sábado, 1 de janeiro de 2011

Sobre artigo Boletim 367 de Ademir Xavier, Elzio Ferreira de Souza, Brasil

Élzio comenta o artigo anterior


Caro Iglesias
Recebi e agradeço a remessa do boletim 369.
Estive lendo o Boletim do aniversário do GEAE e achei o trabalho do Aldenir bem feito, apesar do toque acadêmico da sigla. Há muitos anos escrevi no Mundo Espírita sobre o assunto, e estive retomando agora ao mesmo, mas acabei nao mandando para publicação na F.E. por causa da extensão. Tenho que avaliá-la primeiro.Anoto o seguinte:
1a - A primeira coisa que notamos é que o CCU foi uma descoberta inteligente de Kardec diante do dificílimo problema da autenticidade das mensagens dos Espíritos. Assim sendo, ele não é resultado do ensino dos Espíritos e, portanto, não pode ser tomado como um princípio da doutrina.
Seria interessante questionar a frase final - A Doutrina só aceita princípios quando revelados pelos Espíritos? Sigamos Kardec, para nao fugir do terreno em que ele tão bem colocou o assunto. Em A Gênese, ele destacou as duas características da revelação - divina e humana. Se os dois trabalhos foram colocados lado a lado, é de esperar-se que os princípios sejam sacados dos ensinos dos Espíritos e da observação dos homens. Os princípios básicos que ele enumerou foram fixados a partir dos ensinos dos Espíritos, mas porque se submeteram ao CCU forte, para utilizar a terminologia adotada. Isto significa que um princípio não é adotado só por ser revelação, mas porque o CCU o fixa. Se utilizarmos o termo princípio em sentido mais amplo, como se faz de um modo geral, para significar o que foi bem estabelecido pela investigação, a conclusão será de que CCU é também um princípio metodológico, que, apesar de algumas idéias desavisadas, ainda é o método mais seguro de depuração ao lado do controle racional, necessário para contrabalançar (Vide o caso dos Messias do Espiritismo na Revista Espírita, idéia que foi espalhada em vários núcleos de modo independente).
Agora bem, uma questão pode ser colocada em face do pensamento de Emmanuel que transcrevo - "Cada individualidade deve alargar o círculo das suas capacidades espirituais, porquanto, poderá, como recompensa à sua perseverança e esforço, certificar-se das sublimes verdades do mundo invisível, sem o concurso de quaisquer intermediários. (destaque nosso - Emmanuel: dissertações mediúnicas, p. 49). Ele deveria estar voltado para as percepções dos rishis (videntes) indianos e de um Chico Xavier, para citar um só exemplo entre nós). Em outras palavras, a revelação não teria uma origem exclusivamente nos Espíritos.
2. A questão dos princípios é interessante. Em Pérolas no Fio, eu anotei 10 (dez) e chamei a atenção de que eram princípios que podem encontrar-se no Hinduísmo. De propósito, a fim de que os confrades pudessem exercer o direito de pensar, não coloquei em que se podia diferenciar as duas doutrinas.
3. Ainda em relação aos princípios, devemos considerar que existem Espíritos que nao admitem o evolucionismo. No tempo de Kardec. E há mais de 60 anos (1937), quando Emmanuel ditou o livro que leva o seu nome, destacou o fato sobre a defesa do fixismo feita por Espíritos estudiosos:
"Se bem haja no próprio círculo dos estudiosos dos espaços o grupo dos opositores das grandes idéias sobre o evolucionismo do princípio espiritual, através das espécies, sou dos que o estudam, atenta e carinhosamente" (p.93)
Isto é interessante porque na quase totalidade dos núcleos se aparecesse um Espírito com tais idéias, será tido imediatamente como um pseudo-sábio. Aliás, podemos dizer que Kardec agiu nesta parte com muito tato, e, embora fosse pessoalmente um evolucionista, até o fim, manteve-se em cautela no enunciar a idéia, pelo menos em relação à evolução espiritual, que ele apresenta como posição defendida pelo filósofos espiritualistas. Este princípio alcançou assim o estado de cidade com os trabalhos de Léon Denis.
4. Escreve Aldenir - "Vejamos um exemplo concreto que nos auxilie nesse ponto. Suponhamos que um certo Espírito proponha uma modificação na lei III de evolução afirmando que a marcha de desenvolvimento do Espírito não é incessante mas que, em determinado ponto de sua vida maior, seja permitido por lei ao Espírito estacionar. Não é difícil ver que semelhante idéia depõe contra vários outros princípios e leva imediatamente a uma contradição com a noção de livre-arbítrio pois, se ao Espírito é possível estacionar, ele não tem, por lei, nenhuma responsabilidade sobre seus atos durante o período de falta de progresso. Essa idéia deve ser rejeitada por estar em contradição com uma série de noções que protegem os fundamentos da doutrina."
Ainda que ele tenha razão em relação à contradição, não me parece seguro que uma tal teoria iria de encontro à noção de livre-arbítrio e de responsabilidade individual durante o período de falta de progresso, porque a) seria exatamente o reconhecimento do seu livre-arbítrio que o permitiria estacionar; b) porque uma decisão livre sendo imputável, a sua responsabilidade pela opção é evidente, se isto causasse algum prejuízo ao sistema estabelecido. Bem, o Aldenir deveria estar pensando, no exemplo, com uma opção que fosse definitiva e irrevogável, pois, no entendimento que temos atualmente, um Espírito pode resolver estacionar e o faz, até que mude de opinião livremente ou que um acréscimo de dor, resultante da violação da lei, leve-o a abandonar a posição conflituosa com a lei.
Bem, meu caro Iglesias, estas são umas pequenas anotações ao trabalho do Aldenir que está muito bem lançado e que faço, no silêncio da madrugada, para manter uma simples conversa.
Com o abraço do
Elzio Ferreira de Souza

Considerações sobre as idéias de verdade e controvérsias em torno dos ensinos dos Espíritos, Ademir L Xavier Jr.




 
"A vaidade de certos homens, que julgam saber tudo e tudo querem explicar a seu modo, dará nascimento a opiniões dissidentes. Mas, todos os que tiverem em vista o grande princípio de Jesus se confundirão num só sentimento: o do amor do bem e se unirão por um laço fraterno, que prenderá o mundo inteiro. Estes deixarão de lado as miseráveis questões de palavras, para só se ocuparem com o que é essencial. E a doutrina será sempre a mesma, quanto ao fundo, para todos os que receberem comunicações de Espíritos superiores1."

