos dos discípulos, desde que Buda como Jesus nada escreveu, e são passados 2500 anos de formulações doutrinárias na busca de um melhor entendimento e prática." Elzio Ferreira de Souza (sobre o primeiro esboço do artigo que lhe enviei para análise)
 


III - Visão Geral 
As Duas Doutrinas

Budismo
    O Budismo tem por princípio os ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda, entre eles, como base principal as "quatro nobres verdades". Ele  não pode ser definido exatamente como uma "religião" no sentido ocidental, é mais uma filosofia, um caminho (método prático) de libertação do sofrimento. Naturalmente associada a este caminho, surge uma visão de mundo que influencia a ciência e a vida cotidiana das sociedades budistas. Assim conforme nos explica Matthieu Ricard, monge budista, no livro "O Monge e o Filósofo" (cápitulo Religião ou Filosofia):
    "Em essência, eu diria que o budismo é uma tradição metáfisica da qual emana uma sabedoria aplicável a todos os instantes da existência e em todas as circunstâncias.
    O budismo não é uma religião, se por religião entendermos a adesão a um dogma que deve ser aceito por um ato de fé cega, sem que seja necessário redescobrir por si mesmo a verdade desse dogma. Mas se considerarmos uma das etimologias da palavra religião, que é 'aquilo que liga', o budismo sem dúvida está ligado as mais altas verdades metáfisicas. Ele tampouco exclui a fé, se entendermos por fé uma convicção íntima e inabalável que nasce da descoberta de uma verdade interior. A fé é também um maravilhamento diante dessa transformação interior. Por outro lado, o fato do budismo não ser uma tradição teísta leva muitos cristãos, por exemplo, a não o considerar como uma 'religião' no sentido corrente da palavra. O budismo, enfim, não é um 'dogma', pois o Buda sempre disse que a pessoa devia examinar os ensinamentos dele, meditá-los, mas não aceita-los simplesmente por respeito a ele. É preciso descobrir a verdade desses ensinamentos percorrendo as sucessivas etapas que levam à realização espiritual. Convém examina-los, disse o Buda, como se examina uma barra de ouro. Para saber se o metal é puro, a pessoa o fricciona sobre uma pedra lisa, martela-o, derrete-o no fogo. Os ensinamentos de Buda são como diários de bordo na estrada do Despertar, do conhecimento último sobre a natureza do espírito e sobre o mundo dos fenômenos."
Espiritismo
    O Espiritismo, ou Doutrina Espírita, tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos. Através do estudo dos fenômenos mediunicos investiga as leis que regem essas relações e suas conseqüências. Também pelo estudo da situação dos Espíritos no mundo espiritual, investiga as leis morais que regem o destino do ser. Do fato do homem ser apenas um espírito encarnado, o estudo do espírito se extende ao estudo do ser humano, de sua psicologia, de suas capacidades mediunicas e animicas, e de suas relações com o mundo com o cerca.
    Assim o Espiritismo também não pode ser definido exatamente como uma "religião" no sentido usado normalmente no ocidente. É uma visão de mundo, englobando não só filosofia, ciência, moral, como também um caminho (método prático) de progresso do espírito. Como nos explica Allan Kardec:
    "O laço estabelecido por uma religião, seja qual fôr o seu objetivo, é, pois, um laço essencialmente moral, que liga corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou de realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como conseqüência da comunidade de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.
    Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião ? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza.
    Por que, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião ? Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortêjo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes de levantou a opinião pública.
    Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia em devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral".[ 1 ]
    Como doutrina filosófica e moral, o Espiritismo pertence a tradição monoteista cristã. Tradição iniciada com a revelação mosaica no Velho Testamento, profundamente reformada por Jesus no Evangelho, e complementada pelos conhecimentos adquiridos no estudo das comunicações com os espíritos. Por este motivo os espíritas também se referem a Doutrina como a "Terceira Revelação" ou, fazendo referência a uma promessa de Jesus, como o "Consolador Prometido".
- Análise
"As palavras nos importam pouco. A linguagem deve ser formulada de maneira a se tornar compreensível. As dissensões humanas surgem porque sempre há desentendimentos sobre as palavras, pois a linguagem é incompleta para as coisas que não lhes ferem os sentidos"  O Livro dos Espíritos, resposta a questão 28.
    Nosso uso cotidiano da palavra "religião" se prende a um sentido muito limitado, entendemos normalmente por esta palavra um culto organizado, com crenças estabelecidas através de "dogmas" e uma hierarquia destinada a sua manutenção. Embora este sentido se enquadre bem na comunicação cotidiana, deixa a desejar quando aplicado a problemas filosóficos mais profundos. Por limitações do nosso vocabulário, "religião" também designa a crença individual em uma realidade maior que transcende o mundo material. Por "religiosidade" se entende também o sentimento que liga o homem ao restante do Universo.    Neste sentido filosófico da palavra, o Espiritismo e o Budismo tem aspectos religiosos. São "religião" no tocante ao modo que mudam as crenças do homem sobre si mesmo e sobre a realidade que o rodeia. Mas igualmente não são apenas "religião", nem se enquadram corretamente no uso comum da palavra. O que em sí mesmo gera os mais acalorados debates, quando sua "natureza" é discutida.
    No tocante ao Budismo, entre os povos que o praticam, o problema praticamente não se apresenta, é no mundo Ocidental, onde ainda nos apegamos tanto aos "nomes" e as "categorias" - valorizando mais a letra que o espírito - que há longas discussões a respeito e as mais diversas opiniões. Já houve, entre os estudiosos ocidentais, quem negasse ao Budismo a designação de "religião" e quem o chamasse de uma "religião sem Deus", por motivos que discutiremos na sequência dos artigos.
   Quanto ao Espiritismo, não é segredo que as discussões em torno a sua "natureza" - ao emprego ou não, da palavra "religião" para descrevê-lo - tem algumas vezes degenerado em polêmicas inúteis e em amargas disputas entre grupos com diferentes visões da questão[ 2 ].

1 - Discurso de abertura da sessão anual comemorativa do dia dos mortos, em 1º de novembro de 1868. O discurso foi publicado na Revista Espírita de Dezembro de 1868 e seu texto pode ser consultado na integra no Boletim GEAE número 277 .
2 - Pessoalmente adotamos a orientação dada pelos Espíritos a Kardec, de que as palavras pouco importam, o que vale é definir precisamente do que se está falando, para não cair em polêmicas inúteis. Também respeitamos os sábios conselhos, transmitidos pela tradição Budista, de que a verdade raramente está nos extremos. Para nós, o Espiritismo "é" Religião no sentido filosófico da palavra e " não é" Religião no sentido comum , de culto organizado.
 
  


História

Budismo
    Surgiu na India, em torno do V século A.C., a partir dos ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda. Sidarta deixou sua vida de principe, comovido pela descoberta do sofrimento, para dedicar-se a encontrar suas causas e como elimina-lo. Não deixou nada escrito, seus ensinamentos foram compilados por seus seguidores imediatos e transmitidos oralmente durante séculos. Passaram para a forma escrita, somente no inicio da nossa era. A longo do tempo surgiram algumas escolas de pensamento ligeiramente diferentes. Basicamente estas escolas se agrupam em duas linhas:
    - Escola Theravada (Escola dos Anciãos);
    - Escola Mahayana (Grande Veículo);

    A diferença principal entre elas é a enfâse dada aos objetivos da salvação ou libertação do sofrimento. Enquanto na escola Theravada, mais próxima ao Budismo primitivo, a libertação é procurada como objetivo máximo e em bases individuais, a escola Mahayana coloca grande ênfase na compaixão e no esforço para a salvação de todos. Esta escola enfatiza o ideal do "Bodhisattva", que é o nome dado ao indivíduo que atingiu todos as condições necessárias para a libertação individual, mas que a retarda, para ajudar aos demais a encontrar o caminho da salvação. Ou seja, o Bodhisattava renuncia ao Nirvana por compaixão aos demais seres.
    Em muitos escritos Mahayana, a escola Theravada é chamada de "Hinayana" ou "Pequeno Veículo" - veículo no sentido de meio de condução do ser para a salvação - com conotações pejorativas (por apresentar um objetivo mais restrito, de salvação individual, em comparação com o objetivo de auxiliar na salvação de outros). Desta maneira, apesar do tempo ter mitigado o sentido original, é aconselhável evitar esta designação.
    Em certos aspectos, o Budismo constituiu uma resposta a problemas enfrentados pelo pensamento filosófico hindu da época de Sidarta Gautama. Principalmente a divisão da sociedade em castas e as polêmicas em torno da criação do Universo, de que papel tiveram as divindades nela ou quais as que eram as principais. De qualquer maneira, seu surgimento e desenvolvimento dentro da sociedade hindu se deu mantendo o mesmo espírito de tolerância característico da india védica.
    No auge da influência Budista na India, pelo segundo século antes de Cristo, o mundo viu algo inédito e extraordinário, o governo do Rei Asoka, que se norteou pela justiça e pelo respeito a todos os seres vivos. Este rei manteve um país próspero e seguro, inclusive enviou missionários para a divulgação o Dharma em terras distantes.
    A partir do continente indiano, o Budismo se expandiu pelo extremo oriente: Burma, China, Coréia, Japão, Java, Sri Lanka, Sumatra, Tailândia, Tibete, Vietnã, etc ... Com a expansão do Islã (a partir do século VIII da nossa era) e, posteriormente, com as destruições massivas pelas mongóis nas regiões que lhe constituiam o berço (século XII) , o Budismo deixou de ser representativo na India. Ele também sofreu algum recuo em regiões fortemente influenciadas pelo comércio com o Islã.
    Foi por volta do ano 700 dc, que vários monges budistas chegaram ao Tibet e difundiram a escola Mahayana. O Budismo se desenvolveu consideravelmente a partir dos diversos mosteiros fundados, tornando-se o centro da vida Tibetana. Traduções dos textos antigos foram feitas para o Tibetano, desenvolveram-se novas concepções, tendo grande avanço uma terceira escola - ou "terceiro veículo" - o Veículo Adamantino, Vajrayana, que acrescenta técnicas espirituais para se atingir o desenvolvimento espiritual. A religião local, o "Bon" - uma espécie de Xamanismo, com metafisíca complexa - continuou a existir em paralelo ao Budismo e, inclusive, muitos de seus costumes se incorporaram ao Budismo Tibetano.
    Com a integração do poder temporal com a estrutura de mosteiros, o seu lider espiritual, o Dalai Lama, - "mar de sabedoria" - também tornou-se o centro político do país. O atual Dalai é o XIV de uma linha - pelas crenças tibetanas é a reencarnação de seu antecessor - que já vem de alguns séculos.
    O Budismo encontrou também grande progresso na China, tendo se incorporado a sua civilização, lado a lado com o Taoísmo e o Confucionismo. Foi apenas na segunda metade do século XX, nas grandes turbulências que se seguiram ao final da segunda guerra mundial, que o Budismo Chinês passou a ser marginalizado, com a implantação do comunismo por Mao Tse Tung. O estado materialista, que vê a religião como o "ópio do povo", também chegou ao Tibet com sua anexação pela China a partir de 1949.
    Em seu auge, o Budismo Chinês influenciou profundamente o Japão. Em terras japonesas o Budismo Zen foi o que mais se difundiu e passou a conviver pacificamente com a religião nativa do país, o "Xintoismo".  No século passado, a partir de 1930, pelo trabalho do prof. Masaharu Taniguchi, surgiu dentro do Budismo japonês um movimento, denominado "Seicho-no-ie" (Lar do Progredir Infinito), que é hoje bastante divulgado, inclusive no Brasil.
    O Budismo passou a ser mais conhecido nos países ocidentais após a II Guerra Mundial, quando as tropas aliadas passaram a ter contato direto com o Budismo Zen. Posteriormente, em 1959, a ocupação chinesa no Tibete forçou a fuga de monges tibetanos para outros países. O Dalai Lama e muitos dos que o acompanharam, encontraram refugio no norte da India, dando de novo a este país um papel importante na preservação e difusão do Budismo. Desde então, Sua Santidade, o XIV Dalai Lama, tem viajado frequentemente a muitos países, dando conferências e publicando livros sobre o "Dharma". Ao mesmo tempo, tem sido fundados mosteiros Budistas e cada vez mais ocidentais tem se dedicado ao estudo da doutrina.
    A divulgação do Budismo no Ocidente também foi beneficiada pela crise espiritual que se tornou evidente a partir dos anos 60. Como resultado do período da "guerra fria", do medo de uma guerra nuclear, das guerras verdadeiras - tendo a do Vietnã sido a primeira amplamente coberta pela midía moderna - a juventude do mundo ocidental passou a questionar as respotas tradicionais aos problemas existênciais e a buscar novos caminhos. Foi um período histórico de transformação acelerada, não só de costumes mas da própria visão do homem dentro da sociedade, com muitos erros e acertos, cujas conseqüências ainda estamos vivendo e cuja análise mereceria um estudo bem mais profundo do que seria possivel neste artigo.
Espiritismo
   Historicamente o Espiritismo surge na França, na segunda metade do século XIX,  na sequência do "Espiritualismo Moderno". Como todo movimento importante de transformação espiritual, suas raizes são bem mais antigas, podendo-se percebê-las nas especulações filosóficas do Iluminismo europeu do século XVIII e nos grandes espiritualistas do período, como o vidente suéco Swedenborg.  Outro precursor desta fase histórica foi o médico vienense Mesmer, que com seu "magnetismo animal", abriu campo para o estudo de fenômenos que escapavam ao objeto costumeiro da ciência newtoniana.
    A data oficial para o nascimento do novo movimento espiritualista, conhecido como "Espiritualismo Moderno" (Modern Spiritualism), é 31 de março de 1848. Nesta data aconteceu um evento extraordinário por suas implicações futuras, mas que por si só é de uma simplicidade inacreditavel: Uma menina de onze anos - Katherine Fox - teve a idéia de solicitar a um espírito, que "assombrava" a casa em que viviam, em Hydesville (EUA), que repetisse o número de batidas que ela desse. Estava inaugurada a comunicação aberta entre os dois planos da vida. Doravante a comunicação com o plano espiritual não estaria mais restrita aos iniciados em doutrinas secretas, nem aos grandes ascetas ou a mistícos extraordinários. Homens e mulheres comuns, muitas vezes jovens, como no caso de Katherine, seriam os "medianeiros" - médiuns - entre nós encarnados e os entes queridos no outro lado da vida.
    As ocorrências na casa da familia Fox chamaram rapidamente a atenção da vizinhança e logo da midía da jovem democracia americana.  Religiosos, cientistas e estudiosos das mais variadas especialidades se interessaram pelos fenômenos, que não conseguiam explicar pelas respostas costumeiras de mistificação ou ilusão, mais que isso, esses fenômenos começaram a se reproduzir por outros médiuns e, desde as primeiras mensagens, seus autores se identificavam como sendo os mesmos seres humanos, apenas despojados das vestes físicas - do corpo material - pelo fenômeno da morte.
    As batidas nas paredes foram substituidas pelas "mesas dançantes" - mesas em que as pessoas se sentavam ao redor e que sob controle dos espíritos, levantavam-se e batiam os pés. Após as mesas dançantes vieram os lápis amarrados a cestos e a pranchetas e finalmente a comunicação direta através dos médiuns. A mediunidade passou a se revelar uma sensibilidade normal do ser humano, que pode se manifestar de diversas maneiras diferentes - pela comunicação falada (psicofônia), pela comunicação escrita (psicografia), pela vidência ou mesmo pelos eventos físicos, dos quais o mais espetacular e raro é a "materialização" completa dos espíritos.
    O enorme interesse despertado pelos fenômenos mediunicos, a partir de 1848 até praticamente o final do século, contribuiu para que fossem divulgados amplamente no outro lado do Atlântico. Em todas as capitais européias se formaram grupos de estudos e surgiram médiuns cuja fama perdura até nossos dias. Entre eles se destaca Daniel Dunglas Homes, médium de efeitos fisícos, cujas demonstrações foram feitas diante das personalidades mais ilustres da época e em circunstâncias que as tornavam acima de qualquer suspeita.
    Naturalmente estes fenômenos chamaram a atenção dos estudiosos e, entre eles, o educador francês Hyppolite Leon Denizard Rivail. Em suas obras, que publicou usando o pseudônimo Allan Kardec,  reuniu os resultados de suas pesquisas sobre os fenômenos mediúnicos e uma acurada análise das mensagens transmitidas pelos espíritos. Elas vieram a constituir o que se convencionou chamar de "Codificação Espírita", sendo 18 de abril de 1857, data em que foi publicado em Paris o "O Livro dos Espíritos" , considerada como a de surgimento do "Espiritismo".
    A "Sociedade Pariense de Estudos Espíritas", formada por Allan Kardec se tornou o modelo a partir do qual se estabeleceriam outros grupos espíritas na França e no exterior. A "Revue Spirite" - a Revista Espírita - dirigida por Kardec entre 1858 e 1869 foi, junto com os livros de Kardec, o veículo de comunicação das idéias espíritas em seus primeiros tempos.
    O Espiritismo rapidamente se estendeu a outros paises europeus e a américa latina. No inicio do século XX, pioneiros já haviam criado grupos espíritas do México a Argentina, incluindo Porto Rico e Cuba. Na Europa se sobressaiam França e Espanha, onde se realizariam grandes congressos até as vesperas da Guerra Civil. No mundo de lingua inglesa, prevaleceu  inicialmente a variante americana - Modern Spiritualism - caracterizada principalmente pela rejeição a idéia da reencarnação. No Brasil, o Espiritismo foi introduzido já na época de Kardec.
    Com o período das grandes guerras mundiais e dos regimes autoritários[ 1 ], o Espiritismo praticamente desapareceu da Europa. Seus adeptos foram perseguidos e presos, os grupos fechados e os poucos remanescentes jogados para a clandestinidade. Durante este período, se desenvolveu consideravelmente no Brasil, tendo entre seus grandes nomes personalidades como o médico Adolfo Bezerra de Menezes e o médium Francisco Cândido Xavier. Não se pode deixar de mencionar também o excepcional médium de curas José Arigó, que através de sua abnegação - atendendo gratuitamente todos os que o procuravam - e capacidade de trabalho, atendeu milhares de doentes e tornou-se prova viva do Espiritismo para muitos dos que o procuraram. Durante fase dificil de sua vida, em que as perseguições - sob o pretexto de curandeirismo - o levaram a prisão, foi através de indulto do próprio presidente da Republica, Juscelino Kubischek, que foi libertado.
    Nos últimos anos, com o final da guerra fria e o retorno a normalidade democrática em todos os paises da Europa, o Espiritismo tem retornado gradualmente a este continente. Grupos espíritas se formaram imediatamente em Portugal e na Espanha após o fim das proibições e, no resto do continente, aos poucos, superando a cultura materialista imperante após o período das guerras. Merece menção, neste grande trabalho de renascimento do Espiritismo, o esforço abnegado dos imigrantes brasileiros, que passaram não só a criar nucleos espíritas em seus países de adoção, como a apoiar os movimentos espíritas locais. Como médiuns, tradutores de obras espíritas do português para as linguas nativas, interpretes de conferêncistas e de médiuns em viagens, contribuiram significativamente suprindo as deficiências causadas nestes paises pelas turbulências do século XX. Conferêncistas brasileiros também tiveram e estão tendo papel importante nesta fase histórica. Podemos citar rapidamente, como exemplo - pois uma análise detalhada desse trabalho de divulgação, fazendo juz a todos os que participaram dele, demandaria uma série de artigos - nomes como Divaldo Pereira Franco, Miguel de Jesus Sardano e Reinaldo Leite.
    Nos demais paises da América Latina, o Espiritismo vai relativamente bem, tendo enfrentado dificuldades com as revoluções e guerras civis, mas sobreviveu até mesmo em Cuba. A america latina também tem dado grande grande contribuição ao movimento espírita internacional e, da mesma forma que o Brasil, tem contribuido com médiuns, tradutores, trabalhadores e conferencistas como, por exemplo, Juan A. Durante.
    Nos Estados Unidos vem se instalando gradativamente, ressentindo-se talvez mais que na Europa, do materialismo e do consumismo vigentes. Os grupos espiritualistas americanos, sucessores do "Modern Spiritualism", ainda existem, mas são bastante dispersos e cada qual seguindo seu caminho próprio, o que dificulta muito uma colaboração mais efetiva. O lado positivo é que em sua maioria já aceitam a reencarnação sem maiores restrições [2 ].
    Pelo próprio escopo do artigo, é natural que se fique devendo aos leitores um panorama mais amplo das biografias dos grandes vultos da Doutrina Espírita. Incontáveis seriam os nomes que deveriam figurar em uma história detalhada, começando pela própria esposa de Kardec, Amélie Gabrielle Boudet, educadora como ele e sua colaboradora de todas as horas:
    Léon Denis, Cammille Flammarion, Gabriel Dellane, Eusapia Palladino, Amalia Domingo Soler, Miguel Vives y Vives, Cosme Mariño, Euripides Barsanaulfo, Batuíra, Bittencourt Sampaio, Analia Franco, Caibar Schutel, Teles de Menezes, Ivone A. Pereira, Francisco Valdomiro Lorenz, Vinicius, Herculano Pires, José Gonçalves Pereira .... 