1 - Introdução

    Todos aqueles que já tiveram a oportunidade de entrar em contato com as páginas e conceitos espíritas dificilmente deixaram de se perguntar quanto à natureza e a validade de muitas das informações trazidas pelos mensageiros espirituais. Nesse sentido, é relevante se perguntar quanto aos critérios de aceitação dos ensinos espíritas, sobre como deve ser nossa postura diante da propagação, divulgação e grau de validade desses ensinos. Será que um determinado conceito deve ser aceito absolutamente, sem exame algum, com exclusão daqueles que por ventura possam discordar dele? Será que, por outro lado, devemos sempre manter uma postura reticenciosa, como que eternamente aguardando uma última palavra ou, o que seria ainda mais restrito, considerar tais ensinos como meras figuras passadas pelos Espíritos na impossibilidade de nós, os encarnados, estarmos longe de mais do que seria a verdade? Como se dá o consenso ao derredor de um determinado ensino? Tais questionamentos podem parecer supérfluos a uma mente excessivamente prática, mas estão provavelmente na raiz de grandes males que afetaram a humanidade.
    Sem dúvida, diversos estudos foram feitos desde os primórdios do desenvolvimento da doutrina com Allan Kardec em torno da validade e aceitação das teses do Espiritismo. No momento histórico da codificação, diante da exuberância dos fenômenos espíritas (a aparecerem espontaneamente em muitas instâncias simultaneamente), Allan Kardec chegou a formulação do critério da concordância universal dos ensinos dos Espíritos. Em termos resumidos tratava-se da aceitação de uma determinada tese (em sua maioria relacionada aos princípios básicos) quando apoiada maciçamente pelos Espíritos através de diferentes médiuns nos mais variados lugares. Votaremos a esse ponto na Parte 3 deste artigo. Essa idéia lembra vagamente os critérios de aceitação de conceitos e teorias dentro das universidades e institutos de pesquisa científica. Não seria o caso de uma certa idéia ser aceita quando apoiada igualmente por uma variedade de departamentos científicos após, muitas vezes, difíceis e laboriosas experimentações? O mesmo se daria com os princípios espíritas, já que as fontes destes são os Espíritos por meio dos médiums. A comparação não pode ser estendida indiscriminadamente pois não segue daí que toda idéia espírita deva sempre ser sancionada pelo critério da concordância universal da mesma forma que a aceitação de uma certos pontos de uma teoria científica não precisa ser sancionada por um grande número de laboratórios. Isto, porém, é apenas um ponto de semelhança entre o Espiritismo e as doutrinas da ciência comum. A aceitação dos princípios espíritas está baseado também no selo de racionalidade e coerência que ele empresta à sua visão do universo, algo muito em comum com as teorias das diversas ciências que estudam a matéria e suas manifestações.
    Pretendemos aqui enfatizar que tais desenvolvimentos colocam o Espiritismo em uma posição ímpar no cenário das religiões atuais. Para esse fim, é muito interessante recorrermos à história com o intuito de conhecer melhor como eram aceitos e avaliadas as verdades pelos povos antigos. Analisando especificamente a história das religiões (para o mais perto possível do que seria o objeto de estudo do Espiritismo), constatamos o quão difícil e as vezes sangüinolenta pode ser a disputa pela aceitação das idéias religiosas. No caso específico da religião católica - com a qual nos encontramos mais próximos culturalmente - é nítida essa dificuldade. Observando a história da Igreja, vemos como foi constante o interesse do Plano Maior na libertação e engrandecimento da Igreja que, amiúde, se via a braços com discussões muitas vezes estéreis e sem interesse para as sociedades onde floresceram as organizações católicas. A grande conseqüência prática desses debates culminava, muitas vezes, com a morte deliberada de tantos outros que chegaram perto demais da "heresia". Ficou famosa, por exemplo, a chamada controvérsia ariana no começo do Cristianismo. Do historiador católico Eamon Duffy [2] colhemos o seguinte relato:
 ``A consternação de Constantino em face das divisões dos cristãos norte-africanos haveria de redobrar quando, tendo deposto Licínio, o imperador pagão rival no Oriente, ele se mudou para sua nova capital cristã a 'Nova Roma', Constantinopla. Pois as divisões da África nada eram em comparação com a profunda fissura na imaginação cristã que se abrira, no Leste, por iniciativa de Ário, um presbítero de Alexandria famoso por sua austeridade pessoal e pela popularidade entre as freiras da cidade. Ário fora afastado pelo bispo local por pregar que o 'Logos', a Palavra de Deus que em Jesus se fizera carne, não era o próprio Deus, mas uma criatura infinitamente superior aos anjos, embora como eles criada do nada antes do começo do mundo. Ele via em tal ensinamento um meio de conciliar a doutrina cristã da Encarnação com a fé igualmente fundamental na unidade divina. Na verdade, essa idéia privava o cristianismo de sua afirmação central segundo a qual a vida e morte de Jesus tinham o poder de redimir, pois eram ações do próprio Deus. Contudo, as verdadeiras implicações do arianismo não foram compreendidas de pronto, e Ário conseguiu amplo apoio. Mestre de propaganda, angariou a simpatia popular compondo canções teológicas para serem cantadas por marinheiros e estivadores nas docas de Alexandria. Escapando aos salões eruditos, o debate teológico irrompeu nas tavernas e nos bares do Mediterrâneo oriental.''
    Como foi resolveu o problema de Ário ? Na verdade não houve uma solução definitiva. Na época a solução se materializou no concílio de Nicéia (em 325), convocado pelo imperador. Ainda segundo Duffy:
"Nicéia foi o começo, não o fim da controvérsia ariana. A derrota dos adeptos de Ário havia sido imposta por um imperador decidido a resolver rapidamente as coisas. Eles foram silenciados, não persuadidos, e, terminado o concílio, reagruparam-se para contra atacar."
    É fato conhecido de todos que Constantino considerava a emergente fé cristã uma poderosa força de aglutinação do império romano que estava prestes a desmoronar. Por isso ele via com angústia o debate teológico infindável e, por razões práticas, resolveu impor uma solução. A tradição católica (isto é, a convergência da opinião do clero e do laicato crente em torno da interpretação de certos pontos evangélicos a se materializarem como dogmas) foi, portanto, uma lenta e encarniçada construção que se desenvolve até hoje, onde muitas vezes o interesse político e econômico ditou uma clara delimitação entre o que seria a verdade e a heresia. Não foram poucos os movimentos de renovação católicos e de "reforma" (mesmo antes dos protestantes no Século XVI) e, na Idade Média, foram considerados grandes os papas que se dedicaram vivamente a eles [2]. Os que se admiram de semelhantes movimentos na atualidade apenas desconhecem a milenar história da Igreja. Como eram, entretanto, tomadas as decisões em matéria de fé? Onde deveria estar a verdade quando dois partidos rivais se insuflavam defendendo cada um sua própria opinião ? Esta era decidida oficialmente e com esperanças para sempre seja a portas fechadas, seja pela aclamação popular, pelo voto dos bispos (concilium) ou pela vontade do papa. Na prática a Igreja se viu obrigada a revisar constantemente seus pontos de vista sobre conceitos marginais ou centrais à fé católica. É importante ter em mente que a construção de toda Doutrina Católica (e o aparecimento dos movimentos de reforma) se guiou em muito pela necessária manutenção da "pureza doutrinária" da crença em Cristo. Não foi senão em função da sustentação de tal pureza que se ergueram os tribunais crematórios [2] (a Inquisição) por Gregório IX em 1231. Nesse sentido, a Igreja de Roma adquiriu sua fama ao longo do tempo por ter se propagandeado livre da heresia (principalmente diante do cisma com a Igreja grega2) e quardiã "da fé dos Apóstolos".

 
 
 
2 - Exemplo das ciências

     Compreende-se que na nossa vida comum estamos diante de situações que exigem uma posição prática diante dos fatos.
    Quando alguém diz: "fulano é casado mas tem uma amante mais velha", em geral, a primeira atitude não é a de formulação de teorias que justifiquem ou não a aceitação dessa "verdade". Porque a verificação dela é coisa tão ordinária quanto o próprio fato, sua aceitação é muito simples. Não se dá o mesmo, porém, com certas noções e concepções do mundo que nos cerca. Muito menos com aquelas que dizem respeito à Doutrina Espírita. Mais uma vez recorremos a exemplos simples da ciência. A afirmação ¨a Terra gira com movimento circular em torno do Sol¨  parece, se aplicarmos o critério de aceitação vulgar, uma afirmação livre de ambigüidades.
    Nossas mentes formam instantaneamente uma idéia perfeitamente clara de seu significado. Por mais incrível que pareça, no entanto, sua validade não pode ser inferida da mesma forma como no exemplo de frase anterior. Ela não era nem um pouco válida aos povos antigos, porque não era bem isso que eles constatavam quando viam o Sol se levantar e se por todos os dias, em aparente movimento circular ao redor da Terra. Ela foi a própria expressão da verdade para Nicolau Copérnico (1540) na sua nova formulação do sistema do Mundo. Para ele, a Terra sim girava circularmente em torno do Sol.
    Ela deixou de ter validade para astrônomos posteriores, em particular Johannes Kepler (1630) que descobriu que o movimento, de fato, não era circular mas sim elíptico "com o Sol ocupando um dos focos da elipse".








 
    Essa última conclusão de Kepler deixou de ser válida com Isaac Newton (1670) e sua teoria da gravitação universal
    Para Newton (assim como para toda mecânica clássica que ele fundou), o movimento só seria elíptico se no Universo somente o Sol e a Terra existissem. Desde que há outros corpos (não podemos nos esquecer da Lua) o movimento passa a ser "perturbado". Muito aproximadamente a Terra giraria descrevendo uma "roseta" ao redor do Sol por causa do "movimento de precessão dos ápsides3" da órbita descrita por ela. Em termos exatos se, porém, no Universo, existisse mais um corpo além da Terra e do Sol, o movimento daquela jamais seria descrito de uma maneira simples. Mais uma vez, porém, essa afirmação deixou de ser válida para Albert Einstein (1905), que descobriu efeitos "relativísticos" não desprezíveis.

    Para Einstein, ainda que não existisse nenhum outro corpo no Universo mas somente a Terra e o Sol, ainda assim o movimento seria o de uma roseta com uma precessão dos ápsides extremamente lenta para a Terra. A existência de outros corpos não alteraria muito a descrição de Newton, embora o movimento se tornasse ainda mais complexo. Tal exemplo nos mostra o quão difícil é a descrição da "verdade" relacionada ao objeto de pesquisa da ciência ordinária, a matéria. A lição que se tira não é a de que certa concepção anterior tenha deixado de ser válida (decretada como "herética" na visão por dogmas) . Ao contrário, as construções científicas presentes fundamentam-se explicitamente naquelas do passado. Para nós a memória dos antigos astrônomos deve ser tão venerável quanto a dos mais recentes. Mesmo hoje em dia, se quisermos construir um relógio do Sol por exemplo, podemos perfeitamente usar os conceitos antigos que consideravam o Sol como girando em torno do Terra. Existe erro nisso? Diante de nossa presumível ignorância com relação às questões ainda abertas nas ciências, estamos certamente tão perto da verdade quanto eles. A verificação desse fato não pode ser motivo porém para escândalos, nem para um descrédito para com as ciências. O que se faz necessário é, pois, uma nova concepção de aceitação da verdade, bem como critérios de compreensão das explicações científicas. A chave que permite essa nova compreensão pode ser conseguida estudando-se um pouco a história das ciências assim como os mecanismos pelos quais as concepções científicas surgiram e têm operado [3].
    As teorias científicas representam as construções de raciocínio onde essas concepções científicas se estabelecem. Não é senão pelo fato de tais conceitos estarem harmonicamente integrados às teorias que sua aceitação torna-se válida. Além disso, as teorias devem fornecer uma visão consistente do universo onde tal fenômeno ocorre. Isso implica não só em explicar aquele fenômeno particular, mas também possíveis efeitos a ele correlacionados. Uma excelente teoria deve além disso fornecer as bases para a previsão de fenômenos desconhecidos. Portanto, não é a autoridade de um ou de outro cientista que fundamenta a ortodoxia nas ciências (com sentido muito diferente daquele usado pelas religiões clássicas). Nunca a verdade científica haverá de ser decidida em reuniões a portas fechadas, pela deliberação de conselhos ou organizações ou baseando-se no palpite dos cientistas mais notáveis. É verdade que a opinião de um grande cientista a favor de uma certa teoria particular pode pesar muito na orientação das pesquisas futuras, mas tal opinião nunca constituirá a teoria.

3 - Analisando o critério da concordância universal.

    Se na descrição de um simples fenômeno material somos obrigados a fazer grandes concessões de tolerância para com aqueles que sustentam opiniões diferentes, imaginemos por um momento a situação com os fenômenos e princípios espíritas. Isso é particularmente forte se considerarmos que o objeto de estudo do Espiritismo não está sujeito à apreensão direta pelos sentidos humanos ordinários nem por quaisquer "aparelhos de medida". Isso não significa, porém, que esses fenômenos estão condenados eternamente a serem inexplicáveis, muito menos que seremos sempre impotentes diante deles. O que se passa com o Espiritismo (que resulta em sua independência das ciências comuns) é que ele trata de fenômenos pelos quais as ciências não se interessam. As ciências estudam a matéria e o Espiritismo oespírito. Para assegurar o progresso principalmente moral do ser humano, aguardou-se o lento mas inexorável avanço da intelectualidade humana e o conhecimento espírita foi e tem sido revelado, em função direta dessas mesmas necessidades morais. Diante das dificuldades humanas de se conhecer a verdade (como exemplificadas acima), não é difícil concluirmos que existem claramente limites à revelação espírita.
    A fonte primordial da informação espírita são os Espíritos. Mas como se dá a aceitação dessas informações por eles propostas4? No que diz respeito aos princípios da doutrina, existe um critério explícito. Vamos aqui analisar brevemente o famoso critérioda concordância universal (CCU) . A referência principal sobre esse assunto é a Introdução ao O Evangelho segundo o Espiritismo [4], Parte II, "Autoridade da Doutrina Espírita"*. Todas as citações de Kardec feitas a seguir foram extraídas dessa referência. Kardec aponta duas grandes razões para a existência de um critério de aceitação das informações espíritas:    (a) "Garantia para a unidade futura do Espiritismo", com anulação das teorias contraditórias (Parágrafo 14).
    (b) "Garantia contra as alterações que poderia sujeitar o Espiritismo às seitas que se propusessem apoderar-se dele em proveito próprio ou acomodá-lo à vontade." (Parágrafo 16). Tal critério protege assim os fundamentos do Espiritismo contra enxertias, sejam da parte dos próprios Espíritos (menos esclarecidos) ou dos encarnados.
 