1 - Em geral pode se considerar que este período histórico começa com a primeira guerra mundial em 1914, se estende entre guerras com o estabelecimento do comunismo, do facismo e do nazismo, prossegue com a guerra civil espanhola de 1936, a grande guerra de 1945, as guerras na ásia e a guerra fria até o fim dos anos 80. Pode-se dizer que entre a primeira guerra mundial e o fim da união soviética na década de 90 o mundo viveu um período contínuo de tensão, com o consequente apego ao imediatismo materialista, mesmo porque grande parte da Europa ficou, por longo tempo, sob regimes ditatoriais e violentos.
2 - É interessante notar que a diferenciação entre "Modern Spiritualism" - Espiritualismo Moderno - é bastante sutil e na maior parte das vezes sem muita importância. Na realidade o que ocorreu foi uma lentidão na difusão das obras de Kardec nos meios espiritualistas de lingua inglesa. Essa demora foi em parte provocada pela rejeição que americanos e ingleses tinham quanto a idéia da reencarnação, em parte pela diferente visão quanto ao papel das comunicações dadas pelos espíritos. Enquanto Kardec - e os Espíritas - consideram as comunicações como meio de estudo, objeto de análises critícas e sujeitas ao critério da concordância, os espiritualistas de lingua inglesa as viam como revelações de um plano superior e os espíritos que as transmitiam, acima de suspeita por serem guias iluminados.  Não só pioneiros do Espiritismo, como Léon Denis continuaram utilizando o termo "Espiritualismo Moderno", junto com "Espiritismo", como em tempos recentes Júlio Abreu Filho traduziu a obra de Connan Doyle - History of Modern Spiritualism - para o português com o titúlo de "História do Espiritismo" (Editora Pensamento).  O resultado desta opção de tradução é que o leitor espírita se surpreenderá ao notar, em uma história do "Espiritismo" o pequeno espaço reservado ao trabalho de Kardec e o posicionamento do autor contrário a reencarnação, principalmente se não prestar atenção no prefácio, onde Herculano Pires alerta sobre a questão.
    A propósito, o motivo que levou Kardec a criar uma nova palavra - Espiritismo - foi para evitar mal-entendidos.  A designação "Moderno Espiritualismo" não é muito precisa, uma vez que espiritualista é todo aquele que crê em algo além da matéria e não necessariamente em espíritos e na sua possibilidade de comunicação conosco.
 

As Quatro Nobres Verdades

- Budismo
    1.a Verdade: Da existência do sofrimento (Impermanência, Insatisfatoriedade, Impessoalidade);
    As quatro nobres verdades constituem a base do Budismo, tendo a constatação da existência do sofrimento e de que todos os seres viventes estão sujeitos a ele como o ponto inicial de sua estrutura lógica.
   Desde o instante em que nascemos neste mundo, estamos sujeitos ao sofrimento. Se crianças necessitamos do amparo dos adultos para nossas minimas necessidades, se adultos temos que lutar por nossa sobrevivência e daqueles que nos são caros, se atingimos avançada idade, sentimos o declinio das forças fisicas e a aproximação da morte. Durante a vida, passamos pelas mais diversas situações, pela perda dos entes queridos, pelas doenças e estamos sujeitos a sermos vitimas de acidentes e violências diversas.
    2.a Verdade: Da origem do sofrimento
    Para Buda, a origem do sofrimento está relacionada a ignorância, sofremos porque tomamos o mundo material a nosso redor como realidade última e objeto de nossas ambições. Sofremos porque, em nosso egoísmo, nos apegamos aos objetos exteriores e queremos eternizar o que é transitório. Tanto quanto o sofrimento, o mal é resultado da ignorância do ser. Mal é tudo que causa sofrimento ao próximo e próximo no sentido mais amplo possível, abrangendo todos os seres viventes.
    3.a Verdade: Da cessação do sofrimento
    O sofrimento pode ser extinto, extinguindo-se o motivo que o gera, a ignorância e a ilusão de um "eu". Com o fim do "eu" termina o egoísmo e o apego aos objetos passageiros. Em lugar do egoismo, surgem a Sabedoria e a Compaixão. Não haverá mais sofrimento para o ser iluminado, e um mundo composto de uma maioria de seres iluminados, será um mundo feliz.
    4.a Verdade: O caminho que conduz a extinção do sofrimento
    De nada vale conhecer uma verdade se não for vivenciada. E as regras práticas do Budismo, expressas no Caminho Óctuplo, levam diretamente a vivenciar o desapego ao eu e ao egoismo. Não são dogmas, mas regras de vida que se bem aplicadas tornarão o ser, um ser compassivo e sábio:
    1. Palavra Correta  (ser verdadeiro e justo no falar)
    2. Ação Correta (agir sempre de acordo com o bem de todos, ser compassivo)
    3. Meio de Vida Correto  (viver corretamente, sem prejudicar a ninguém e fazendo o bem sempre que possivel)
    4. Esforço Correto (procurar sempre melhorar-se a si mesmo e buscar a verdade)
    5. Plena atenção Correta (prestar atenção em tudo o que se faz, para ter a visão correta do que se faz e se passa)
    6. Concentração Correta (aprender a concentrar-se, para chegar ao conhecimento de si mesmo e da essência das coisas)
    7. Pensamento Correto (saber pensar e pensar de maneira correta de maneira a controlar a si mesmo)
    8. Correta Compreensão (procurar compreender verdadeiramente, procurar ser sábio)
    Em resumo, a vivência pessoal que pode ser resumida em:
- Conduta Ética (palavra correta, ação correta e meio de vida correto);
- Disciplina mental (Esforço Correto, Plena Atenção e Concentração);
- Sabedoria (Pensamento correto e correta compreensão);
- Espiritismo    Apesar da questão do sofrimento não ser o ponto inicial da Doutrina dos Espíritos - cujas bases são a constatação da sobrevivência do espírito após a morte e da sua possibilidade de comunicação conosco - ela também  reconhece sua existência e classifica nosso mundo como de "provas e expiação".
     Para o Espiritismo, o sofrimento é causado pela ignorância. Ignorância de que o mundo material é transitório, de que acima de tudo o ser humano e todos os seres viventes, são espíritos em evolução. O sofrimento cessa com o progresso espiritual, com o fim do egoismo e com a clara compreensão de que os acontecimentos da vida material são, em última análise, secundários frente a realidade maior do espírito. Provas e expiações, do ponto de vista do espírito liberto da matéria, são rápidas lições na sua longa jornada evolutiva.  Para o espírito adiantado, nada mais pode lhe afetar a serenidade espiritual, sendo que nele, a "caridade" - o amor ao próximo - e a "sabedoria", lhe conduzem os atos.
    As regras morais espíritas podem ser deduzidas das leis naturais - ou Divinas - que são apresentadas no "Livro dos Espíritos", no livro terceiro. Estas regras são aprofundadas no "Evangelho Segundo o Espiritismo", onde se mostra que a moral espírita é a mesma moral contida nos ensinamentos de Jesus. No livro "Céu e Inferno", se aprofunda a questão da lei de Causa e Efeito, se veem os resultados da vivências destas regras.
    As leis morais, apresentadas no Livro dos Espíritos são:
  • Lei de Adoração: "É a elevação do pensamento em direção a Deis. Pela adoração, o ser humano aproxima de Deus a sua alma". (questão 649). " A verdadeira adoração á do coração. Em todas as suas ações, lembrem sempre que o Senhor os observa" (questão 653) "Deus prefere aqueles que o adoram do fundo do coração, sinceramente, praticando o bem e evitando o mal, àqueles que acreditam honrá-lo por meio de cerimônias que não os tornam melhores para os seus semelhantes. (...)"(questão 654).
  •  
  • Lei do Trabalho: "O trabalho é uma lei da Natureza e por isso mesmo é uma necessidade (...)" (questão 674) "O Espírito também trabalha, como o corpo. Toda ocupação útil é um trabalho" (questão 675) "O forte deve trabalhar para o fraco; na ausência de uma família, a sociedade deve ampará-lo: é a lei de caridade". (questão 685a).
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  • Lei de Reprodução: "(...) Sem a reprodução, o mundo corporal desapareceria" (questão 686) O casamento, ou seja, a união permanente de dois seres "é um progresso na marcha da humanidade" (questão 695). O efeito da abolição do casamento sobre a sociedade humana seria "o retorno à vida animal" (questão 696).
  •  
  • Lei de Conservação: O instinto de conservação é uma lei da Natureza "(...) todos os seres vivos o possuem, seja qual for o grau de sua inteligência (...)" (questão 702) "Porque todos devem colaborar nos desígnios da Providência.. Foi por isso que Deus lhes deu a necessidade de viver. A vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres (...)" (questão 703) "O instinto de conservação foi dado a todos os seres contra os perigos e os sofrimentos. Fustiguem seu Espírito e não o seu corpo, mortifiquem o seu orgulho, sufoquem o seu egoísmo, que se assemelha a uma serpente que lhes devora o coração e farão mais por seu adiantamento do que pelos rigores que não pertencem mais a este século" (tratando dos sofrimentos "voluntários" - questão 727).
  •  
  • Lei da Destruição: Todos os seres vivos, no mundo material, nascem e morrem. A morte, na natureza, é uma necessidade, pois é um instrumento de transformação. A vida material em sí mesma é um instrumento para o progresso do espírito, e a morte é o término de um ciclo, que não destrói o principio inteligente - o espírito - que continua a existir em outros planos da vida e que volta a renascer. Em nosso mundo, na natureza, a lei de destruição é um instrumento para manter o equilíbrio das espécies e garantir seu contínuo aperfeiçoamento. O homem, ser com inteligência desenvolvida, no trato com os animais, deve comportar-se sem crueldade e não destruir vidas sem necessidade - como por exemplo no caso dos animais daninhos, cujas populações devem ser controladas - toda destruição, pelo prazer de destruir indica "predominância da bestialidade sobre a natureza espiritual. Toda destruição que ultrapassa os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus. Os animais destroem apenas para sua necessidade; o homem, que tem o livre-arbítrio, destrói sem finalidade. Prestará contas do abuso da liberdade que lhe foi conferida, pois nestes casos, ele cede aos maus instintos" (questão 735). A matança de outros seres humanos, é um crime aos olhos de Deus, pois "aquele que tira a vida de seu semelhante, interrompe uma vida de expiação ou de missão e nisso está o mal "  (o espírito é imortal, assim o criminoso   atinge o corpo físico, sem destruir o ser em sí mesmo). Mesmo na guerra a destruição de outros seres é condenável pois a guerra significa "predominância da natureza animal sobre a espiritual e satisfação das paixões. Nesse estado de barbárie, os povos conhecem apenas o direito do mais forte (...)" (questão 742) e ela desaparecerá da face da Terra "quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Então todos os povos serão irmãos". (questão 743).
  •  
  • Lei de Sociedade: "Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus não deu em vão ao homem a palavra, bem como todas as outras faculdades necessárias à vida de relação" (questão 766). "Nenhum homem possui todos os conhecimentos; e é pela união social que eles se complementam uns aos outros, a fim de assegurarem o bem-estar mútuo e progredirem. Eis porque, tendo necessidade uns dos outros, são feitos para viver em sociedade e não isolados" (comentário de Kardec a questao 768).
  •  
  • Lei do Progresso: "A humanidade progride por meio da melhora gradativa dos indivíduos que se esclarecem (...) Pela pluralidade das existências, o direito à felicidade é o mesmo para todos, pois ninguém é deserdado pelo progresso (...)" (comentários de Kardec a questão 789). Uma civilização completa se reconhecerá "pelo desenvolvimento moral (...) somente terão o direito de dizerem-se verdadeiramente civilizados, quando tiverem banido de sua sociedade os vícios que a desonram e que vivam como irmãos, praticando a caridade cristã (...)" (questão 793)
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  • Lei de Igualdade: "Todos os homens são submetidos às mesmas leis naturais; todos nascem com a mesma fragilidade, estão sujeitos às mesmas dores; o corpo do rico passa pelo mesmo processo de destruição que o do pobre. Deus não concedeu, portanto, superioridade natural a nenhum homem, nem pelo nascimento, nem pela morte: são todos iguais diante dele" (comentário de Kardec à questão 803) "Deus criou todos os espíritos iguais, mas cada um individualmente viveu mais ou menos tempo e por conseguinte granjeou maior ou menor número de aquisições. A diferença está no grau de experiência e na vontade, que é o livre-arbítrio (...) (questão 804) "Assim, a diversidade de aptidões do homem não se relaciona com a natureza íntima de sua criação, mas com o grau de aperfeiçoamento que tenha chegado como espírito (...)" ( comentário de Kardec à questão 805).
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  • Lei de Liberdade: O homem é dotado de um livre-arbitrio relativo a seu grau de evolução e ao resultado de suas ações. A fatalidade com se entende vulgarmente, não existe. Somos hoje o que fizemos de nós mesmos ontem e seremos amanhã o que construirmos hoje. Desta maneira se pode dizer que fatalidade existe, quando entendida no sentido da "posição que o homem ocupa na Terra e as funções à ela inerentes, como conseqüência do genêro de existência que o Espírito escolheu, como prova, expiação ou missão. Sofre ele, fatalmente, todas as vicissitudes dessa existência, e todas as tendências, boas ou más, que lhe são próprias; mas a isto se reduz a fatalidade, porque depende de sua vontade ceder ou não a estas tendências. Os detalhes dos acontecimentos estão sujeitos às circunstâncias que ele mesmo provoque, por seus atos, e sobre os quais podem influir os Espíritos, pelos pensamentos que lhe sugerem" (comentários de Kardec - 872)
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  • Lei de Justiça, Amor e Caridade: "A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um"  (questão 875). O verdadeiro sentido da caridade, como a entende Jesus é "Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão as ofensas" (questão 886). "A lei de amor e de justiça proíbe fazer ao outro o que não queremos que nos seja feito; condena, por esse mesmo princípio, todo meio de ganho que seja contrário a essa lei". (comentário de Kardec à questão 884).
    A máxima por excelência que define a moral espírita, e resume todas as leis morais, é "Fora da Caridade não há salvação", entendendo-se por caridade o amor ativo aos semelhantes e não simplesmente a "esmola" material. É equivalente ao "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a si mesmo".- Análise
"O verdadeiro Espírita não é o que crê as comunicações, mas o que procura aproveitar os ensinamentos dos Espíritos. De nada adianta crer, se sua crença não o faz dar sequer um passo na senda do progresso, e não o torna melhor para o próximo"  - Máximas extraídas do ensinamento dos espíritos, Allan Kardec, O Espiritismo em sua mais simples expressão.
    Tanto o Espiritismo como o Budismo enfatizam a necessidade da vivência de seus ensinamentos. Conhecimento sem prática é inútil. As quatro nobres verdades, constatando que o sofrimento é resultado de nossa ignorância e nos mostrando os meios para supera-lo, são perfeitamente concordantes com os ensinamentos espíritas. A vivência delas se enquadra dentro das leis morais reconhecidas pelos Espíritas e são maneiras diferentes de expressar as mesmas regras morais ensinadas por Jesus.    A diferença na enfâse dada ao sofrimento, que no Budismo é o ponto de partida e para o Espiritismo uma conseqüência da inferioridade de nosso mundo, não chega a ser motivo de divergência. É interessante porém o leitor ter em mente essa pequena sutileza.
    Para o Espiritismo o objetivo do progresso espiritual é a felicidade do ser, consequentemente também a libertação do sofrimento, porém o próprio sofrimento pode ser um instrumento benéfico para o espírito atingir a felicidade - mostrando-lhe as conseqüências de seus erros, incentivando-o ao esforço para progredir, forçando-o a avançar quando estagnado. Como o Espiritismo considera a lei do progresso uma lei natural, a qual todos os seres estão sujeitos, além das situações decorrentes da lei da Causa e Efeito há outras escolhidas pelo próprio espírito. Vidas entre grandes dificuldades, situações bem suportadas pelo espírito, servem-lhe de oportunidades de testar seu valor e de adquirir conhecimentos e virtudes que o auxiliarão no seu progresso espiritual.
 