    A primeira coisa que notamos é que o CCU foi uma descoberta inteligente de Kardec diante do dificílimo problema da autenticidade das mensagens dos Espíritos. Assim sendo, ele não é resultado do ensino dos Espíritos e, portanto, não pode ser tomado como um princípio da doutrina. Analisando a referência citada acima, podemos dizer que o critério tem 3 principais fundamentos.
    O Espiritismo não é uma construção humana, ou seja, não é resultado de uma simples teorização em torno de observações e análise de fatos.
    Os Espíritos têm ampla liberdade de comunicação, o que anula a possibilidade de privilégios na concessão da informação espírita (o que, do contrário, tiraria o caráter "natural" da revelação espírita).
    Os Espíritos têm diversos graus de evolução. Se a fonte de informação espírita são os Espíritos, a validade das mesmas depende do grau de lucidez que eles possuem em relação aquilo que pretendem informar. Disso vem que nem todos os Espíritos estão igualmente aptos a servir de fonte de informação e daí imediatamente, a necessidade de uma seleção das mesmas.
    Por razões didáticas, podemos dizer que os três fundamentos acima possibilitam enunciar o que chamariamos de "CCU fraco":
Uma garantia existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que exista entre as revelações que eles façam espontaneamente.
    Existem entretanto condições operacionais (em relação ao caráter das mensagens) para que o CCU seja válido. Essas por sua vez se dividem em dois tipos: condições gerais e condições específicas. São condições gerais:
    - "Tudo o que seja fora do âmbito exclusivamente moral" (Final do Parágrafo 6)
    - Comunicações que tratem dos fundamentos doutrinários: "Vê-se bem que não se trata aqui das comunicações referentes a interesses secundários" (Parágrafo 9).
    Ao mesmo tempo, são condições específicas (ver Parágrafo 8):
    - que um só médium receba comunicações de diversos Espíritos;
    - que vários médiums diferentes (em um certo grupo ou em vários lugares) recebam comunicações de diversos Espíritos.
    Ocorre aqui porém que se tanto na situação (I) como em (II) houver a incidência de obsessão, a aceitação do CCU fraco não é possível. Disso resulta o que chamaríamos de CCU forte:
 "Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares". (Parágrafo 9).
    Ao CCU fraco é assim acrescentada a exigência de repetibilidade geográfica e mediúnica de uma certa informação. Poderíamos ainda adicionar uma necessidade de confirmação temporal da informação, isto é, de que uma dada tese referente a um princípio se confirme ao longo do tempo. Isso ocorreu diversas vezes durante a codificação. Do ponto de vista histórico, Kardec parece também ter sido o único a aplicar o CCU forte:
"Na posição em que nos encontramos, a receber comunicações de perto de mil centros espíritas sérios, disseminados pelos mais diversos pontos da Terra, achamo-nos em condição de observar sobre que princípio se estabelece a concordância".(Parágrafo 13).
    A razão de ser do CCU fraco é que ele parece ser válido desde que os médiuns não estejam sob efeito de Espíritos mistificadores (obsessão etc). A exigência do CCU forte foi cumprida plenamente no momento da codificação por conta da enorme abundância de fenômenos espontâneos ocorridos na época. As condições gerais enunciadas por Kardec (condições A e B) são de crucial importância para se entender a aplicação do CCU. De fato, não tem muito sentido exigir um critério de concordância (seja por vários médiuns ou através várias instâncias temporais) com as comunicações pessoais de Espíritos familiares por exemplo. Seria mesmo ridículo exigir que os Espíritos se comunicassem por médiuns diferentes após fornecerem muitas vezes provas indubitáveis de que são eles mesmos que se apresentam a determinado médium. As especificidade da mensagem dita assim o grau de recorrência ao CCU. O grau de obviedade com que constatamos a concordância dos Espíritos esclarecidos em relação às questões morais é o que fundamenta a condição geral (A). Suprimir tal condição é equivalente a dizer que o CCU (na forma forte) sempre foi operacional com relação às questões morais. Parece assim ser importante compreender exatamente o que se entende por pontos fundamentaise pontos secundários, coisa que procuraremos fazer a seguir.

    4 - O que são pontos fundamentais e o que são pontos secundários. Exemplos.

    Por Doutrina Espírita entendemos o conjunto de princípios fundamentais que sistematizam o Espiritismo, as regras de aplicação desses princípios às diversas situações e fenômenos em que ele representa uma alternativa lógica e racional de explicação. Também a essa doutrina estão associados os diversos conjuntos de preceitos e regras éticas que caracterizam o espírita na mais pura acepção da palavra. Por promoverem o progresso da alma humana, tais regras fortalecem as relações deste com a Divindade, de onde deriva imediatamente o aspecto religioso do Espiritismo.
    De modo resumido os princípios fundamentais do Espiritismo são:
    Existência de Deus. Deus aqui entendido como um ser existente de toda eternidade, sem princípio nem fim, todo poderoso e bom. Sem tentar descrever o impossível, tais atributos são, digamos, os mínimos necessários para a noção da Divindade.
    Existência do Espírito. O Espírito aqui é o princípio inteligente independente da matéria, a constituir um outro princípio. Por ser independente da matéria, o Espírito não sucumbe nem desaparece frente às transformações desta, de onde se tem a noção da imortalidade do ser.
    Evolução do Espírito. A medida que o tempo transcorre, o estado que caracteriza o Espírito se transforma. Esse estado dá, por exemplo, as características do Espírito5. Da faculdade que o Espírito tem de interagir com a matéria, ele passa por transformações que modificam sua personalidade e características. Essa evolução leva ao aprimoramento moral do ser e de sua inteligência. No homem, o período de tempo necessário para o aprimoramento é muito maior que o tempo de vida médio de sua vida material. Daí segue, como corolário desse princípio, a idéia de reencarnação.
    Comunicabilidade dos Espíritos. É possível ao Espírito, desprovido da parte material, entrar em comunicação com o mundo material por meio de pessoas dotadas de uma faculdade especial chamada mediunidade.
    Pluralidade dos mundos habitados. No Universo são inúmeros os mundos onde a vida é abundante, e os Espíritos, segundo semelhantes princípios, evoluem e têm sua existência mais ou menos material de acordo com o progresso atingido.
    Os princípios fundamentais estão todos eles contidos nas obras básicas editadas por Kardec. Essas obras também trazem idéias secundárias que auxiliam a explicação espírita do mundo segundo os princípios fundamentais. Além disso, a vasta literatura espírita contemporânea também contém inúmeras obras que desenvolvem substancialmente a aplicação dos princípios fundamentais e, porque não dizer, propõem princípios secundários novos. Esse fato é permitido pelo caráter progressista da doutrina, e os que teimam em não aceitá-lo6 estão, de fato, atrasando a marcha desse progresso. Vejamos um exemplo concreto que nos auxilie nesse ponto. Suponhamos que um certo Espírito proponha uma modificação na lei III de evolução afirmando que a marcha de desenvolvimento do Espírito não é incessante mas que, em determinado ponto de sua vida maior, seja permitido por lei ao Espírito estacionar. Não é difícil ver que semelhante idéia depõe contra vários outros princípios e leva imediatamente a uma contradição com a noção de livre-arbítrio pois, se ao Espírito é possível estacionar, ele não tem, por lei, nenhuma responsabilidade sobre seus atos durante o período de falta de progresso. Essa idéia deve ser rejeitada por estar em contradição com uma série de noções que protegem os fundamentos da doutrina.
    Tomemos agora um exemplo de uma controvérsia no movimento espírita que ilustra bem as dificuldades de compreensão dos princípios espíritas e do ensino dos Espíritos. Trata-se da famosa proposição do elevado Espírito Emmanuel sobre as "almas gêmeas" no seu livro O Consolador [5]. Antes de tudo, conviria considerar uma afirmação desse Espírito contida logo na introdução ("Definição") de seus livro:
  "Alem do mais, ainda nos encontramos num plano evolutivo, sem que possamos trazer ao vosso círculo de aprendizado as últimas equações, nesse ou naquele setor de investigação e de análise. É por essa razão que somente poderemos cooperar convosco sem a presunção da palavra derradeira".
    Na questão 298 de "O Livro dos Espíritos" [1], Kardec questiona os Espíritos sobre a idéia das almas gêmeas, entendidas como dois seres unidos desde sua origem e predestinados a se encontraremfatalmente algum dia. Tratava-se, sem sombra de dúvida, de um ponto secundário, já que os princípios fundamentais nada dizem sobre a criação dos Espíritos (ver questão 78 de "O Livro dos Espíritos"). Além disso, a idéia da almas gêmeas não contradiz nenhum outro ponto fundamental. Em "O Consolador", Emmanuel por diversas questões (desde 323-328, "Terceira Parte", "Amor") reafirma a idéia das almas gêmeas, entendidas como seres que se buscam na Eternidade e cuja existência propicia o progresso aos Espíritos, já que estes, quando separados e caídos no crime anseiam por se encontrar, constituindo isso um incentivo ao seu progresso. Emmanuel, de fato, reconhece sua ignorância não só em relação à criação dos Espíritos como também sobre como se estabelece o vínculo afetivo entre eles:
 "Para todos nós, o primeiro instante da criação do ser está mergulhado num suave mistério, assim como também a atração profunda e inexplicável que arrasta uma alma para outra, no intuito dos trabalhos, das experiências e das provas, no caminho infinito do Tempo."
    Entretanto, inquirido a examinar melhor seus pontos de vista, Emmanuel humildemente pede seja mantido o texto original, chamando a atenção para a complexidade do assunto. Esse Espírito apenas queria dizer que ainda estamos longe de ter a pretensão à verdade de um tem tão complexo. Por outro lado, se os Espíritos que auxiliaram Kardec, em diversos pontos de "O Livro dos Espíritos", afirmaram que a criação dos Espíritos está mergulhada em um profundo mistério, como poderiam ter dado uma resposta definitiva à questão das almas gêmeas? Parece-nos que, nesse caso, bem como em muitos outros, eles haveriam de estar igualmente longe de dar uma "resposta derradeira". De qualquer forma, o CCU na forma forte não pode ser invocado nesse caso por não se tratar de um ponto fundamental. Podemos tomar a proposição de Emmanuel como uma opinião pessoal sua, aliás em conformidade com o que vimos que esse Espírito diz na introdução de "O Consolador". Entretanto, certos setores do movimento espírita extremamente ligados à letra e desatentos às sutilezas das idéias de verdade e ensino dos Espíritos (a se aplicarem igualmente para as explicações das coisas materiais), tomaram esse caso como mais um exemplo a depor contra a "pureza doutrinária" do Espiritismo que se imagina poder ser imposta a todo custo.

5 - Conclusões
 
    Não foi senão por uma longa e difícil marcha que a Humanidade, pela colaboração de inúmeros luminares da cultura, inteligência e moralidade, conseguiu compreender que a noção de verdade só pode ser formulada dentro de bases estritamente relativas. Acompanhando o progresso das religiões e das ciências (mais notadamente dessas últimas) chegou-se a conclusão que as concepções a respeito das coisas e dos fenômenos do Mundo tem uma grande dependência com as épocas, recursos de pesquisa e tendências culturais dos indivíduos. No estágio onde nos encontramos jamais poderemos aspirar à verdade absoluta.
 
    Dentro da Doutrina Espírita, tais conclusões são igualmente válidas. Elas servem ainda mais para reforçar definitivamente nossa extrema pequenez diante do universo em que vivemos, a idéia de que nossas pretensões são ínfimas. Alias essa já é a opinião emitida por Espíritos elevados quando inquiridos sobre nosso tamanho nesse universo. Forma-se imediatamente assim a importante conclusão da inutilidade de quaisquer querelas que venham se formar ao redor das concepções espíritas, sejam elas fundamentais ou secundárias. Se nos é possível fechar a correspondência com o passado, digamos que a única "heresia" que se pode suspeitar hoje em dia é a da sustentação de tais querelas contra nossos companheiros muitas vezes dentro do próprio movimento espírita. Ela é antiética e depõe contra todos os princípios evangélicos que o Espiritismo sustenta abertamente.
 
    Por outro lado, o sentimento de impotência diante da verdade com relação a muitas questões profundas, não invalida em nenhum ponto os efeitos inquestionavelmente benéficos em nossas vidas que a aceitação e prática dos princípios espíritas - revelados na medida que podemos compreender - podem gerar. De fato, estamos talvez muito distantes de compreender por bases racionalmente sólidas princípios como o do amor, caridade e misericórdia. A própria evolução onde estagiamos hoje dá-nos muito mais capacidade para sentir esses conceitos.
 
    Há uma base sim muito sólida onde se estabelecem os princípios e desenvolvimentos espíritas. Para conquistá-la, o espírita deve abraçar com zelo o estudo da doutrina e desvencilhar-se um pouco de velhas concepções. Isso significa avaliar coerentemente o conteúdo dos novos ensinos, compará-los aos antigos, notar as sutilezas por detrás das novas noções aparentemente tão simples. E nunca esquecer também que o mundo onde vivemos é de fato muito maior que nossas vãs concepções podem imaginar.

6 - Bibliografia
[1] Allan Kardec, "O Livro dos Espíritos", 71 edição, Federação Espírita Brasileira (1991).
[2] Eamon Duffy"Santos e Pecadores, a História dos Papas", Cosac & Naif Edições Ltda, São Paulo (1998).
[3] Silvio Seno Chibeni, "A Excelência Metodológica do Espiritismo II", Reformador, Dezembro de 1988, pp. 373-378 (FEB).
[4] Allan Kardec, "O Evangelho segundo o Espiritismo", 104 edição, Federação Espírita Brasileira (1944)
[5] Emmanuel, "O Consolador", 4 edição, Federação Espírita Brasileira.

As Questões Sociais - Élzio

Yogashririshnam, médium Elzio Ferreira de Souza

(Transcrito do livro "Vozes de um Encontro", espírito Yogashririshnam, médium Elzio Ferreira de Souza. 2. ed. Bahia: Edição Círculo Espírita da Oração, 2004)

O discípulo andava muito preocupado com as questões sociais e econômicas, os problemas de distribuição de renda, os desníveis econômicos entre países e criaturas, as diferenças entre os discursos salvacionistas - políticos e religiosos - e a realidade esmagadora do ser humano com forme material e espiritual. Tendo em mente ouvir o mestre sobre o assunto, procurou-o durante um momento de intervalo entre as tarefas:

- Mestre, o senhor não acha que as religiões alienam os homens? Todas nos ensinam a viver voltados para Deus, enquanto o ser humano, que é afinal uma centelha divina, morre a nosso lado em completa ignorância. Não acha que a busca de um Deus transcendente conduziu  ao esquecimento da criatura?

O mestre não pareceu surpreendido com o comentário e resolveu aclarar a questão:

- Há aqui uma questão de ótica da vida, e é necessário não cometer um erro, pensando sanar ao outro. Os materialistas agarram-se ao discurso do homem faminto, mas acabam por extorquir-lhe a realidade espiritual. Não devemos temer os que matam o corpo, mas os que matam a alma. Foi esta a lição do Senhor Jesus.