III - Questões Filosóficas 
Objetivos

- Budismo
"Segundo o Budismo, é o homem que traça a rota do seu próprio destino. Assim, Gautama Buda, exortava seus discípulos a que eles mesmos fossem seus próprios refúgios, ou ajudas. Estimulava em cada um o autodesenvolver-se, porque, mediante seu próprio esforço e dedicação, o homem tem em suas mãos o poder de libertar-se da escravidão, da ignorância e de todo o sofrimento" (cap. "Budismo como Ciência, Moral e Filosofia", Budismo, Psicologia do Autoconhecimento).
    O Budismo busca a transformação do ser através da destruição da ilusão do "eu", superação da ignorância. Compaixão e sabedoria como resultado da destruição total do egoismo. Libertação do sofrimento encerrando-se o ciclo de causa e efeito através do desapego ao resultado das ações, fim do "eu" e do "meu"(sem que isso signifique exatamente extinção total do ser);     Na escola Mahayana, uma grande ênfase é dada ao ideal do Bodhisattva. O Bodhisattava é o ser que já atingiu todas as condições para a libertação final, para o Nirvana, porém prefere manter-se em contato com este mundo a fim de auxiliar na libertação dos demais seres. O voto do aspirante ao Bodhisattva, é justamente de buscar o despertar em beneficio de todos.
- Espiritismo
"O objetivo essencial do Espiritismo é melhorar os homens, no que concerne ao seu progresso moral e intelectual"  Máximas extraídas do ensinamento dos espíritos, Allan Kardec, O Espiritismo em sua mais simples expressão."É assim que, pela prática do Espiritismo e com as instruções dos Espíritos elevados, pode o homem adquirir essa preciosa ciência da vida: a disciplina das emoções e das sensações, o domínio de si mesmo, essa arte profunda de se observar e, depois, de se assenhorear dos secretos impulsos de seu próprio ser". Léon Denis, Aplicacação Moral e Frutos do Espiritismo, No Invisível - FEB
    O Espiritismo busca a transformação do ser através de sua reforma moral, com a superação do egoismo e o desenvolvimento de virtudes como a caridade e a sabedoria. Pela palavra "caridade" entende-se, na Doutrina Espírita, o amor ao próximo em sua expressão mais sublime, já a palavra "sabedoria" significa o uso ético dos conhecimentos adquiridos, inclusive das leis universais, como a de causa e efeito. Como conseqüência do progresso espiritual resultante, há a libertação do sofrimento e o fim da necessidade do espírito reencarnar-se, por não necessitar mais do aprendizado proporcionado pelo ciclo de reencarnações.    Assim descreve Kardec as caracteristícas dos espíritos que atingiram esse estágio de progresso:
    Espíritos Puros: "Percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Havendo atingido a soma de perfeições a que a criatura é suscetível, não têm mais a sofrer nem provas, nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação nos corpos perecíveis, vivem a vida eterna que desfrutam no seio de Deus" (cap. Dos Espíritos, O Livro dos Espíritos, Allan Kardec).
- Análise
    O resultado da correta prática do Budismo leva aos mesmos resultados da prática da Doutrina Espírita. Os dois caminhos espirituais resultam na libertação do sofrimento, pelo fim do apego ao mundo material e ao "eu" egoísta. O "Iluminado" Budista corresponde ao conceito de "Espírito Puro" dos Espíritas.
    É muito importante notar que as palavras "compaixão" para os Budistas e "caridade" para os espíritas, tem sentido mais amplo que o empregado na conversação cotidiana. A compaixão budista, longe de ser um sentimento de piedade, é o interesse profundo e amoroso pelo destino de todos os seres e se reflete na ação de ajuda-los a encontrar seu caminho de iluminação. A caridade espírita, também está longe de ser a esmola ou simplesmente a ajuda material, é o amor fraterno em ação, representando tanto o interesse pelo bem-estar do próximo, como o desejo mais profundo de auxilia-lo na busca da verdadeira felicidade.
    Ambos, compaixão e caridade, nascem no ser a partir da compreensão de que somos mais do que um corpo material, de que estamos ligados a todos os seres e compartilhamos o mesmo destino. A felicidade, a libertação do sofrimento, é o objetivo de todas as criaturas e trabalhar em prol deste objetivo, auxiliando a todos, a meta mais nobre a que o ser pode almejar.
 

A questão da Causa Primeira

Budismo
"Certa vez, na floresta Simsapa do Kosambi (perto de Allahabad), pegando algumas folhas na mão, perguntou aos discípulos: - Que pensais, bhikkhus ? Quais as mais numerosas ? Essas poucas folhas na minha mão, ou as que estão na floresta ?
- Senhor, certamente as folhas da floresta são muito mais numerosas !
- Da mesma forma, bhikkus, do que sei não disse tudo e o que não divulguei é muito mais. E por que eu não lhes disse ? E por que eu não lhes disse ? Porque isto não é util e não conduz ao Nirvana" (Samyutta-Nikaya).
(...) Buda explicou a Malunkyaputra que a vida espiritual não depende de opiniões metafísicas. Qualquer que seja a opinião sobre estes problemas, existe sempre o nascimento, a velhice, a decrepitude, a morte, a desgraça, as lamentações, a dor, a angústia - "logo, declaro: a cessação de tudo isto é o Nirvana ainda nesta vida".
- Por conseguinte, Malunkyaputra, considere explicado o que expliquei, e o que não expliquei, como não-explicado. Não esclareci se o universo é eterno, ou não é, etc., etc., porque não é útil e não está fundamentalmente relacionado com a vida espiritual, não conduzindo ao desapego, à cessação, à tranqüilidade, à penetração profunda, à realização, ao Nirvana. Estes são os motivos pelos quais não falei. Que foi que expliquei ? Expliquei a existência do sofrimento, o aparecimento ou a origem do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho que conduz à cessação do sofrimento.E por que expliquei isto ? Porque é útil e está fundamentalmente relacionado à vida espiritual que conduz ao desapego, à cessação, à tranquilidade, à penetração profunda, à libertação, ao Nirvana". Trechos do cap. "Contra Especulações Metafísicas", Budismo, Psicologia do Autoconhecimento
    O Budismo não vê objetivos práticos nas questões envolvendo a origem do Universo e sua Causa Primeira. Considera que a essência do ser é eterna e que a questão se há uma "Causa Primeira" ou um criador não são importantes para seu destino. Assim, não acredita em um "Deus Pessoal" e afirma que o destino do ser depende unica e exclusivamente de seus atos e da lei de causa e efeito.    O problema de como o ser entrou no circulo de causa e efeito não lhe interessa, mas sim como libertar-se dele. Todos os seres (animais, vegetais, homens, "deuses", etc...), tem a mesma "essência", todos com a mesma capacidade de iluminar-se e o mesmo desejo de libertar-se do sofrimento.
Espiritismo
" Que é Deus ? Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas" Questão nº 1, O Livro dos Espíritos "A ordem universal reinante na Natureza, a inteligência revelada na construção dos seres, a sabedoria espalhada em todo o conjunto, qual uma aurora luminosa e, sobretudo, a universidade do plano geral regida pela harmoniosa lei da perfectabilidade constante, apresenta-nos, já agora, a onipotência divina como sustentáculo invisível da Natureza, lei organizadora, força essencial, da qual derivam todas as forças físicas, como outras tantas manifestações particulares suas.
Podemos, assim, encarar Deus, como um pensamento imanente, residente inatacável na essência mesma das coisas, sustentando e organizando, ele mesmo, as mais humildes criaturas, tanto quanto os mais vastos sistemas solares, de vez que as leis da Natureza não mais seriam concebíveis fora desse pensamento, antes são dele eterna expressão". cap. Deus, Deus na Natureza, Camille Flammarion.
    A concepção espírita sobre o Universo, sua metafísica, tem raizes cristãs, sua base é Deus, "Causa Primeira" de todas as coisas e de todas as leis morais e físicas que regem a criação. A lei de Causa e Efeito faz parte do ordenamento moral do Universo, cujo objetivo é o progresso do ser. O espírito, individualização do princípio inteligente, começa da forma mais simples e, conduzido por ela, evolui até a perfeição relativa[1 ] .- Análise
    Curiosamente a posição de Buda em não incentivar a especulação sobre as origens do universo e a natureza de uma causa primária, não é muito diferente da apresentada pelos Espíritos que orientaram a Codificação Espírita. Quanto Kardec procurou aprofundar as questões sobre a natureza de Deus, estes lhe responderam que há coisas que escapam a nossa compreensão atual e que não nos faria melhores o fato de especularmos a respeito, pelo contrário, poderia nos induzir ao orgulho, levando-nos a tomar nossas hipóteses por conhecimentos que efetivamente não temos:
    "(...) Deus existe, não se pode duvidar, isto é essencial. Creiam-me, pois ir mais além seria lançar-se num labirinto de onde não se poderia sair. Este conhecimento não os tornaria melhores, mais porventura mais orgulhosos, porque acreditariam saber o que na realidade não sabem. Deixem, portanto, de lado todos esses sistemas e teorias; há muitas coisas que cabe aos homens desembaraçar-se. Isto lhes será mais útil do que pretender penetrar no que é impenetrável".  Resposta a questão 14 do Livro dos Espíritos (da tradução de Sandra R. Keppler para a editora Mundo Maior).
    A principal diferença entre o Budismo e o Espiritismo está na importância que dão a questão sobre a existência de Deus, ou, em outras palavras, ao reconhecimento de uma "Causa Primeira" de todas as coisas.
    Para o Espiritismo o "problema do ser, do destino e da dor" - o "pôrque da vida" - está intrinsicamente ligado a resposta para esta questão. Na filosofia espírita o ciclo de encarnações - o samsara dos Budistas - nada mais é que um recurso didático na longa jornada evolutiva do espírito.
   É a existência da inteligência suprema, da Causa Primeira, que explica porque há uma direcionalidade nas leis morais universais, sempre no sentido de progresso - da brutalidade para a angelitude, da ignorância para a sabedoria, do mal para o bem. As próprias leis materiais são parte disto também, criando o cenário onde o espírito exercita suas faculdades e progride rumo a libertação da ignorância e do sofrimento.
    Deus, sábio e justo, atua no Universo através de leis universais. Sua essência nos é desconhecida, mas sabemos que é em última análise a realidade suprema, que tudo mantém. A concepção espírita, que pode ser classificada como de um "Deus Pessoal"[ 2 ], defende que somos nós mesmos que construimos nosso destino, através dos nossos atos, mas também postula que Deus, por ser "amor", sempre nos abre caminhos para o progresso. Somos livres para trilha-los, assim não nos isenta da responsabilidade de nossas escolhas. 

1 - Me parece que é correto dizer que Deus é o "limite" desta evolução, no sentido matemático, por ser infinito em perfeição. O ser sempre tenderá a ele, mas jamais o igualará.
2 - "Quanto à visão do Deus Pessoal e Impessoal, é preciso não esquecer que são posições humanas relativas à capacidade que temos hoje de entender a Divindade, mas que, em realidade, nada dizem sobre ela realmente. Acho que a Impessoalidade e a Pessoalidade são aspectos derivados da posição que adotamos. Em realidade, à Impessoalidade somos conduzido pela transcendência divina, e à Pessoalidade somos induzido pela imanência. Se oramos, nos relacionamos pessoalmente com o Divino, mas quando dizemos quando erguemos os olhos para o infinito, a Impessoalidade nos acorre. Como voce pode verificar mesmo considerando a Impessoalidade há  um poder de criação. Se há criação, há momentos criativos." Elzio Ferreira de Souza, comentando um esboço deste artigo e me explicando o que realmente significa o conceito de "Deus Pessoal". Foi justamente nesta questão conceitual, do que significa a crença em "Deus Pessoal", em contraposição a concepção Budista, de não aceitar um "Deus Pessoal", que encontrei os maiores obstáculos.
 