- Sim, mestre, mas sem o corpo nutrido não há nem ocasião para pensar que se tem uma alma.

- Jesus não empregou a lição como uma desculpa para a conservação da miséria do homem, não paralisou suas mãos nem hipnotizou os discípulos para que esquecessem a realidade da vida no planeta. Orando pelos discípulos, rogou ao Pai que não os tirasse do mundo, mas que os livrasse do mal. Isto significa que os religiosos têm um papel a cumprir no mundo. A ignorância, entretanto, volta-se para o céu, buscando respostas para conservar a inércia na Terra. O verdadeiro homem religioso é o que encarna a resposta do Céu perante a criatura. O segundo mandamento enunciado por Jesus diz respeito exatamente à presença de Deus no mundo: só assim se pode entender por que amar o próximo equivale a amar a Deus. Materialistas sinceros destacam o amor ao homem e esquecem a Realidade suprema. Religiosos honestos voltam-se para o Céu e esquecem-se de que este se encontra no coração do homem. Temos que unir as duas visões, somente assim poderemos alcançar a verdade.

- O senhor quer dizer que temos de servir ao homem para atingir a completa visão do Divino?

- Sem dúvida, disto decorre a identidade de valores entre os mandamentos dados por Jesus. Como escreveu João*, os que não conseguem ver o homem não podem enxergar a Deus.

* I João 4:20-22

Allan Kardec e o Espiritismo - Elzio


Élzio Ferreira de Souza
Allan Kardec
Allan Kardec

18 de abril de 1857

Esta data marca o lançamento da 1a edição de O Livro dos Espíritos para o mundo. Com ele, Hyppolyte Léon Denizard Rivail mostrava uma nova faceta da sua personalidade de educador, utilizando o pseudônimo de Allan Kardec, que, dali por diante, seria o “nome de guerra” com que se consagraria para a posteridade, indicando o novo rumo da pesquisa do espírito. Este trabalho resultou em um marco bem definido no campo do Espiritualismo.
Ao descobrir a possibilidade de comprovar a existência dos espíritos através das intervenções destes no mundo físico com a intermediação dos médiuns, percebeu ele que isto se constituía num poderoso instrumento para investigar o novo mundo dos espíritos e assim oferecer aos espiritualistas um elemento decisivo no combate travado com o materialismo através dos tempos.
Até então as doutrinas espiritualistas não tinham ancorado em bases experimentais e sofriam o combate dos cépticos e agnósticos, que, por todos os lados, desancavam-lhe críticas, aproveitando os flancos mais frágeis dos ritos, dos dogmas, do sacerdócio, dos abusos cometidos pelas religiões, profligando a exploração dos pobres e a mancomunação delas com os poderosos, num comércio desavergonhado com os políticos.
Kardec percebeu que, frente à onda do positivismo e do materialismo, que se transformava em ideologia, tornava-se imprescindível enfrentá-los, utilizando as mesmas armas, e era isto justamente o que lhe oferecia a fenomenologia espírita – os fatos capazes de demonstrar a sobrevivência do Espírito.

O papel de Kardec

O mestre lionês é um exemplo do homem que “perdeu sua vida para salvá-la”. Renunciando a sua tarefa de mestre-escola, de autor de livros educacionais, aparentemente apagava-se para o mundo da cultura e mergulhava num terreno novo que a todos pareceria perigoso: sustentar que alguma coisa de essencial para a humanidade estaria a surgir do bailado das mesas que deslizavam nos salões parisiences. Esta foi a sua opção.
Apagando-se, porém, ressurgiu à frente de um pensamento de renovação cristã, desbordou sua atuação dos meios educacionais da França, para impor-se ao mundo como expressão de uma nova liderança religiosa, em que a visão do espírito não exige voltar as costas para as conquistas da ciência
Um estudo detalhado do movimento espírita demonstra, entretanto, que Allan Kardec não fundou o Espiritismo. Não guardou ele nenhuma ilusão a respeito. Este desvio pertence a alguns dos seus epígonos, que lhe falseiam a grandeza cometendo um erro histórico, confundindo ciência, modelo e teoria.
Em primeiro lugar, não custa repetir, o mestre destacava sempre a existência do Espiritismo através dos tempos, pois os ensinos dos Espíritos tinham sido fornecidos ao longo da história da humanidade aos mais diferentes povos, embora muitas vezes se apresentassem mesclados com as distorções geradas pelos homens nas mais distintas religiões e filosofias.
Era o Espiritismo Retrospectivo, do qual distinguia ele o Espiritismo Moderno para certificar o nascimento da nova onda do pensamento espiritualista, marcada pelo surgimento de um intenso e amplo intercâmbio com o mundo espiritual, qual uma “invasão organizada” de “extraterrestres” desprovidos da indumentária física.
Os fatos marcantes foram os fenômenos ocorridos, no ano de 1848, com as meninas Fox em Hydesville: os fenômenos empolgaram os Estados Unidos e ganharam os jornais e até o Congresso, clamando pela investigação dos fatos. Grande parte dos estudiosos situam aí o ponto inicial do movimento moderno, embora Kardec desse preferência ao ano de 1850, situando-o assim quatro anos antes de ter ele tomado conhecimento do assunto e iniciado seus próprios estudos e experimentações.
O preclaro Emmanuel (espírito), com exatíssima correção histórica, situa o seu desempenho, asseverando que “ninguém poderá afirmar que Kardec fosse o autor do Espiritismo. Este é de todos os tempos e situações da humanidade. Entretanto, é ele o missionário da renovação cristã” (Xavier 1990:61). Sem dúvida, este foi seu papel. O Cristianismo, envelhecido pelas religiões institucionalizadas, com as hierarquias organizacionais do sacerdócio, de conselhos, de jurisdições, de comandos escalonados municipais, estaduais, nacionais e internacional, sobrava ao ataque dos espíritos independentes que não se acomodavam mais às tramas dos conciliábulos, por perceberem que o pensamento cristão se via estrangulado exatamente nas mãos de quantos se abrigavam sob sua bandeira.
Ainda que a crítica iluminista dos séculos XVII e XVIII não se destinasse a lançar o homem nos braços do materialismo, a mancomunação das igrejas com os senhores do poder e da economia fez surgir uma onda de revolta que, atraindo espíritos brilhantes, desandou num ceticismo militante, terminando por envolver as massas operárias sempre iludidas por aqueles que lhes ofereciam o céu no além em troca da passividade, da fome e da miséria que curtissem na terra.
Exatamente, contra este estado de coisas, manifestou-se Kardec, procurando demonstrar que, embora as religiões organizadas se tivessem tornado “instrumentos de dominação” (RE 4/1866:101G. I:8), conforme o estigma iluminista lançado sobre as mesmas, não eram “o ópio do povo” como apregoava Marx: a droga era fornecida pelos traficantes e novos vendilhões do templo, mas não era sua essência, muito menos a do Cristianismo em particular.
Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade estavam amortecidos não só pela reviravolta política na França de volta à era napoleônica, mas pela desvalorização dos ideais cristãos nos templos.
Havia uma necessidade imperiosa de atacar o ceticismo em seu próprio ambiente, e não havia nada melhor do que partir daqueles fatos que se mostravam tão perturbadores pelo inusitado da sua aparição, de sua força e extensão.
O positivismo estendia as suas raízes nas exigências do método indutivo; o movimento materialista capitaneado por Marx e Engels começara a arrebanhar o operariado; o chamado Socialismo utópico perdia terreno. Kardec não podia deixar de sentir que aquele era o momento de introduzir-se uma cunha espiritualista que permitisse aportar os navegantes do outro mundo desejosos de se fazerem presentes e de ditarem suas impressões a partir dele, desvendando sua existência e revelando leis desconhecidas.
E a este trabalho integrou sua vida quando atingira a idade de 50 anos (1854).