O homem em sua essência

Budismo
    A percepção que o homem tem de sí mesmo, como de um individuo distinto dos demais e com uma individualidade permanente, é uma ilusão. O que entendemos como nosso "eu" é na realidade um conjunto de circunstâncias e de agregados temporários que, na ignorância, tomamos por um todo único. Estes componentes, conhecidos tecnicamente no Budismo como "skandas", são cinco:
    - O corpo;
    - Os sentimentos;
    - As percepções;
    - Os impulsos e emoções;
    - Os atos de consciência;

    A combinação destes fatores se dá através das leis de causa e efeito e eles ocorrem não só no mundo material, como também nos mundos espirituais. O corpo sutil, espiritual, também é temporário e, do mesmo modo que o fisico, um elemento sujeito as vissitudes da lei de causa e efeito. O individuo, portanto, em sua essência, não corresponde a uma entidade isolada, eterna, mas pode-se falar de uma consciência individual - sem uma base física, como a entendemos - que é o sujeito da lei de causa e efeito e, este sim, eterno. Matthieu Ricard - no livro "O Monge e o Filósofo" - se refere a esta consciência individual como um "fluxo de consciência". A este fluxo de consciência, como resultado de suas ações se agregam os cinco "skandas", resultando no ser material ou espiritual. A libertação espiritual é descrita por Matthieu como a purificação deste fluxo até o ponto de sua pureza máxima.
    O ser que atinge a iluminação no Budismo, pelo menos no Tibetano, não deixa de existir, mas sua existência não está mais sujeita ao ciclo de reencarnações ou presa as leis de causa e efeito [1 ]. Completamente livre de todos os fatores que o prendem a um corpo perecivel, seja nos mundos materiais, seja nos mundos sutis - pois o Budismo também reconhece diferentes niveis de existência - ele goza de uma paz absoluta e da compreensão total do Universo. Sua "consciência" continua a existir - consciente de si mesma - mas sem a ilusão de que é algo independente de todas as outras consciências ou do Universo.
    "O espírito junta-se então ao próprio espírito do Buda, essa substância chamada espírito sutil, sem começo nem fim, independente do corpo e do cérebro, e sem duvida a verdadeira causa da consciência. Esse espírito sutil que se manifesta, finalmente livre de todo apego, eliminou totalmente os obstáculos que se opunham à visão 'da última natureza de toda a existência' (...) "
    "- Aliás - diz o Dalai Lama - Buda jamais falou do nirvana. Sim, ele indicou uma libertação dos renascimentos (o que só torna a noção compreensível para um ocidental  se ele admitir como fato o encadeamento das transmigrações, o samsara), mas suas indicações param por aí. Daí uma multiplicidade de interpretações. Você me pergunta o que é o nirvana. Eu lhe respondo; uma certa qualidade do espírito ".  (trechos do cap. "Para uma ciência do Espírito", A Força do Budismo).
Espiritismo
    O homem é composto do corpo material, de um corpo sutil ou fluídico denominado pelo Espiritismo de "perispírito" e do principio inteligente, denominado espírito. A essência do espírito é desconhecida para nós, por nos faltarem conceitos e percepções suficientes para entende-lo.
    O Espírito é criado por Deus simples e ignorante[2 ], ao longo de sua evolução se utiliza do "perispírito", para poder atuar nos mundos materiais, que lhe servem de estágio para o aprendizado e exercicío de suas capacidades. O perispírito se modifica conforme o nivel de evolução do ser e do mundo em que se encontra. O perispirito desempenha papel importante como intermediário entre o espírito e a matéria, sendo determinante na formação do corpo fisico quando do processo de reencarnação (interferindo, selecionando, dirigindo, complementando o código genético).
- Análise
"O fluxo de consciência é uma sorte de metáfora não distante daquela outra: o Espírito é uma centelha" Elzio Ferreira de Souza,  trecho de e-mail sobre a questão da essência do ser.
    A questão do ser humano em sua essência é bastante dificil de ser analizada, o Budismo procura desvincular a essência do ser de um ente individual e chega a imagens bastante abstratas. A melhor comparação que vi, foi a de considerar o ser como uma "onda de consciência" no infinito. Tal qual as ondas de luz, que sem um suporte material individual, assim mesmo se propagam por seus caminhos próprios no imenso oceano eletromagnético que é o espaço.    Esta "onda de consciência" - elo não material que liga todas as existências do ser, dando consistência a uma lei de causa de efeito - é que serve de "guia" a combinação dos componentes que formam o ser, resultando em um corpo sutil e, quando necessário, um corpo material. Ela é a base dos sentimentos, das emoções e até do pensamento. Dificil dizer exatamente quais são seus atributos, principalmente depois de atingido o Nirvana, mas me parece que se poderia dizer que é a inteligência pura, o espírto em seu estado mais abstrato.
    Vale lembrar que para os espíritas, a palavra "espírito" significa o "elemento inteligente" do ser, ou seja, a essência mesma , a qual se agregam, para sua jornada evolutiva, o corpo espiritual - o perispiríto - e o corpo físico. No Livro dos Epíritos, o espírito é descrito como a individualização do principío inteligente e portanto é o que retém, em última instância, a individualidade do ser. Um espírito puro é esta individualidade em seu grau de perfeição e pureza máximos.
     Do mesmo modo que não é possivel descrever-se exatamente o que é o ser após ter atingido sua Iluminação, também não há como descrever o que é o espírito:
    " O Espírito não é fácil de analisar em sua linguagem. Para os homens não é nada, porque o Espírito não é algo palpável; mas para nós, é alguma coisa. Saibam-no bem, nenhuma coisa é o nada, e o nada não existe ". (resposta a questão 23a, O Livro dos Espíritos) 

1 - "(...) Os seguidores do Vaibhashika, entendem,  portanto o nirvana final em termos da total cessação do indivíduo. Deduz-se que, quando o Nirvana final é atingido, o ser individual deixa de existir.
        Essa opinião não é aceita por muitas outras escolas budistas. Há, por exemplo, uma objeção muito conhecida, de autoria de Nagarjuna, que sustenta ser a conseqüência lógica da doutrina Vaibhashika a de que ninguém atinge o Nirvana, porque o indivíduo deixa de existir quando alcança o Nirvana. Portanto, esse posicionamento é absurdo. (...)"   (cap. "A Transformação através do altruísmo", Transformando a Mente, XIV Dalai Lama)
2 - "Simples e ignorante, o que seria isto? A mim, parece-me que é o ponto inicial da carreira do Espirito no reino hominal, ou seja o estágio do ser no momento em que atinge o processo de hominização. Poderíamos também dizer que é o momento em que ele alcança o livre-arbítrio e descobre-se responsável: na linguagem bíblica, descobre a própria nudez. (...) Outras questões, entre as quais a 540, dá outra noção do Espírito do ponto de vista da substância. O simples e ignorância é referência ética." Elzio Ferreira de Souza, comentando em e-mail o uso desta expressão no artigo.
    Na atualidade, os espíritas admitem que o princípio inteligente evolui a partir das formas mais simples de existência. Nestas formas rudimentares ele começa a aprender a se relacionar com a matéria e aos poucos vai assenhorando-se da capacidade de organizar corpos mas complexos, começa talvez pelas bactérias e seres unicelulares; de seres unicelulares progride aos vegetais; dos vegetais aos primeiros animais; destes animais simples aos animais superiores, dotados de instintos desenvolvidos e rudimentos de inteligência; dos animais mais inteligentes aos primatas ancestrais do homem; dos primatas ao homem moderno. Milênios infindáveis de evolução, nos dois planos de existência - material e espiritual - e em quantos mundos forem necessários.
    Durante esta evolução o desenvolvimento do perispírito acompanha a complexidade dos organismos, influenciando o processo de reencarnação e sendo por ele influenciado. É um dos mecanismos por detrás do processo de seleção natural e de evolução das espécies, estudado pelo seu lado puramente material por Charles Darwin.
    O livro "The Origin of the Species", de Darwin, que consagrou cientificamente a teoria da evolução biológica das espécies, foi publicado em novembro de 1859, depois do "O Livro dos Espíritos" e provocou um grande abalo na opinião publica. A resistência enfretada pelas novas teorias, principalmente no tocante a descendência biológica do homem a partir dos primatas, permite entender a cautela com que os Espíritos trataram a questão da evolução espiritual na época de Kardec.  Assim restringiram-se a detalhar o progresso do Espírito a partir do momento em que, atingido o estágio humano, ele sem maiores conhecimentos do bem e do mal - simples e ignorante - começa a exercer escolhas que determinaram seu passo rumo ao futuro.
    Desta maneira, a expressão "simples e ignorante" pode assim ser entendida, como comentou o Elzio, como uma descrição qualitativa do estado do espírito no início do seu processo de desenvolvimento humano, quando cruzou a fronteira entre o animal e o homem.  Também pode ser entendido, e neste sentido utilizei no texto, como o "simples" das formas primitivas de vida e o "ignorante" da ausência completa de qualquer sofisticação da inteligência - seja na forma de controle da organização biológica, seja instintos seja a "inteligência" humana propriamente dita.
    É um grande mistério o início desta escala de evolução, pois como os espíritos disseram ao final da resposta para a questão 450, citada pelo Elzio, "é assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo. Admirável lei de harmonia, de que seus Espíritos limitados não podem abranger o conjunto". Tal resposta deixa entrever a possibilidade de que por detrás da organização da matéria, da energia tão bem estruturada em particulas elementares sob as leis da natureza, possa já estar atuando o principío inteligente em seus primórdios. Na mesma linha de raciocinio, Ernesto Bozanno, cita em seu livro "Os Animais tem Alma", um pequeno trecho de uma obra mediunica:
O gás se mineraliza,
O mineral se vegetaliza,
O vegetal se humaniza,
O homem se diviniza.
(Old Truth in New Light, Lady Cathness)
    Por toda a linha de evolução, o processo é progressivo. Um espírito que atingiu o nivel evolutivo suficiente para nascer no reino animal, não tem mais necessidade ou possibilidade de nascer em um vegetal. Da mesma maneira, o espírito que atingiu o nivel dos primeiros primatas não volta ao animal. Finalmente, o homem moderno não teria como reencarnar no Australopitéco. A própria sofisticação do perispírito - definido por Hernani Guimarães Andrade como um modelo organizador biológico (vide seu livro Espírito, Perispírito e Alma), por conduzir os processos reencarnatórios, selecionando a bagagem genética e integrando-a as necessidades karmicas do espírito - tornaria impossivel tal reencarnação. O "homo sapiens" de nossos dias, só pode reencarnar como "homo sapiens", ou, caso tenha a necessidade de reencarnar em outros mundos, em um ser com uma organização nervosa equivalente em sofisticação. Mesmo em um desterro a mundo mais atrasado, o ser até nasceria em um hominídio primitivo culturalmente, mais ainda assim, que reunisse as condições nervosas necessárias.    Esta posição filosófica - distinta da adotada pela metempsicose grega e pelo Budismo - de que o ser humano sempre reencarna como ser humano,  justifica as respostas dos Espíritos as questões 592 a 610 (Os animais e o homem), em que apresentam os animais como seres distintos dos homens. Estas questões, que levaram muitos espíritas a negar a continuidade espiritual entre os reinos da natureza, podem ser entendidas perfeitamente se considerada também a resposta a questão 611:
    "Duas coisas podem ter uma mesma origem e absolutamente não se assemelharem mais tarde. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, suas flores e seus frutos no germe informe contido na semente de onde saíram ? No momento em que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período de humanidade, não há mais relação com seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente. No homem, há somente de animal o corpo, as paixões que nascem da influência do corpo e o instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode dizer, portanto, que tal homem é a encarnação do Espírito de tal animal; logo a metempsicose, tal como a entendem, não é exata."
    Apesar da clareza desta resposta, foram necessários muitos anos para que se formasse o consenso em torno da questão. Pouco depois da época de Kardec, eminentes pesquisadores como Ernesto Bozzano (vide seu livro "Os Animais tem alma ?") e Gabriel Delanne, (vide seu livro "A reencarnação") apresentaram provas inquestionaveis de que os animais tinham alma (espírito encarnado), que sobrevive a desencarnação tal qual a alma humana. Mais ainda, da mesma maneira, reencarnam e evoluem segundo as mesmas leis do progresso e de ação e reação.
    Nas últimas décadas, principalmente com a obra mediunica de Francisco Cândido Xavier - veja-se, por exemplo, o livro "Evolução em Dois Mundos" do espírito André Luiz - a resistência a idéia praticamente desapareceu e hoje já é amplamente aceito que não há seres privilegiados na criação.
    "Evolução no Tempo: É assim que dos organismos monocelulares aos organismos complexos, em que a inteligência disciplina as células, colocando-as a seu serviço, o ser viaja no rumo da elevada destinação que lhe foi traçada do Plano Superior, tecendo com os fios da experiência a túnica da própria exteriorização, segundo o molde mental que traz consigo, dentro das leis de ação, reação e renovação em que mecaniza as próprias aquisições, desde o estímulo nervoso à defensiva imunológica, construindo o centro coronário, no próprio cérebro, através da reflexão automática de sensações e impressões, em milhões e milhões de anos, pelo qual, com o Auxílio das Potências Sublimes que lhe orientam a marcha, configura os demais centros energéticos do mundo íntimo, fizando-os na tessitura da própria alma.
    Contudo, para alcanzar a idade da razão, com o título de homem, dotado de raciocínio e discernimento, o ser, automatizado em seus impulsos, a romagem para o reino angélico, despendeu para chegar aos primórdios da época quaternária, em que a civilização elementar do silex denuncia algum primor de técnica, nada menos de um bilhão e meio de anos. Isso é perfeitamente verificável na desintegração natural de certos elementos radioativos na massa geológica do Globo. E entendendo-se que a Civilização aludida floresceu há mais ou menos duzentos mil anos, preparando o homem, com a benção do Cristo, para a responsabilidade, somos induzidos a reconhecer o caráter recente dos conhecimentos psicológicos, destinados a automatizar na constituição fisiopsicossomática do espírito humano as aquisições morais que lhe habilitarão a consciência terrestre a mais amplo degrau de ascensão à Consciência Cósmica" André Luiz, no livro Evolução em Dois Mundos.
 

Concepção deste mundo

Budismo
"(...) convém esclarecer que a verdade do sofrimento, enunciada pelo Buda em seu primeiro sermão, pertence à verdade relativa e não descreve a natureza última das coisas, pois aquele que atinge a realização espiritual goza de uma felicidade inalterável e percebe a pureza infinita dos fenômenos: nele, todas as causas de sofrimento desapareceram. Então, por que destacar tanto o sofrimento ? Para tomar consciência, em um primeiro momento, das imperfeições do mundo condicionado. Neste mundo da ignorância, os sofrimentos se acrescentam uns aos outros: um de nossos pais morre, o outro o segue algumas semanas depois. As alegrias efêmeras se transformam em tormentos: parte-se para um alegre piquinique em família e nosso filho é picado por uma cobra. A reflexão sobre a dor, portanto, deve nos incitar a tomar o caminho do conhecimento. (...) " Matthieu Ricard, Ação sobre o mundo e ação sobre sí mesmo, O Monge e o Filósofo, Ed. Mandarim
    A ilusão de um "eu" individual leva ao egoismo e a considerar as coisas deste mundo como permanentes. Este apego leva ao sofrimento. O homem deve libertar-se dessa ignorância, compreender que tudo é impermanente (transitório) e aí terá atingido a felicidade.    O ser que age para se libertar da ignorância, seguindo as regras do caminho óctuplo, vive longe dos extremos - nem o ascetismo exagerado, muito menos o apego desmesurado aos bens materiais - daí a expressão "caminho do meio".  Pelo ideal do Bodhisattva, há a valorização do esforço para melhorar o mundo e trazer a felicidade para todos. O Budista deve sempre agir para diminuir o sofrimento, onde e da maneira que lhe for possível.
Espiritismo
"172 - Todas as nossas diferentes existências realizam-se na Terra ? Não, vivemo-las nos diferentes mundos: as da Terra não são as primeiras nem as últimas, porém das mais materializadas e distantes da perfeição.173 - A cada nova existência corporal a alma passa de um mundo a outro ou lhe é possivel viver muitas vidas no mesmo planeta ? Pode reviver várias vezes no mesmo planeta, se não estiver suficientemente avançada para passar a um mundo superior." O Livro dos Espíritos
    O mundo material é transitório, temos uma percepção limitada da realidade devido as nossas limitações de entendimento e de percepção. Como o mundo fisico é uma escola na jornada evolutiva do ser, e as vissitudes da vida material desafios para o espírto, o verdadeiro espírita deve sempre procurar melhorar a sí mesmo e, consequentemente, melhorar também seu modo de agir no mundo.  Assim, pela lei de caridade e pela prática da sabedoria, o espírita deve sempre procurar melhorar a situação de seu próximo e da sociedade em que vive. O Espiritismo não aprova os extremos, nem o ascetismo exagerado nem o apego aos bens materias. Somos depositários temporários dos bens deste mundo e devemos emprega-los do melhor modo possível para o bem de todos.- Análise
    A primeira vista, em um estudo superficial, o Budismo parece ter uma visão pessimista deste mundo, por sua aguda percepção do sofrimento e de suas causas. Isso porém não corresponde a realidade, pois faz parte das bases doutrinarias do Budismo a conscientização de que é possivel superar-se o sofrimento e agir de tal modo que se possa ter um razoavel grau de felicidade já nesta vida. Desta maneira, a concepção do mundo - e consequentemente da ação do homem no mundo - valoriza o esforço no sentido do bem e do progresso.
    O Espiritismo por outro lado, valoriza imensamente as oportunidades de aprendizado oferecidas por este mundo material, enfatizando que o correto agir, conforme as leis morais, resulta não só no progresso individual como no coletivo. Para o Espiritismo ainda estamos a caminho da verdadeira civilização, onde as leis de amor e de justiça serão aplicadas em sua verdadeira extensão. Para que esta civilização seja atingida, precisamos nós todos nos empenharmos no esforço de reforma interior e consquente mudança de comportamento.
    Uma vez que se compreenda que somos espíritos, temporariamente reencarnados em um corpo material com finalidades educativas e que tudo neste mundo é transitório, se tem uma nova visão do mundo e pode se atingir a felicidade relativa que nosso nivel de progresso permite. A verdadeira felicidade só é atingida com o progresso do espírito e sua depuração de todas suas imperfeições.
    O fim do egoismo, almejado tanto pelo Budismo, como pelo Espiritismo, transformam o individuo e o mundo ao seu redor. Não há o apelo para o abandono da ação no mundo, mas o redirecionamento desta ação. O melhor exemplo dentro do Budismo é o próprio Dalai Lama, em seu trabalho incansável -  e pacifico, conforme as diretrizes de Buda - em prol de seu povo.
 