Metodologia

Kardec viveu numa época de predominância do positivismo, não há de admirar, pois, que se fixasse sobretudo na repetição dos fatos e nele se ancorasse para estabelecer a teoria espírita. A experiência, sustentava, sempre precedera à teoria (OP – “ Resposta aos detratores”).
Mas o importante não era apenas a recorrência dos mesmos, mas o conteúdo e as conseqüências: o que ensinavam aqueles que se diziam Espíritos e a comprovação da sobrevivência que resultava das identificações.
Era necessário conhecer o saber dos Espíritos e seus limites, a interferência dos médiuns e assistentes, as leis que governavam o intercâmbio entre os dois mundos.
Penetrar no mundo além exigia estabelecer um relacionamento permanente através de investigação de campo em que entrevistas se sucedessem, relacionando não apenas os Espíritos que se mostravam possuidores de maior conhecimento e espiritualidade, mas também o submundo astral para que se pudesse ter da nova sociedade uma visão mais ampla e compreender o funcionamento da Justiça após a morte.
Dando continuidade ao trabalho dos pioneiros franceses que lhe entregaram os cinqüenta primeiros cadernos contendo questionamentos aos Espíritos para que os ordenasse, estabeleceu assim uma sociologia do mundo invisível que se reflete em O Livro dos Espíritos.
Não sendo o ensino dos Espíritos uniforme, precisou estabelecer normas para sua fixação, a fim de firmar a prevalência, e, assim, introduziu o controle da racionalidade e o controle universal, ou seja, a exigência da concordância das revelações espontâneas feitas por médiuns situados em distintas partes do planeta, de modo independente.
Outros métodos têm sido utilizados na investigação dos fatos, tais como os de laboratório, estatísticos, intuitivos, etc., mas, no ajoeiramento do ensino, aqueles critérios ainda se mostram insubstituíveis.

Uma teoria kardecista?

Na exposição do Espiritismo, não faltam estudiosos que repilam com vigor a idéia de designar-se o pensamento exposto por Kardec com a denominação de teoria kardecista, estampando o argumento de que ele próprio teria afirmado e reafirmado de que a doutrina revelada pertencia aos Espíritos, de que não se poderia afirmar a existência de uma “doutrina de Allan Kardec” (QEE 2º diálogo), porque não era “uma concepção humana pessoal”, possuía “o valor de uma obra coletiva”, “as comunicações dos Espíritos fundavam o Espiritismo” (RE 4/1966:109 e 111).
Não se coloca em dúvida a sinceridade do mestre; ocorre, porém, que a revelação não lhe chegou às mãos acabada, e que todo um trabalho de observação, experimentação, sistematização, foi necessário para que ela adquirisse o status que lhe corresponde.
Em A Gênese (I:13), observou que o Espiritismo tinha uma dupla característica – a de revelação divina e a de revelação científica, constituído pelo trabalho experimental do homem.
Todo o norteamento inicial do trabalho lhe pertenceu, e foi ele quem sistematizou os ensinos, estabelecendo os princípios doutrinários. Neste teor, é que ele se reconhece como “aquele que fundou a teoria” (OP “O Projeto de 1868”), embora não fosse “uma concepção pessoal, nem o resultado de um sistema preconcebido” (OP - “Resposta aos Detratores”).
Se o Espiritismo não foi por ele fundado, se ele sistematizou os ensinos dos Espíritos, adjetivar a teoria ou seu pensamento corresponde a reconhecer a marca de sua participação.
Naturalmente, não há de faltar a objeção de quantos tragam à colação o fato de ter Kardec sustentado, reivindicando a criação da palavra Espiritismo, ter “o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita” (O P - “Allan Kardec e a nova constituição”), podendo concluir com isto da superfluidade de falar-se em uma teoria kardecista.
Mas as palavras do mestre devem ser entendidas corretamente. Com elas, não pretendia Kardec submeter todos à camisa de força da intolerância clerical, transportada para dentro do Espiritismo, nem pretendia exercer um poder semelhante ao do papa.
Foi tudo quanto menos desejou. Sem dúvida, o fato de denominar um ramo do conhecimento, de estabelecer métodos de investigação, de sistematizar o ensino, não confere o direito de excluir outros estudos independentes.
O Espiritismo como ciência e filosofia jamais poderia condicionar-se a estes limites por mais amplos que fossem, para lembrar Léon Denis na avaliação da obra kardecista (DM 1983:171sNI: 1957:2).
E o próprio Kardec admitia a existência de escolas de espiritismo (QEE 3.º Diálogo, última questão), intitulando os estudos espíritas, realizados na América do Norte, de Escola Espírita Americana (RE 11/1861:381; 5/1864:146; 4/1869:96).
Uma leitura literal dos texto de Obras Póstumas citado acima só poderia encontrar vigência na esfera religiosa, desde que é no campo da religião que se estabelecem os limites de ingresso e adesão.
Mas, para quem estude o pensamento libertário de Allan Kardec, esta seria uma conclusão totalmente desfiguradora de suas idéias, pois, no discurso de 1868, ao definir o Espiritismo filosoficamente como uma religião, fez questão de aclarar seu pensamento, afirmando que “uma religião, em sua acepção nata e verdadeira”, era “um laço que religa os homens numa comunidade de sentimentos, de princípios e de crenças”, a fim de poder conceituar o Espiritismo, em seu aspecto religioso, como “a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza”(RE 12/1868:356 357).
Como se pode ver, as palavras de Kardec em 1866 terão que ser interpretadas à luz do seu pensamento sistemático, e não isoladamente. Ao reivindicar o direito de “determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita”, não poderia ele referir-se senão àquilo que decorreria normalmente do estudo do objeto material e do objeto formal do Espiritismo, bem como da metodologia empregada.
Qualidades do espírita dizem respeito à ética espírita. E as crenças são uma conseqüência da própria investigação.
Em 1886, escrevia que “o Espiritismo proclamando a absoluta liberdade de consciência, não admite nenhum constrangimento em matéria de crença, e (...) jamais contestou a ninguém o direito de crer à sua maneira em matéria de Espiritismo, como em qualquer outra coisa” (RE 4/1866:112).
E Luís de França (espírito) corrobora estas palavras em mensagem recebida ainda em abril de 1866, asseverando que – “As obrigações impostas pelo Espiritismo são, pois, de um natureza essencialmente moral; são uma conseqüência da crença; cada um é juiz e parte em sua própria causa; mas as claridades intelectuais que traz a quem realmente quer conhecer-se a si mesmo e trabalhar em seu melhoramento são tais que amedrontam o s pusilânimes e, por isto, ele é rejeitado por tão grande número” (RE 5:/1886:159).
Para conhecer-se o que é ou não é Espiritismo, aliás, não há necessidade de consultar um indivíduo ou uma instituição, isto diz respeito à própria coerência interna da investigação psíquica: ao objeto estudado e ao tratamento dado a este objeto, e à coerência ética com a teoria dela decorrente.