Responsabilidade frente ao destino

Budismo
Os fenômenos mentais têm como precursora a mente,
 fundam-se na mente, são feitas da mente;
Se um homem fala ou age com mente corrupta,
Em conseqüência sofrimento o segue, como a roda
 nos passos do boi (que puxa a carroça).
Os fenômenos mentais têm como precursora a mente,
   fundam-se na mente, são feitas da mente;
Se um homem fala ou age com mente pura,
Em conseqüência felicidade o segue, como a sombra,
    que não vai embora. 
Os versos gêmeos, Dhammapada
     O homem é totalmente responsável por seu destino. Tudo o que lhe ocorre é devido a lei de causa e efeito e ele tem o livre arbitrio relativo (condicionado por seu carma passado, que o coloca em uma situação mais ou menos dificil no presente) para agir e mudar seu futuro. Não há graça divina ou intervenção de um criador no destino individual de cada um.    Grupos sociais - por serem formados de individuos com atuação em comum, portanto com compromissos similares com a lei de causa e efeito - também tem o seu "karma" coletivo. Da mesma maneira que com o individuo, um grupo social é totalmente responsável por seu destino, pois o que lhe ocorre é conseqüência dos atos de seus menbros.
    Importante notar que o ser - no ciclo de reencarnações -  pode nascer como qualquer criatura sensciente. Não há nada que impeça que um homem renasça em um animal e vice-versa, se os seus atos o levarem a tal condição.
Espiritismo
"O nosso estado psíquico é obra nossa. O grau de percepção, de compreensão, que possuimos, é o fruto de nossos esforços prolongados. Fomos nós que o fizemos ao percorrer o ciclo imenso de sucessivas existências. O nosso invólucro fluídico, sutil ou grosseiro, radiante ou obscuro, representa o nosso valor exato e a soma de nossas aquisições. Os nossos atos e pensamentos pertinazes, a tensão de nossa vontade em determinado sentido, todas as volições do nosso ser mental, repercutem no perispírito e, conforme sua natureza, inferior ou elevada, generosa ou vil, assim dilatam, purificam ou tornam grosseira a sua substância. Daí resulta que, pela constante orientação de nossas idéias e aspirações, de nossos apetites e procedimentos em um sentido ou noutro, pouco a pouco fabricamos um envoltório sutil, recamado de belas e nobres imagens, acessível às mais delicadas sensações, ou um sombrio domicílio, uma lôbrega prisão, em que, depois da morte, a alma restringida em suas percepções, se encontra sepultada como num túmulo. Assim cria o homem para si mesmo o bem ou o mal, a alegria ou o sofrimento. Dia a dia, lentamente, edifica ele seu destino. Em si mesmo está gravada sua obra, visível para todos no Além. É por esse admirável mecanismo das coisas, simples e grandioso ao mesmo tempo, que se executa, nos seres e no mundo, a lei da casualidade ou de conseqüência dos atos, que outra não é senão o cumprimento da justiça" Léon Denis, O Espírito e sua forma, No Invisível - FEB
    O homem é totalmente responsável por seu destino. Além da lei de causa e efeito, há outras leis morais, entre elas a do progresso. Assim nosso livre arbitrio é relativo, limitado por nosso carma passado, pelo nosso "estágio" de desenvolvimento e pelas nossas necessidades educativas.    Durante o período em que o ser necessita do ciclo de reencarnações, para sua evolução, há uma linha crescente de sofisticação dos corpos físicos utilizados para sua manifestação no mundo material, através dos renascimentos. O Espírito sempre evoluiu dos seres mais simples para os mais complexos e, embora possa estacionar temporariamente em um dos estágios, jamais regride. Assim, ao longo dos milênios, o vegetal se tornará animal, o animal evoluirá até atingir o estágio de ser humano, e o ser humano evoluirá até conseguir se tornar espírito puro, livre da necessidade da reencarnação. A evolução do espírito, significa também a evolução do seu perispírito, cada vez mais sutíl e apto a servir de intermediário na ligação com corpos fisicos mais sofisticados. A reencarnação de um espírito que já atingiu o estágio da humanidade em um animal seria impossivel devido a própria incompatibilidade do períspirito.
    O ser humano compartilha a mesma natureza espiritual dos demais seres sencientes, é diferente destes apenas por ser "mais velho" na jornada evolutiva. Seu espírito aprendeu as primeiras lições de vida - desenvolvendo os automatismos - nos vegetais, depois aprendeu as sensações e os instintos no mundo animal e, agora, na condição humana, tem como desafio aprender a usar a inteligência, a emoção e a intuição.
   A caminhada evolutiva, apesar de conquista individual de cada ser, pode ser feita em grupos afins (tal qual nas escolas há grupos de alunos que seguem juntos por diversas classes), com o amparo mutuo. Familias, nações e mundos são grupos de individuos afins.  Estes grupos sociais estão sujeitos a compromissos comuns com a lei de causa e efeito. Compromissos que são conseqüência da atuação coletiva de seus membros ou das necessidades de aprendizado compartilhadas por eles.
- Análise
    Tanto o Budismo como o Espiritismo postulam a responsabilidade do homem, individualmente ou como membro de um grupo social, perante seu destino.
    Deve-se notar que há uma interessante diferença na amplitude aceita para os efeitos dos atos realizados pelo ser em sua existência. Para o Budismo, em conseqüência de seus atos, o ser pode renascer entre os reinos inferiores da natureza, mesmo depois de ter atingido a condição de ser humano. Para o Espiritismo, por seus atos o espírito pode estacionar, mas nunca regredir na escala evolutiva.
    Para a filosofia espírita, a evolução tem componentes morais e intelectuais. Nem sempre os dois são desenvolvidos pelo espírito no mesmo ritmo e isso pode resultar em ações que parecem incompatíveis com a situação aparente em que ele se encontra, mas que na realidade são manifestações de imperfeições ainda não superadas.
 

Atitude perante a Fé

Budismo
"Exatamente como as pessoas verificam a pureza do ouro queimando-o no fogo, cortando-o e o examinando numa pedra de toque, da mesma forma, ó monges, deveis aceitar minhas palavras depois de submetê-las a um exame crítico e não por reverência a mim" Buda, citado pelo Dalai Lama no livro "Transformando a Mente"."Sua fé deve ser racional, baseada na inteligência, para que quando as pessoas questionarem e tentarem refutar sua crença e prática você esteja apto a sustentar seus argumentos; não pode cultivar uma fé cega. Por isso, deve basear sua crença em um alicerce firme. Com inteligência, você estará invulnerável a questionamentos. Do contrário, como dizem os mestres Kadampa, "a fé isoladamente é como um cego, que pode ser levado por outra pessoa a qualquer lugar se lhe faltar sabedoria". Assim, a fé sustentada pelo conhecimento é indispensável à prática budista, enquanto que crença e compaixão exercidas isoladamente são características comuns a todas as principais religiões. Por isso, cultivando fé com base no alicerce correto, você será racional e firme". Dalai Lama, cap. Principais meditações Lamrim, O Caminho da Felicidade.
    A doutrina Budista fundamenta-se em constatações feitas por Buda, que podem ser verificadas por qualquer pessoa. Naturalmente o esforço de verificação exige longo trabalho de preparação interior - pois o campo de pesquisas é a própria mente humana e tem por ferramenta a meditação. Com uso da meditação, o homem pode estudar a si mesmo e os seus processos mentais, desfazendo os enganos que o prendem a ignorância e ao mesmo tempo transformando-se para atingir a iluminação.    Do ponto de vista Budista, a meditação é uma disciplina espiritual que permite controle sobre nossos pensamentos e emoções. Sob controle eles podem ser analisados e selecionados. Podem ser focados em objetivos determinados, levando a uma observação mais cuidadosa e profunda. Basicamente há a meditação "shamatha" - permanência serena - que mantém a concentração da atenção em um só objeto e a meditação "vipasyana" - discernimento penetrante - em que além da simples concentração da atenção, há o esforço do racioncínio em compreender o objeto da meditação.
    A importância da meditação e da transformação mental é tão grande no Budismo que este desenvolveu uma psicologia bastante interessante, com profundos conhecimentos sobre os processos mentais, sua relação com as leis de causa e efeito e com a situação do ser no mundo espiritual.
    Além da verificação direta e da dedução, o Budismo também reconhece como critério de verdade o testemunho - ou os ensinamentos - de pessoas fidedignas. Neste caso, o que torna estas pessoas fidedignas não é o seu conhecimento ou suas palavras, mas sim sua vivência da doutrina. Mestres espirituais que através de anos de estudo e de prática dos ensinamentos de Buda atingiram as experiências de que dão testemunho.
    O Budismo não desconhece os fenômenos mediunicos, que até acabam ocorrendo como conseqüência das práticas de meditação, mas devido a seu enfoque na iluminação pelo fim da ilusão do "eu", na auto-análise, nos fenômenos interiores, não os faz objeto de seu estudo.
 - Espiritismo
"Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as pocas da humanidade", Allan Kardec, Evangelho Segundo o Espiritismo"Na dúvida, abstém-te, diz um de vossos antigos provérbios. Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência inegável. Ao aparecer uma nova opinião, por menos que vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom senso reprovam, rejetai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa. Com efeito, sobre essa teoria poderíeis edificar todo um sistema que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento construído sobre a areia movediça. Entretanto, se rejeitai hoje certas verdades, porque não estão para vós clara e logicamente demonstradas, logo um fato chocante ou uma demonstração irrefutável virá vos afirmar a sua autenticidade". Erasto, Influência moral do médium, O Livro dos Médiuns.
    A ciência espírita se baseia necessariamente na existência dos espíritos e sua intervenção no mundo material. A verificação destas bases é feita pelo estudo das manifestações dos espíritos através dos fenômenos mediunicos. Estas manifestações podem ser espontâneas ou provocadas. O que caracteriza a manifestação dos espíritos, frente a grande quantidade de fenômenos fisicos existentes, é a vontade independente e a inteligência que demonstram.    O estudo das manifestações dos espíritos, longe de ser um campo fácil de investigação, exige grande observação e estudo, pois se lida com seres independentes e não forças cegas da natureza. Como os fenômenos normalmente não são reprodutiveis a vontade em um laboratório, há que se dedicar a anlisâ-los quando ocorrem e considerar sempre seu conjunto.
    Como, em essência, o homem é um espírito encarnado, existem também fenômenos provocados pelo próprio "médium", classificados sob a denominação de animismo, e que devem receber uma grande atenção para não serem confundidos com as comunicações dos espíritos e levarem a caminhos errados. O inconsciente, e suas manifestações na personalidade, são também fenômenos animicos e nesta categoria são estudados pelo Espiritismo desde o seu surgimento.
    O estudo das manifestações dos Espíritos, além do objetivo de comprovação cientifica das bases da Doutrina, também tem o escopo de aprofundar os conhecimentos sobre o Espírito, sua situação no mundo espiritual, as leis que regem seu destino e as que regem a comunicação entre o mundo material e o espiritual. Este estudo também acompanha o avanço das ciências, de modo que o Espiritismo esteja sempre a par dos progressos realizados nos demais campos do conhecimento humano.
    Partindo da base fornecida pelas manifestações dos espíritos, o Espiritismo também estuda as comunicações obtidas através delas. Assim pode se dizer que a "Ciência Espírita compreende duas partes: uma experimental, sobre as manifestações em geral; a outra, filosófica, sobre as manifestações inteligentes. Quem quer que tenha observado somente pelo ângulo da primeira, está na posição daquele que conheceria a Física apenas pelas experiências recreativas, sem haver penetrado no fundamento da Ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensinamento dado pelos Espíritos e os conhecimentos que esse ensinamento comporta são muito sérios para poderem ser assimilados de outro modo que não seja por um estudo profundo e contínuo, feito no silêncio e no recolhimento; porque só nestas condições se pode observar um número infinito de fatos e de nuanças que escapam ao observador superficial e permitem firmar uma opinião" (Allan Kardec, Introdução ao "Livro dos Espíritos).
    Um aspecto a ser comentado, é que o avanço de algumas disciplinas cientificas acadêmicas rumo as realidades espirituais as tem  colocado em relação próxima com o Espiritismo. Assim é comum encontrarem-se Espíritas contribibuindo diretamente nas áreas de psicologia, com a Psicologia Transpessoal e  a Terapia de Vidas Passadas, e de medicina,  com a psicossomática e a homeopatia.
Análise
    Me parece que o Budismo e o Espiritismo avançam para resultados muito semelhantes tendo dois pontos diferentes de partida. Enquanto o Budismo - dentro de um contexto cultural oriental - parte dos fenômenos internos ao individuo em direção a realidade que lhe transcende, o Espiritismo parte das manifestações dos espíritos, do mesmo individuo liberto da matéria, em direção a mesma realidade. As duas Doutrinas rejeitam a fé cega e enfatizam a necessidade do estudo prolongado e sério. Não basta só procurar, há que se saber como ...
 

IV - Prática
Impacto na sociedade

Budismo
"Que eu seja motivo de prazer
De acordo com a vontade de todos os seres sencientes
E sem interferência, como são a terra
a água, o fogo, o vento, as ervas medicinais e florestas.
Que eu seja caro aos seres sencientes
Como sua própria vida, e que eles me sejam caros.
Que seus pecados frutifiquem para mim
E todas as minhas virtudes para eles.

(...)
Enquanto perdurar o espaço,
Enquanto persistirem os seres sencientes,
Que eu também possa permanecer
Para dissipar as desgraças do mundo." 
Estrofes de textos budistas citadas pelo Dalai Lama para explicar os ideais de um Bodhisattva Do livro Transformando a Mente.
    O Budismo considera que a fonte dos problemas economicos e sociais é o apego ao "eu", o "egoismo". Sua influência visa diminuir o egoismo nos individuos e através da melhora do individuo, melhorar a sociedade. Considera que todos os seres senscientes (que buscam a libertação do sofrimento) tem direitos e que devem ser tratados com compaixão.Espiritismo
"O homem que se ilumina conquista a ordem e a harmonia para si mesmo. E para que a coletividade realize semelhante aquisição, para o organismo social, faz-se imprescindível que todos os seus elementos compreendam os sagrados deveres de auto-iluminação" Emmanuel, médium Francisco Cândido Xavier, da resposta a questão 234, O Consolador - FEB."Na hora atual da humanidade terrestre, em que todas as conquistas da civilização se subvertem nos extremismos. o Espiritismo é o grande iniciador da Sociologia, por significar o Evangelho redivivo que as religiões literalistas tentaram inumar nos interesses econômicos e na convenção exterior de seus prosélitos.
Restaurando os ensinos de Jesus para o homem e esclarecendo que os valores legitimos da criatura são os que procedem da consciência e do coração, a doutrina consoladora dos Espíritos reafirma a verdade de que a cada homem será dado de acordo com seus méritos, no esforço individual, dentro da aplicação da lei do trabalho e do bem; razão pela qual representa o melhor antidoto dos venenos sociais atualmente espalhados no mundo pelas filosofias politicas do absurdo e da ambição desmedida, restabelecendo a verdade e a concordia para os corações" Emmanuel, médium Francisco Cândido Xavier, da resposta a questão 59, O Consolador - FEB.
    O Espiritismo considera que a fonte dos problemas economicos e sociais é o egoismo, fruto da ignorancia e do pouco progresso moral dos individuos que formam as sociedades. Sua influência visa diminuir o egoismo e através da melhora do individuo, melhorar a sociedade.  Considera que todos os seres vivos são solidários (o progresso do espírito se dá através de uma longa cadeia evolutiva
dos seres mais simples aos mais complexos) e portanto tem direitos, todos devem ser tratados com caridade.
- Análise
   A reforma de uma sociedade não pode ser feita apenas através de leis externas, sem alterações fundamentais nos individuos que a compõe. Liberdade, igualdade e fraternidade são, em essência, conquistas que só poderão ser verdadeiramente estabelecidas quando o egoismo tiver sido combatido eficazmente. O combate ao egoismo exige uma transformação mental ou moral, decorrente de uma salutar disciplina espiritual. Não de trata de almejar uma sociedade regida por normas religiosas, ou dogmas, pois tanto o Budismo como o Espiritismo, não os tem, mas de uma sociedade em que a prática da compaixão, da caridade e do amor ao próximo são normas livremente escolhidas por seus cidadões. A escolha, por sua vez, não decorre da adesão cega a uma fé, mas a certeza adquirida no estudo próprio, de que a realidade última transcende a matéria - que somente o desapego ao eu e a adesão a normas morais universais trazem a verdadeira felicidade.
 

Organização Interna

  - Budismo
"Ele cujo prazer é o Darma, que se deleita no Darma,
    que medita no Darma.
Que evoca o Darma -, este bikshu não renega o
    verdadeiro Darma".
Verso 364 - Dhammapada, trad. Nissim Cohen, ed. Palas Athena
"O homem que desejar ser meu discípulo deverá abandonar todas as relações diretas com a família, a vida social mundana e toda a dependência a riqueza. O homem que tiver abandonado tais relações em prol do Dharma e não tiver abrigo para o corpo e a mente tornar-se-á meu discípulo e será chamado de irmão sem lar."
Os Irmãos sem Lar, A Doutrina de Buda, Siddharta Gautama, ed. Martin Claret.

Para se tornar um irmão leigo, deve-se ter uma inabalável fé em Buda, deve-se acreditar em Seus ensinamentos, estudar e pôr em prática os preceitos, e deve-se apreciar a Fraternidade."
Os Irmãos Leigos, A Doutrina de Buda, Siddharta Gautama, ed. Martin Claret.
    Desde o início das pregações de Buda, a prática de seus ensinamentos em todos os seus desdobramentos - com seus altos níveis de realização espiritual em busca da iluminação - levou algumas pessoas a se desligarem completamente das atividades mundanas e a se dedicarem a uma vida de renuncias e de meditações. Estas pessoas, chamadas de bikshus (inicialmente com o sentido de monges mendicantes), formam a "Sangha", a comunidade de monges budistas. A continuidade desta comunidade, com variações de forma e organização pelos vários países pelos quais o Budismo se propagou, tem sido o principal fator de preservação e divulgação do Dharma.    Os ensinamentos de Buda também podem ser seguidos e praticados sem que o discípulo se desligue completamente de seus laços com a familia e a sociedade. Naturalmente ele não poderá se dedicar tão intensamente as práticas de meditação. O resultado deste fato é que, ao lado da Sangha, existem os budistas leigos.
    Assim a diferença entre os monges e os outros budistas está na intensidade com que podem se dedicar ao Dharma. Os monges dedicam-lhe todo o seu tempo.
 - Espiritismo
"O médium é um companheiro.
É um trabalhador.
É um amigo.
E é sobretudo nosso irmão, com dificuldades e problemas análogos àqueles que assediam a mente de qualquer espírito encarnado".
VI-Médiuns, Mediunidade e Sintonia, Emmanuel, médium Francisco Cândido Xavier, ed. CEU
"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações".
"Os Bons Espíritas", no cap. XVII (Sêde Perfeitos) do "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Allan Kardec, EDICEL

"Embora este regulamento tenha resultado da experiência, não o damos como um modelo obrigatório, mas unicamente para facilitar às sociedades em formação, que poderão tomar por normas as disposições que considerem úteis e aplicáveis às circunstâncias que lhes sejam próprias. Não obstante já se apresente simplificada, a sua estrutura poderá ser ainda mais reduzida quando se trate, não de sociedade regularmente constituída, mas de pequenos grupos particulares que só necessitem de estabelecer medidas de ordem interna, de preservação e de regularidade de seus trabalhos"
Cap. XXX - Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o "Evangelho Segundo o Espiritismo", Allan Kardec, EDICEL
    Não há um "acestismo" espírita, no sentido de uma classe de monges dedicados ao eu estudo e divulgação. Muito menos uma hierarquia, pois a Doutrina Espírita não impõe uma forma de organização. A forma de organização proposta por Allan Kardec foi  a adotada pela "Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas" [1]  que serviu de modelo para os grupos espíritas posteriores, do mesmo modo que a "Revue Spirite" foi o modelo para o jornalismo espírita.    Assim. ao longo da história do Espiritismo, se formou um "movimento espírita" organizado em torno de grupos espíritas. Surgiram grupos com diversas finalidades - estudo, atividades filantrópricas, reuniões religiosas, etc... Também surgiram entidades maiores como federações e associações nacionais.
    Importante notar que se pode perfeitamente ser espírita sem pertencer a nenhum grupo espírita. Do mesmo modo, não há nenhuma obrigação de que um grupo se filie a uma associação ou outra. A organização do movimento espírita é totalmente voluntária e visa apenas juntar esforços no estudo, na prática e na divulgação da Doutrina. Não há privilégios ou prerrogativas doutrinárias associadas a qualquer posição dentro do movimento espírita[2].
    Uma forma muito comum de grupo espírita é o familiar. Amigos e parentes que se reunem periodicamente para o estudo das obras básicas, principalmente do estudo do evangelho.  Muitos dos grupos maiores nasceram em reuniões familiares, pelo aumento do número dos participantes e principalmente em torno de personalidades marcantes do movimento espírita. Pelas próprias características da Doutrina, os médiuns acabam desempenhando o papel de núcleo dos diversos grupos e ponto de referência para os demais individuos.
    A mediunidade, como faculdade natural no ser humano, efetivamente não dá a ninguém privilégios especiais dentro do Espiritismo. Apenas capacita o médium a ser um trabalhador em benefício de todos.
- Análise
    A forma de organização difere entre o Budismo e o Espiritismo.  A diferença está na existência entre os budistas, da "Sangha", a comunidade de monges dedicados ao estudo e divulgação do Dharma. No Espiritismo, tanto o estudo como a divulgação, podem ser feitos individualmente ou por grupos formados voluntariamente por seus adeptos, sem votos especiais.

[1] - Vide "O Livro dos Médiuns" (cap. XXIX - Reuniões e Sociedades e XXX - Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas) ou "Obras Póstumas" ("Constituição do Espiritismo").
[2] - As estruturas existentes dentro dos grupos espíritas são puramente administrativas e operacionais.


 
Ritos


- Budismo
"O ritual - que consiste em molhar o ombro esquerdo, o direito e depois as costas da imagem - simboliza a purificação da mente" (Uma breve explicação do ritual de despejar agua em uma imagem de Buda menino. Este ritual fez parte de uma celebração budista que teve lugar no parque Ibirapuera, comemorando o nascimento, a iluminação e a morte de Buda. "Celebração faz o Ibirapuera virar templo budista",  Mauro Mug, Jornal O Estado de São Paulo, 27 de maio de 2002)
"Pense em todos os milhões de homens e mulheres que inclinaram suas cabeças em oração  enquanto acendiam velas. Será que alguém acredita que Buda, ou qualquer outra imagem do absoluto, precisa de uma vela para enxergar ou se aquecer ? Acender uma vela é um ato simbólico, uma forma ritualizada de oferecer luz a escuridão. A vela simboliza a luz interna e a sabedoria luminosa que nos guia através da escuridão da ignorância e da confusão. A chama brilhante da vela é um lembrete externo da luminosidade interna e da clareza - a chama viva espiritual que brilha no templo do coração e da alma". O Despertar do Buda Interior, cap. "Hoje, agora mesmo", Lama Surya Das, trad. Anna Lobo, ed. Rocco.
    No Budismo, os rituais tem um papel importante de auxiliares nas práticas de meditação e de formas simbólicas de expressão dos seus ensinamentos.

    O papel do simbolismo pode ser avaliado em sua correta dimensão quando se considera que a Doutrina foi ensinada oralmente por Buda e só posteriormente transcrita. Mesmo após seu registro na forma escrita, a forma mais valorizada da passagem do Dharma foi, e continua sendo, a transmissão viva de um mestre para seus discipulos. Assim, simbolos e rituais correspondem a uma forma muito eficaz de fixar idéias e memorizar ensinamentos complexos.

    Também o contato do Budismo com outros povos, e sua grande tolerância religiosa, o levou a absorver práticas de diversas origens e transformá-las conforme sua mensagem. Assim, por exemplo, encontramos no Budismo Tibetano rituais que remontam as práticas ancestrais do Tibet.

    Em essência seria possível  conceber o Budismo sem rituais. É perfeitamente possivel seguir o caminho óctuplo sem eles e nada nas "Quatro Nobres Verdades" está amarrado a suas práticas. Mas seria uma visão muito parcial e despojaria o Dharma de toda sua riqueza simbólica acumulada em mais de 2.500 anos de história.

- Espiritismo
"653 - A adoração tem necessidade de manifestar-se exteriormente ? - A verdadeira adoração é a do coração. Em todas suas ações, lembrem sempre que o senhor os observa". O Livro dos Espíritos

"653a - A adoração exterior é útil ? Sim, se ela não representar um vão simulacro. É sempre útil dar um bom exemplo, mas os que o fazem apenas por afetação e por amor-próprio, e cuja conduta desmente a sua aparente piedade, dão um exemplo antes mau do que bom, fazem mais mal do que supõem". O Livro dos Espíritos.
    O Espiritismo não tem rituais, principalmente por considerá-los desnecessários frente a prática sincera do amor ao próximo. Importante observar que ele respeita todas crenças sinceras e suas formas de manifestação.

    Normalmente as reuniões espíritas são organizadas conforme a finalidade do grupo, há reuniões de estudo de obras espíritas, reuniões com palestras doutrinárias, reuniões de auxilío espiritual, onde se aplicam passes e reuniões mediunicas dos mais diversos tipos. As manifestações mediunicas variam grandemente, desde reuniões dedicadas a psicografia ou a pintura mediúnica, até o atendimento a espíritos sofredores desencarnados.

    As aplicações de passe também tomam formas diferentes conforme as caracteriticas dos grupos e o tipo especifíco de ação curativa que se almeja alcançar. Embora em alguns grupos as aplicações de passe possam parecer gestos ritualistícos, são na realidade técnicas desenvolvidas ao longo do tempo para dar maior eficiência a transmissão dos fluidos magnéticos aos pacientes.

    Sem fugir ao escopo deste artigo, gostaria de observar que os passes são aplicados com o intuito de assistência ao próximo e essencialmente não são exclusividade da doutrina espírita. Embora sua origem remonte a antiguidade - o próprio Jesus o aplicava aos doentes - seu estudo moderno foi retomado a partir de Mesmer no século XVIII e reconhecido pela doutrina espírita como uma das consequências da existência do espírito humano e do perispírito. Os termos "fluido" e "magnetismo" devem portanto ser entendidos dentro de um contexto próprio, evitando-se confusão com a nomenclatura atual da física.

    O conjunto de conhecimentos que forma a Doutrina Espírita tem como uma de suas formas principais de transmissão a palavra escrita. Desde as obras básicas de Allan Kardec até as obras espíritas da atualidade, os espíritos e os espíritas tem preferido a forma direta de exposição. Também, por seu carácter de ciência experimental, os conhecimentos são resultados de pesquisas e análises, reprodutiveis dentro de regras próprias da comunicação com o plano espiritual (1). Assim o papel do simbolismo religioso dentro da doutrina espírita é bastante limitado ou praticamente inexistente.

- Análise

    A distância que separa o Budismo do Espiritismo na questão dos ritos é exatamente a distância histórica entre o surgimento de cada um dos dois. O Budismo tento nascido em uma época e cultura onde a tradição oral era o veículo por excelência da transmissão de uma filosofia, desenvolveu técnicas apuradas de simbolismo. Seus ritos e simbolos são a representação viva de seu conteúdo doutrinário. O Espiritismo por outro lado, tendo nascido imediatamente após o Iluminismo, no período que para a cultura ocidental ficou conhecido como o Século das Luzes, se empenhou em transmitir diretamente seus conhecimentos, principalmente através da palavra escrita. Dentro deste contexto, para o Espiritismo, os rituais e os simbolos não trariam contribuição efetiva e são considerados dispensáveis.



1 - No estudo do mundo material, ao qual se dedica a Física, é importante para uma ciência que todos os seus fenômenos sejam reprodutiveis por quaisquer experimentadores, dadas as mesmas condições de experimentação. Assim a lei da gravidade de Newton, ou as equações de onda de Maxwell, podem ser verificadas por qualquer cientista que se disponha ao empreendimento.

    No caso da Ciência Espírita, onde se estudam fenômenos ligados ao espírito humano, que tem um grau de liberdade muito maior que as grandezas fisicas, a reprodução dos experimentos exige muito maior preparação do experimentador e principalmente muito maior compreensão das condições de contorno que podem afetar o experimento. Assim, para reproduzir os trabalhos de Sir William Crookes com as materializações de Kate King o experimentador teria não somente de obter uma médium com possibilidades mediunicas equivalentes as de Miss Florence Cook, como também teria de ter a mesma seriedade nos propósitos. Na ciência do espírito, o estado de espírito do experimentador influência decisivamente os resultados - alguém dedicado a experiências frivolas ou sem maiores propósitos de edificação espiritual encontraria somente espíritos do mesmo gabarito a auxiliá-lo. Provavelmente não passaria de resultados mediocres e de fraudes vergonhosas.

 

V - Conclusão

(...) nós reconhecemos a existência de seres superiores, pelo menos de um certo estado superior do ser, nós acreditamos nos oráculos, nos presságios, nas interpretações dos sonhos, na reencarnação. Mas essas crenças, que para nós são uma certeza, não tentamos, de maneira alguma, impô-las às pessoas. Repito: não queremos converter. O Budismo se atém acima de tudo aos fatos. Ele é uma experiência, e até mesmo uma experiência pessoal. Lembre-se das tão famosas palavras de Shakyamuni: "Espere tudo de você mesmo". XIV Dalai Lama (A Força do Budismo)
    Deixando-se de lado as questões metafisicas, que para o Budismo não são essenciais, as duas doutrinas - os dois caminhos espirituais - são extraordinariamente afins.    Um Budista e um Espírita trocando idéias perceberiam rapidamente que concordam no essencial, nos meios para tornar o homem livre de sofrimentos, e que as discordâncias de detalhes tem mais a ver com visões culturais diferentes do que propriamente com a "essência" dos ensinamentos.
    Para o Espírita a psicologia budista traz ensinamentos valiosos e para o Budista os conhecimentos cientificos espíritas lhe permitiriam estender sua compreensão de como o fluxo de consciência "não-material" atua sobre o mundo material.  Por exemplo, no estudo da lei de Causa e Efeito, juntar os enfoques diferentes - a ciência Espírita com a atuação do perispírito e o Budismo com o funcionamento da mente - abriria novas perspectivas.
    Um exemplo de um trabalho bastante interessante, unindo os enfoques Budista e Espírita, é o livro "Plenitude", do espírito Joanna de Ângelis, psicografado pelo médium Divaldo Pereira Franco. Neste livro, a autora aborda o problema do sofrimento, sua existência, suas causas e forma de eliminação. É um estudo bastante criterioso e consistente, onde conceitos milenares do Budismo integrados aos conhecimentos Espíritas fornecem o ferramental adequado para aprofundar o tema e dar-lhe solução.
    Tanto o Espiritismo como o Budismo dão pouco valor ao proselitismo (a busca de conversões) e enfatizam o respeito a todas as tradições religiosas, assim não há fontes de conflito ou empecilhos maiores a troca de idéias e ao dialogo.
 

VI - Anexos 
Para conhecer melhor as doutrinas discutidas neste artigo

"Não acredite em nada apenas por ter ouvido.
Não acredite nas tradições apenas por terem sido transmitidas através de inúmeras gerações.
Não acredite em nada apenas porque é dito e pregado por muitos.
Não acredite em nada apenas porque está escrito em livros religiosos.
Não acredite em nada apenas baseado na autoridade de um mestre ou sábio.
Mas depois de muita observação e análise, quando chegar à conclusão de que algo é razoável, e que conduz à felicidade e ao benefício seu e de todos, então aceite, e viva à altura do ensinamento." 
- Buda, citação no livro "O Despertar do Buda Interior" do Lama Surya Das (ed. Rocco).
Budismo
    Recomendo, além dos livros de Tenzin Gyatso, o XIV Dalai Lama, os livros "O Monge e o Filósofo" e "O Despertar do Buda Interior". O "Dhammapada" por outro lado é uma leitura obrigatória para se ter uma idéia da essência dos ensinamentos morais de Buda;
    Apenas como curiosidade, os livros "O Monge e o Filósofo" e "A Força do Budismo" (vide bibliografia) tiveram participação de autores franceses e uma observação que salta a vista do leitor espírita é o desconhecimento deles com relação ao Espiritismo (que teve seu nascimento na França, com as obras de Allan Kardec ). Também espanta, para o leitor brasileito, perceber o quanto o materialismo está impregnado no pensamento desses autores. A posição parece refletir uma realidade bastante diferente do ambiente intelectual brasileiro, onde a religiosidade natural do povo brasileiro e a crescente influência do Espiritismo e de outras correntes espiritualistas, tornam o materialismo militante uma exceção.
    Devido ao materialismo destes autores, a visão que apresentam da espiritualidade ocidental, nos diálogos com o Dalai Lama e com o Monge Budista, é bastante superficial - praticamente restrita ao Catolicismo - e assim deixam de abordar questões e aprofundar comparações que seriam de extrema valia para o pensador Espírita. Por exemplo, na questão da reencarnação apresentam um desconhecimento tão grande - mesmo das recentes pesquisas com a terapia de vidas passadas, efetuadas pelos psicólogos norte-americanos - que é dificil para seus interlocutores explicar com maiores detalhes a visão Budista.
 - Espiritismo
    Sem duvida os livros de Allan Kardec, principalmente "O Livro dos Espíritos", o "Livro dos Médiuns" e o "Evangelho Segundo o Espiritismo", também recomendo os livros de Léon Denis, principalmente "No Invisível".  A partir desta base há excelentes obras complementares, entre elas as psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier - impossivel deixar de citar "O Consolador" do espírito Emmanuel e "Nosso Lar" de André Luiz.




Uma Homenagem à Francisco Cândido Xavier

"Sempre que eu interagir com alguém,
Que eu me veja como o menos importante de todos,
E, das profundezas do meu coração,
Respeitosamente considere os outros superiores.
"
A segunda das oito estrofes de Geshe Langri Thangpa sobre a transformação da mente.
("Transformando a Mente", Dalai Lama, Ed. Martins Fonte)
    Pode parecer estranho encerrar uma série de artigos, que comparam as Doutrinas Budista e Espírita, com uma homenagem a um médium, mesmo que seja um médium tão extraordinário como Francisco Cândido Xavier. O motivo desta opção foi a de que Chico Xavier ilustra de forma extremamente clara as afinidades entre o Espiritismo e o Budismo.

    Chico, independentemente de suas faculdades mediunicas, foi um ser humano impressionante.  Nele as virtudes cristãs, que são a base moral da Doutrina Espírita, encontraram sua vivência completa. Ele foi um mensageiro do qual se pode dizer que, não só transmitiu fielmente a mensagem espírita, como se transformou na própria mensagem.

    Similarmente, se olharmos Francisco Cândido Xavier com os olhos de um Budista, veremos nele a encarnação perfeita das virtudes ensinadas por Sidarta Gautama, na sua compaixão ilimitada para com todos os seres sencientes.  Chico Xavier é um Bodhisattva na mais completa acepção deste termo, um espírito de luz, que para libertar-nos do sofrimento, veio nos trazer a verdade libertadora da prática incondicional do bem.

    Fica portanto, como fechamento destes artigos, nossa profunda homenagem e gratidão ao "Mineiro do Século":

Francisco Cândido Xavier
02/04/1910 - 30/06/2002
 
Breve vocabulário

    O Budismo tem uma história de 2.500 anos, sendo que parte de seu vocabulário vem das filosofias muito mais antigas da India, cujas origens se perdem na noite dos tempos. Desta maneira é preciso ter em mente que qualquer tradução para o nosso idioma é sempre aproximada, que não temos termos exatos para traduzir palavras que acumulam signficados de milênios de estudos ininterruptos.
    Na relação abaixo indicamos se os termos são usados por apenas uma das duas doutrinas, ou se são comuns as duas. No texto procuramos indicar as variações de sentido quando existirem. 


Animismo:
Espiritismo - Como o homem nada mais é do que um espírito encarnado, ele tem as mesmas capacidades que um espírto liberto, apenas reduzidas pelo efeito do corpo físico. Desta maneira existem fenômenos, bastante similares aos mediúnicos, que tem sua origem no próprio "sensitivo" - ele não atua propriamente como médium, pois não está atuando como intermediário, mas nem por isso estes fenômenos são menos válidos para o estudo do espírito e do mundo espiritual.Também pertencem a esta categoria, os fenômenos produzidos pelo espírito encarnado sob o controle do seu inconsciente.
Bhiksu:
Budismo - Monge, pessoa que se retirou da vida cotidiana para se dedicar a meditação e ao estudo. Não é um sacerdote, apenas uma pessoa que dedica sua vida ao ideal Budista de libertação do sofrimento pela estrita observância dos ensinamentos de Buda. As práticas religiosas, ou rituais a que se dedica, longe de serem fins em si mesmos, são métodos para exercicío da concentração. A palavra, pelas suas origens, também tem o sentido de monge mendicante.
Bodhichitta:
Budismo - Em seus livros, como por exemplo no "A Arte de Lidar com a Raiva" (editora Campus) o Dalai Lama define Bodhichita como a aspiração altruísta de alcançar a iluminação total, em benefício de todos os seres. 
Bodhisattva:
Budismo - No Budismo Mahayana é o ser ideal, aquele que atingiu todas as condições para pretender o Nirvana, mas que adia sua libertação no objetivo de permanecer em contato com este mundo sofredor. Ele se coloca a serviço dos seres por um período de tempo que nada pode determinar, ou mesmo pode não ter fim, ajudando-os a encontrarem o próprio caminho de libertação do sofrimento. O aspirante a Bodhisattva busca atingir o despertar em benefício dos outros, e este conceito é o ponto principal que caracteriza a escola Mahayana em contraposição a escola Theravada.
Buda:
Budismo - Iluminado, que atingiu a libertação da ignorância. Titulo respeitoso dado a Sidarta Gautama, embora não seja exclusivo dele - todos os seres tem a capacidade de um dia tornarem-se iluminados (Budas). A palavra que designa tal capacidade do ser é algumas vezes (mal-) traduzida por "Budeidade".
Caminho do Meio:
Budismo - É uma expressão também usada para designar o Budismo, pois esta doutrina procura se afastar tanto dos extremos do ascetismo como do apego excessivo as coisas materiais.
Causa e Efeito:
Budismo e Espiritismo - Os nossos atos e pensamentos são ações que, dentro das leis naturais do Universo, trarão uma reação. Dentro do ordenamento moral do Universo, os atos que trazem sofrimento aos outros seres, tem como reação natural o sofrimento de quem os praticou e do mesmo modo, os atos que resultam no bem trazem o bem como retorno;Os Budistas consideram a lei de causa de efeito como a lei básica do Universo, enquanto que os Espíritas a consideram como uma das leis através da qual Deus age sobre o Universo. Para os Espíritas outra lei  universal, de igual importância, é a lei que rege o progresso do espírito.
Codificação Espírita
Espiritismo - O conjunto da obra de AllanKardec. Se convencionou chamar este conjunto de "codificação" devido ao fato destas obras, que reunem os trabalhos de pesquisa e análise desenvolvidos por Allan Kardec no estudo das comunicações espíritas,  formarem a base da Doutrina Espírita.
Dalai Lama:
Budismo - "... Já disse, na introdução " - do livro que estamos citando - " as palavras dalai-lama significam diferentes coisas para diferentes pessoas, e que para mim eles se referem apenas ao cargo que ocupo. A rigor, dalai é um vocábulo mongol que significa 'oceano', e lama é um termo tibetano que corresponde à palavra hindu guru, significando 'superior'. Juntas, as palavras dalai e lama são as vezes traduzidas como 'oceano de sabedoria'. Mas isso, acho eu, é fruto de um mal-entendido. Originalmente, Dalai era uma tradução parcial de Sonam Gyatso, nome do terceiro Dalai Lama: Gyatso significa 'oceano' em tibetano. Outro e infortunado mal-entendido se deve ao fato de os chineses darem à palavra lama o sentido de 'hou-fou', que tem a conotação de 'Buda-vivo'. Isso é um erro. O budismo tibetano não reconhece tal coisa. Apenas admite que determindados seres, dos quais o Dalai-Lama é um, podem escolher a forma de sua reencarnação. Essas pessoas são chamadas tulkus (encarnações)." Dalai Lama, "Liberdade no Exílio - Uma autobiografia do Dalai Lama do Tibet", Ed. Siciliano.
Dharma:
Budismo - Geralmente, nos livros Budistas se refere a doutrina de Buda. " Mas também pode ser usada com significado muito mais amplo - ordem universal cósmica; lei eterna; moral; dever; virtude, retidão; justiça. (Vocabulaire de l'Hindouisme de Herbert et Varenne). Os autores registram Dharma com outros significados tais como Personificação da Lei; Deus presidindo ao dharma, etc.    No Ramakrishna-Vedanta Wordbook; a brief Dicitionary of Hinduism, editado por Usha, Brahmacharini, consta que literalmente significa "aquele que mantém sua verdadeira natureza" e que a palavra denota mérito, moralidade, justiça, verdade, dever religioso, ou o caminho da vida que uma natureza do homem lhe impõe (which a man's nature imposes upon him), etc.
    Muitas vezes, a palavra é empregada no sentido do caminho da vida próprio de um ser, como quando se diz que cada indivíduo deve cumprir seu próprio dharma." (Élzio).
Espírita:
Espiritismo - Que tem relação com o Espiritismo, partidário do Espiritismo, aquele que crê nas manifestações dos Espíritos. Allan Kardec, cap. Vocabulário Espírita, O Livro dos Médiuns.
Espiritismo:
Doutrina fundada sobre a crença na existência dos Espíritos e das suas manifestações. Allan Kardec, cap. Vocabulário Espírita, O Livro dos Médiuns.
Espírito:
Espiritismo - No sentido especial da Doutrina Espírita: os Espíritos são os seres inteligentes da criação que povoam o Universo além do mundo material e consttuem o mundo invisível. Não são seres de uma criação especial, mas as próprias almas dos que viveram na Terra ou em outras esferas tendo deixado seu envoltório corporal.  Allan Kardec, cap. Vocabulário Espírita, O Livro dos Médiuns.O mundo invisível está além do material não só em sentido espacial, mas também qualitativo, interpenetrando-o. Comentário de Herculano Pires ao verbete "Espírito" na sua tradução do "O Livro dos Espíritos".
Karma:
Budismo - A palavra significa ação, mas, por extensão, compreende também ao resultado da ação. Não há diferença assim de causa e efeito. (Elzio)    As vezes é empregada significando "lei de Causa e Efeito" (vide tópico correspondente) e outras como o resultado atual das ações passadas.
Médium
Espiritismo - (Do latim: medium = meio; intermediario; medianeiro) Pessoa que pode servir de intemediária entre os espíritos e os homens; aquele que em um grau qualquer sente a influência dos Espíritos de modo ostensivo. Todas as variedades de médiuns apresentam uma infinidade de graus em sua intensidade. Dicionário de Filosofia Espírita, L. Palhano Jr.
Mediunidade
Espiritismo - É uma faculdade inerente ao homem que permite a ele a percepção, em um grau qualquer, da influência dos Espíritos. Não constitui um privilégio exclusivo de uma ou outra pessoa, pois, sendo uma possibilidade orgânica, é hereditária e depende de um organismo mais ou menos sensitivo. Só se classificam pessoas como médiuns, se a mediunidade se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade. Essa faculdade não se revela, da mesma maneira, em todos. Geralmente os médiuns têm uma aptidão especial para os fenômenos desta, ou daquela ordem, donde resulta que formam tantans variedades quantas são as espécies de manifestações. Dicionário de Filosofia Espírita, L. Palhano Jr.
Nirvana:
Budismo -Literalmente a palavra tanto pode significar "ser extinguido" (extinção), "cessar por sopro", quanto "resfriar por sopro". O nirvana constitui a mais elevada e última meta de todas as aspirações budistas, a extinção do "fogo" de, ou o resfriamento da "febre" da avidez, ódio e delusão (os três principais males no pensamento budista); e com estes também a libertação última e absoluta de todo renascimento futuro, velhice e morte, de todo sofrimento e miséria. Dhammapada, trad. Nissim Cohen, Ed. Palas Athena.
Perispírito:
Espiritismo - (do grego, perí, ao redor) - Envoltório semimaterial do Espírito. Entre os encarnados, serve de liame ou intemediário entre o Espírito e a matéria. Entre os espíritos errantes, constitui o corpo fluídico do Espírito. Allan Kardec, cap. Vocabulário Espírita, O Livro dos Médiuns.
Reencarnação:
Budismo e Espiritismo - A continuação da existência do ser em um novo corpo material como consequencia da lei de ação e de reação. Há uma sutil diferença conceitual entre o Espiritismo e o Budismo neste ponto. Para os Budistas, o ser em sua essência é apenas um fluxo de consciência,  ao qual se agregam diversos elementos conforme o resultado da lei de causa e efeito. Não há propriamente um ser individual se reencarnando, mas seu fluxo de consciência (que resulta de uma existência para outra - e mesmo no mundo espiritual entre as encarnações - na propagação de uma consciência individual, responsável por seus atos). Para o Espiritismo, há um espírito imortal que se reencarna conforme suas necessidades de progresso espiritual. Ao espírito puro - cuja essência nos escapa - se agregam o perispiríto que é o instrumento através do qual ele atua no mundo material.
Samsara:
Budismo - Ciclo ou Roda de Renascimento. A fase da existência do ser em que ele está preso ao ciclo de renascimentos, de uma vida após a outra. O Espiritismo não tem uma palavra especifíca para este conceito.
Sangha:
Budismo - O conjunto dos monges budistas. Não é uma classe sacerdotal, tal qual a hierarquia da Igreja Católica ou os Brahmanes Hindus. É simplesmente o conjunto das pessoas que se retirou da vida comum para se dedicar a meditação e aos estudos da doutrina Budista. Pode-se dizer que corresponde ao ideal Budista de vida, mas fora isso, não há distinções fundamentais entre leigos e sangha.
Shakyamuni:
Budismo - O sábio do clã dos Shakya, outro dos nomes dados a Buda;
Sidarta Gautama:
Budismo - O nome próprio de "Buda". Também se encontram as gráfias "Sidharta" e "Siddharta";
Sutra :
Budismo - A palavra "Sutra" era usada na India, na época do surgimento do Budismo, para indicar um conjunto de palavras ou frases importantes reunidas em um conjunto único.  Como muitos ensinamentos de Buda foram reunidos na forma de Sutras, o significado da palavra acabou se extendendo ao longo do tempo, vindo a ser usada para designar genericamente todos os textos que trazem sermões de Buda. Algumas vezes também é usada para outros textos Budista, inclusive modernos, que são recitados.
 


Bibliografia

- Budismo
     "A Arte de Lidar com a Raiva - O Poder da Paciência", Dalai Lama, Editora Campus
É a transcrição de um seminário dado pelo Dalai Lama sobre a Paciência e como desenvolvê-la com base nos conhecimentos Budistas.  Os comentários do Dalai Lama se baseam na obra do monge Budista Shantideva (século VIII)"Guia para o modo de vida de do Bodhisattva". Este livro de Shantideva é um clássico da escola Mahayana.  Para se ter maior proveito na leitura é interessante ler primeiro outros texto mais genéricos do Dalai Lama, como, por exemplo, o "Mundo do Budismo Tibetano". 
     "A Doutrina de Buda", Siddhart Gautama, Ed. Martin Claret
Compilação de textos com os ensinamentos de Buda, inclusive sobre as "Quatro Nobres Verdades". É uma referência valiosa no estudo da Doutrina Budista.
    "A Força do Budismo", Sua Santidade o XIV Dalai Lama e Jean-Claude Carrière, Ed. Mandarim
Entrevista com o Dalai Lama em que são discutidos diversos aspectos do Budismo, principalmente com relação a importantes questões do mundo moderno (a entrevista foi feita em 1994);
    "Breve História do Budismo", Nan Huai-Chin, Ed. Gryphus
História do Budismo desde seu surgimento até os dias atuais. Excelente trabalho, principalmente considerando-se a dificuldade existente com a história dos primeiros séculos. A própria concepção filosófica das escolas de pensamento hindu as levaram a dar pouco valor a biografias e trabalhos históricos acurados, como ao gosto de gregos e romanos.
    "Budismo: Psicologia do Autoconhecimento", Dr. Georges da Silva & Rita Homenko
Muito bom trabalho sobre o Budismo, enfocando principalmente sua psicologia.
    "Dhammapada - A Senda da Virtude", trad. Nissim Cohen, ed. Palas Athena
É uma antologia de ditos ou máximas, que se referem aos ensinamentos morais de Buda. Os Budistas o consideram um compêndio do ensinamento essencial deste e o tem em grande estima. Desta maneira é uma das obras mais populares e conhecidas da literatura budista.  A tradução da editora Palas Athena, do texto em páli (uma das linguas antigas da India, muito utilizada nos primeiros séculos do Budismo) é enriquecida por notas explicativas e pela tradução poética, em estrofes muito próximas da forma original. O Dhammapada é uma leitura obrigatória para que se interesse pelo estudo do Budismo.
    "Liberdade no Exílio: Uma autobiografia do Dalai Lama", Sua Santidade o XIV Dalai Lama, Ed. Siciliano
Desnecessário dizer que é a melhor fonte a respeito da vida do Dalai Lama e de sua visão de mundo.
    "Meditação Andando", Thich Nhat Hanh, Ed. Vozes
Um pequeno guia de meditaçãoespecificamente para ser praticada caminhando. É um trabalho que vale a pena ser lido, pois ilustra a aplicação prática das técnicas de meditação Budista.
    "O Budismo no Brasil", Frank Usarki (organizador), Editora Lorosae
É um conjunto de trabalhos acadêmicos que enfocam a história da divulgação do Budismo no Ocidente e especificamente no Brasil. Descreve as principais seitas Budistas que tem representantes em nosso país.
    "O Caminho da Felicidade", Sua santidade o XIV Dalai Lama, Ed. Agir
Guia prático a meditação, como é vista pelo Budismo Tibetano. Como todos os livros do Dalai Lama, altamente recomendável.
   "O Despertar do Buda Interior - Sabedoria Tibetana para o Ocidente", Lama Surya Das, Ed. Rocco
O autor, um Lama de origem americana, apresenta de forma bastante clara, e adequada para um publico ocidental, os conceitos básicos do Budismo Tibetano. É um livro bastante interessante e agradável de se ler. 
    "O Livro de Ouro do Zen", David Scott & Tony Doubleday, Ed. Ediouro
É um livro que dá uma visão geral do Budismo Zen, tanto de sua história como de seus ensinamentos.
     "O Monge e o Filósofo, O Budismo Hoje", Jean-François Revel e Matthieu Ricard, Ed. Mandarim
Este livro apresenta o diálogo entre um importante filósofo frânces e seu filho, que se converteu ao Budismo e passou vários anos estudando junto aos monges Tibetanos, inclusive tendo servido de interprete para o Dalai Lama em suas visitas a frança. É um livro excelente, pois trata diretamente das principais questões que se apresentam a um Ocidental quando este estuda o Budismo.
    "O Mundo do Budismo Tibetano - Uma visão geral de sua filosofia e prática", Dalai Lama, Ed. Nova Fronteira
Como o título indica, é uma apresentação feita pelo Dalai Lama, sempre no mesmo padrão de simplicidade e clareza que lhe é característico, dando uma visão geral do Budismo Tibetano. Desnecessário dizer que é obra obrigatória para quem se interessar em aprofundar os conhecimentos sobre o Budismo Tibetano. 
   "Portões da Prática Budista", Chagdud Tulku Rinpoche, Rigdzin Editora
Um excelente texto sobre o Budismo, seus conceitos filosóficos e os pensamentos que são as bases de suas práticas de meditação. 
    "Transformando a Mente", Sua santidade o XIV Dalai Lama, Ed. Martins Fontes
Comentários do Dalai Lama sobre uma importante obra Budista - As oito estrofes sobre a transformação da mente - ao longo dos quais explica com bastante clareza alguns pontos muito dificeis do pensamento Budista, como por exemplo a questão da reencarnação e da lei de Causa e Efeito. Foi onde pela primeira vez consegui entender o que significava o ser sem um "espírito" eterno (o fluxo de consciência que sobrevive a morte e não se extingue jamais, pois mesmo depois de atingir o Nirvana continua a ser alguma coisa - para o Budismo Tibetano o Nirvana não é a extinção no nada, como erroneamente interpretam os Ocidentais).
- Espiritismo    "Allan Kardec", Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, FEB
Um dos melhores trabalhos biográficos espíritas. Estudo bastante detalhado da vida do Codificador e de sua obra.
    "A Reencarnação", Gabriel Delanne, trad. Carlos Imbassahy, FEB
Neste livro, Gabriel Delanne apresenta um estudo detalhado da reencarnação, abrangendo seus aspectos históricos, sua comprovação científica e suas conseqüências filosóficas e morais.
    "As vidas de Chico Xavier", Marcel Souto Maior, Ed. Rocco
Uma biografica de Chico Xavier preparada por um jornalista. Apresenta os principais fatos e em termos gerais dá uma boa visão do que significa este grande médium para o Espiritismo brasileiro.
    "Bezerra de Menezes", Canuto Abreu, Ed. Feesp
Biografia de Bezerra de Menezes, excelente trabalho escrito com o objetivo de contruir para a compreensão da história do Espiritismo na virada do século XIX para o XX.
    "Chico Xavier - Mandato de Amor", União Espírita Mineira
Coletânea de textos sobre a vida de Francisco Cândido Xavier, principalmente depoimentos de pessoas que conviveram diretamente com ele. O resultado é uma visão geral de sua biografia e de sua personalidade. Os textos foram muito bem escolhidos e organizados. Inegavelmente, Chico Xavier, vivenciou a Doutrina Espírita em toda sua plenitude. O mensageiro que foi a própria mensagem.
    "Considerações sobre as idéias de verdade e controversias em torno dos ensinos dos Espíritos", Ademir L. Xavier Junior
Artigo publicado no Boletim GEAE 367 , de outubro de 1999, discutindo os diversos aspectos do "Critério de Concordância Universal" proposto por Allan Kardec, como mecanismo de validação das idéias espíritas e resolução de controvérsias nos ensinos transmitidos pelos espíritos.
    "Cronologia Espírita", Carlos A. I. Bernardo, GEAE
Uma compilação, para divulgação na página do GEAE, dos eventos que marcaram a História do Espiritismo. Seu objetivo é de servir de ponto inicial para pesquisas mais elaboradas sobre o tema.
    "Deus na Natureza", Camille Flammarion, FEB
"Destina-se esta obra a representar o estado atual dos nossos conhecimentos precisos, sobre a Natureza e o homem. A exposição dos últimos resultados a que atingiu a inteligência humana bo estudo da Criacão é, ao nosso ver, a verdadeira base sobre a qual se há de fundar doravante toda a convicção filosófica e religiosa". Camille Flammarion, introdução.Como se vê pelo trecho acima de Flammarion  - um dos grandes pioneiros do Espiritismo - este livro trata da questão da existência de Deus e do que se pode compreender a seu respeito pelo estudo da Natureza. Natureza a qual também pertence o ser humano, espírito imortal temporariamente revestido de um corpo material.
    "Dicionário de Filosofia Espírita", L. Palhano Jr., Edições Celd
  Excelente obra de consulta sobre os termos utilizados pela Doutrina Espírita.
    "Espírito, Perispírito e Alma", Hernani Guimarão Andrade, Ed. Pensamento
Ensaio sobre as relações entre o corpo espiritual e o material, onde Hernani apresenta suas idéias sobre o "Modelo Organizador Biológico.
    "História do Espiritismo", Arthur Connan Doyle, Ed. Pensamento
É ainda hoje um dos melhores documentos sobre o inicio do Moderno Espiritualismo e do Espiritismo. Naturalmente - devido ao Autor estar diretamente ligado ao espiritualismo moderno - pouco se estende sobre o Espiritismo propriamente dito.
    "Mediunidade e Sintonia", Emmanuel, Francisco Cândido Xavier,  Ed. Cultura Espírita União
Um pequeno livro de Emmanuel que traz observações e anotações em torno da Mediunidade e da Sintonia. Extraordinário em sua simplicidade e profundidade das observações. 
     "No Invisivel", Léon Denis, FEB
Como todas as obras de Léon Denis um trabalho magistral de apresentação da Doutrina Espírita.
    "O Consolador", Emmanuel, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
Ampla discussão de temas doutrinários, por meio de perguntas, ao espírito Emmanuel. Através das diversas questões, cobre temas científicos, filosóficos e religiosos, destacando o papel do Espiritismo como Consolador prometido por Jesus.
    "O Espiritismo é uma religião ?", Allan Kardec, Boletim GEAE número 277
O texto "O Espiritismo é uma Religião ?" corresponde ao  discurso  de abertura da sessão anual comemorativa do "Dia dos Mortos"  na  Sociedade de Paris, realizada em 1.o de Novembro de 1868. O discurso foi  transcrito da  "Revista Espírita" de dezembro de 1868,  tradução  de  Julio  Abreu  Filho,  da coleção das obras completas de Allan  Kardec  publicada  pela  Editora Edicel.Ele nos parece a chave para a  compreensão  do  que Kardec entendia por "religião", como  encarava  o  papel  desempenhado pelas "religiões", a sua  visão  da  doutrina  Espirita  dentro  deste contexto e porque preferia  nao  apresentar  o  Espiritismo  como  uma religião.
Kardec nao rejeitava a religião, nem o sentimento  religioso -  pelo  contrario  -  nao  tibutea  em  aplicar  essa  designação  ao Espiritismo, inclusive usando para enfatizar sua posição  a  expressão "e nós nos glorificamos por isto", quando entendida  no  seu  sentido filosofico. É principalmente para evitar equivocos com o uso vulgar - na sua inseparavel associação a culto e a forma - que ele não  utiliza a palavra e se restringe  a  designa-lo  como  doutrina  filosofica  e moral.
    "O Livro dos Espíritos", Allan Kardec, tradução de Sandra Keppler, Editora Mundo Maior
Tradução recente, e bem feita, da obra básica da Doutrina Espírita. Apresenta a vantagem de atualizar a gramática e o vocabulário usado no texto em português para a tradução das idéias expressas no original Francês, tornando a leitura mais agradável e acessivel. A atualização do texto português fugiu da tentação de modificar termos tornados já clássicos na literatura espírita e onde necessário acrescentou notas explicativas. Uma única observação, sem maiores implicações, é que no prefácio da obra, a tradutora optou pela variante "Denisard Hypolite Leon Rivail" para o nome de Kardec, baseando-se na interpretação do nome grafado no seu registro civil (certidão de nascimento), enquanto que "Hippolyte Léon Denizard Rivail" é o que consta da certidão de casamento e era o que Kardec usava nos seus trabalhos pedagógicos.
    "O Problema do Ser, do Destino, e da Dor", Léon Denis, FEB
Obra prima de Léon Denis em que a Doutrina Espírita é apresentada e estudada a fundo.
    "Obras completas de Allan Kardec", Allan Kardec, Ed. Edicel
Nas obras de Kardec se encontram as bases da Doutrina Espírita. Desde os livros básicos até a Revista Espírita, que dirigiu durante vários anos, são leitura obrigatória para quem queira entender realmente o Espiritismo.
    "Os Animais tem Alma ?", Ernesto Bozzano, trad. Dr. Francisco Klörs Werneck, Editora Eco
Neste trabalho, Ernesto Bozzano, análisa os fatos que comprovam a existência da alma nos animais, sua sobrevivência após a morte e sua relação com a lei de progresso através da reencarnação.
    "Pérolas no Fio", Yogashririshinam, médium Elzio Ferreira de Souza, Círculo Espírita da Oração
Este excelente trabalho mediunico é complementado por um valioso conjunto de notas explicativas. As notas abrangem diversos problemas da filosofia hindu vistos sob a ótica espírita e são valiosos para o estudioso que deseje compreender melhor o tema.
    "Plenitude",  Joanna de Ângelis, médium Divaldo Pereira Franco, Ed. LEAL
Extensa análise do problema do sofrimento, sua existência, suas causas e forma de eliminação, apresentando a proposta Espírita para sua solução. O livro utiliza a filosofia Budista como ferramenta de apoio na apresentação e discussão do problema, sendo um excelente exemplo da cooperação que pode ser atingida pelas duas filosofias.
    Série de livros de André Luiz (médium Francisco Cândido Xavier, alguns em parceria com o médium Waldo Vieira) editados pela FEB:  Nosso Lar, Os Mensageiros, Missionários da Luz, Obreiros da Vida Eterna, No Mundo Maior, Agenda Cristã, Libertação, Entre a Terra e o Céu, Nos Domínios da Mediunidade, Ação e Reação, Evolução em Dois Mundos, Mecanismos da Mediunidade, Conduta Espírita, Sexo e Destino, Desobsessão, E a Vida Continua .
Sequência de livros onde André Luiz narra sua experiência como espírito desencarnado e os estudos que realiza no plano espiritual. É uma série obrigatória para qualquer estudioso que deseje conhecer a Doutrina Espírita em todos os seus desdobramentos.
- Outros    "Espiritualidad Hinduista", Daniel Acharuparambil, série "Biblioteca de Autores Cristianos", La Editorial Catolica
Estudo bastante detalhado do pensamento Hindu, de sua filosofia aplicada aos problemas do espírito. O autor trata do Hinduísmo nas suas diversas correntes de pensamento, do Hinduismo popular e dedica também um capítulo a Gandhi. Não chega a tratar do Budismo, mas como este tem suas raizes na civilização hindu, muitas das questões tratadas ajudam a entender melhor o fundo sobre o qual esta doutrina nasceu e se desenvolveu.
    "Filosofias da India", Heinrich Zimmer, Ed. Palas Athena
Um dos livros clássicos sobre as filosofias da India. Permite entender o pano de fundo a partir do qual o Budismo surgiu e o porque de algumas de suas características.
    "India, A History", John Keay, Ed. Harper Collins
Visão geral da história da India, desde as origens da civilização do vale do Indu aos nossos dias. Permite ver o panorama geral em que o Budismo nasceu e os impactos das invasões estrangeiras a partir do Islã.
    "La Filosofia de los hindues", Helmuth von Glasenapp, Ed. Barral
Outro livro clássico a respeito da filosofia hindu. Da mesma forma que o de Heinrich Zimmer permite entender qual eram as correntes de pensamento na época de Buda e nos séculos iniciais do Budismo.
   "Maomé e Carlos Magno", Henri Pirenne, Ed. Asa
Um dos melhores trabalhos que já li sobre o início da Idade Média. Analisa detalhadamente como o mundo ocidental passou do período final do Império Romano ao quase desaparecimento da civilização no começo do período medieval. Das invasões barbaras a expansão do Islã, mostra claramente que o maior impacto foi o fechamento do mediterrâneo ao Ocidente - cortanto a comunicação com o Oriente - e o isolamento dos povos europeus.
    "Milênio, uma história de nossos últimos mil anos", Felipe Fernández-Armesto, Ed. Record
Estudo histórico sobre o último milênio. Apresenta uma visão global da história e das transformações por que passou a humanidade nestes últimos mil anos. Bastante interessante por mostrar a mudança nas relações entre o Ocidente e o Oriente neste período, principalmente desfazendo alguns enganos que ocorrem quando se estuda a história de um ponto de vista unilateral (como por exemplo, nas histórias da expansão do Ocidente na idade moderna e contemporânea). Também dá uma boa visão do contexto histórico recente das regiões Budistas.
    "Mohandas K. Gandhi: Autobiografia", Mohandas K. Gandhi, Ed. Palas Athena
Nesta obra Gandhi explica o desenvolvimento de suas idéias a respeito da não-violência e de sua busca pela verdade. Muito mais que uma autobiografia no sentido clássico, é uma apresentação de seu pensamento e ideais. É uma obra que não deve se deixar de ler.
    "The Origin of Species", Charles Darwin, The Modern Library (New York)
Obra em que Charles Darwin apresenta a teoria da evolução das espécies pela seleção natural.
- Artigos sobre Filosofias do Oriente publicados no GEAE    -  Bhagavad Gita, Carlos Iglesia, Boletim 103 ;
    -  Lei de Causa e Efeito segundo o ensino Budista, Claude Huss, Boletim 116 ;
    -  Sobre Budismo, Claude Huss, Boletim 120 ;
    -  Sobre Budismo, Claude Huss, Boletim 122 ;
    -  Sobre Budismo, Claude Huss, Boletim 124 ;
    -  Sobre o Karma, Claude Huss, Boletim 179 ;
    -  Papel de Jesus fora do Ocidente, autores diversos, Boletim 355 ;
    -  Filosofia Indiana e  Filsofia Espírita, Elzio Ferreira de Souza, Boletim 394 ;
    -  A Civilização Hindu e o Espírito de Tolerância, Carlos Iglesia, Boletim 398 ;
    -  Budismo (site sobre Budismo), Henrique, Boletim 402 ;
    -  Meditação, uma Disciplina Espiritual, XIV Dalai Lama,  Boletim 409 


(Artigo originalmente publicado nos Boletins GEAE de 428 a 445 e reproduzido com 
autorização do autor)