Infalibilidade

Os críticos do Espiritismo procuraram gratificar a Allan Kardec com os títulos de sumo sacerdote, soberano pontífice, papa, tendo ele chamado a atenção de que jamais os aceitou nem os Espíritas lhe os conferiram (RE 4/1866:115).
Infelizmente, uma parcela do movimento espírita no Brasil deseja-lhe conferir um outro título que somente foi conferido ao Papa em 1870, o de infalível, o que, naturalmente, como a Chico Xavier, causar-lhe-ia horror.
A infalibilidade seria o “caixão e vela” do Espiritismo. Kardec nem se julgou infalível, nem conferiu aos Espíritos esta qualidade.
E a maior demonstração disto é o fato de ter retificado, ante novos ensinos, assertivas dos Espíritos transcritas na edição de 1857, ao publicar a 2aedição de O Livro dos Espíritos, em 1860.
Além do mais, poder-se-ia dizer que ele adotaria todas as sugestões lançadas provisoriamente nos papeis encontrados após a sua morte e publicadas no livro Obras Póstumas, no capítulo – “Constituição do Espiritismo” n.º VIII? Elas não parecem em contradita com o que escreveu naRevista Espírita 7/1864:197)?
A compreensão de Kardec em relação ao Espiritismo era sua própria posição: ele estaria sempre disposto a corrigir-se quando encontrado em erro, ou a explicar e reexplicar seu pensamento.

Ciência, Filosofia e Religião

Encontramos em Kardec o mais sério esforço para unir os três processos de conhecimento. É certo que os iluministas haviam estabelecido uma séria crítica às religiões tradicionais e apregoado a necessidade de uma religião natural, fundamentada na razão.
Constituíram-se duas correntes distintas na filosofia iluminista:
  1. a do supernaturalismo racionalista (Glanvill, Locke), que além da experiência individual, admitia a revelação e os milagres, submetidos à estrita racionalidade, acolhendo, destarte, os ensinos cristãos;
  2. o deísmo (Herbert of Cherbury, Voltaire, Diderot, Franklin, etc.), cujos corifeus, além da crítica racional, rejeitavam todas as religiões organizadas, inclusive as cristãs (Burns 1955:551s).
É dentro da primeira corrente que vamos encontrar as idéias explanadas por Kardec, assimilando a revelação divina, mas submetendo-a ao controle racional. Kardec, porém, percebeu que as comunicações dos Espíritos, cuja autenticidade era demonstrável, estavam a fornecer à filosofia a base necessária para formular experimentalmente os postulados que Kant fora obrigado a admitir como indispensáveis para corrigir o desencontro, existente na terra, entre virtude e felicidade: a liberdade nos atos, a imortalidade da alma, a justiça e a existência de Deus.

Uma religião diferente

Definindo o Espiritismo como ciência de observação e de experimentação, esforçou-se por todos os meios para conservá-lo dentro destes parâmetros: aceitável como princípio absoluto seria apenas aquilo que estivesse demonstrado com evidência, ou aquilo que resultasse logicamente da observação (G 1:55).
Não poderia deixar de interessar-se pelo conteúdo das mensagens dos espíritos que lhe forneciam as bases novas da ética cristã por ver nela os fundamentos para a renovação do mundo (E. I:9).
Isto fora exatamente o que lhe atraíra, passado o primeiro momento (Sausse 1993:29s). Ele entrevira “a chave do problema, tão obscuro e tão controvertido, do passado e do futuro da humanidade”, cuja solução lhe dominaria a sua vida (OP – “A minha primeira iniciação no Espiritismo”).
Um novo mundo se descortinava alongando a vida para além do túmulo, mais que uma descoberta constituía-se em uma “revolução nas idéias” (QEE 2º diálogo).
Os ensinos assestavam para a moral do Cristo sintetizada na regra áurea: “fazer os outros o que desejamos que os outros nos façam” (LE Intr. II); na caridade e na humildade encontrar-se-ia o processo de sua prática (E. XV:3).
Mas o Espiritismo iria fornecer à moral cristã uma base experimental: “o conhecimento dos princípios que relacionam os mortos com os vivos”, revelando ao homem seu passado e seu futuro, e apresentando “como sanção à doutrina as próprias leis da natureza”, o que o levaria a compreender a “solidariedade que liga todos os seres”: caridade e fraternidade tornar-se-iam assim necessidades sociais (G. I:56).
A moral não poderia ficar à parte da religião. Também Kant pensara assim: “A moral conduz infalivelmente à religião”, sendo a distinção puramente formal, e não de objeto.
Em Kardec, como em Pestalozzi, moral e religião acabavam por intercambiar-se. O Espiritismo tinha “por base as verdades fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma, a imortalidade, as penas e recompensas futuras” (EES, p. 28), nisto estaria a sua força (LE Concl. V), embora as fundamentasse de modo distinto a partir da parte experimental.
Os antropólogos Marion Aubrée e François Laplantine (1990:54).utilizaram a fórmula de Charles Fauvety, uma expressão que pode parecer-nos estranha, mas que dá a medida exata da diferenciação do Espiritismo em relação às outras religiões: religião laica, por desprovida de clero, de culto, de templo, ritual, e sacramento.

Visão de futuro

O Espiritismo se caracteriza por extensa gama de interesses o que o coloca em contato com as mais distintas ciências e filosofias.
O seus fundamentos decorrem da parte experimental. Não há verdades indiscutíveis.
O Espiritismo se apresenta como doutrina aberta à crítica. Em realidade, existem três fundamentos que são básicos, e que, se demonstrados em erro, decretariam a falência da teoria espírita: a existência do espírito, sua sobrevivência e imortalidade, Deus.
A experimentação fornece a prova dos dois primeiros, e indicia a existência divina (Amorim 1993:205). O Espiritismo, por isso, não se pode negar à discussão de qualquer uma das suas partes, a cada passo ele é chamado a provar a veracidade de cada uma das suas asserções, a partir da própria fundamentação fática. Isto o exige seu aspecto filosófico.
O grande mérito do mestre lionês foi não ter se arreceado ante as críticas e conduzido o Espiritismo além dos fenômenos, seguindo a direção para que eles apontavam.
O que nos parece uma decorrência lógica hoje, não se apresentava de fácil consecução: de um lado os ataques da Igreja e do outro dos cientistas céticos.
O que poderia parecer uma fantasia, na atualidade é a expressão do pensamento de cientistas e filósofos que estão cada vez mais convictos de que a matéria e a energia não lhes oferecem mais a solução última de seus problemas.
E não faltam os que, como Jean Charon, postulam a necessidade de levar em conta o espírito na descrição do universo pela Física (Souza 1991:80). A investigação espírita antecipou-se. A unidade da substância lhe constituiu uma das primeiras lições (LE 589 e 604).
A solidificação da matéria é apenas um estado transitório do fluido cósmico: a transformação da substância faz parte do continuum – matéria « energia (G 14:6). “O infinito existe mesmo em todas as coisas” (LE 35Il en est de même de l’infini en toutes choses ). Além da matéria e da energia, o espírito, não mais uma abstração.
A fraternidade, a igualdade e a liberdade tornam-se imperativos decorrentes da comprovada realidade do espírito. As forças socializadoras, produto do evolucionário emergir da matéria, em constantes unidades coletivas cada vez mais complexas, desbordam dos átomos ao espírito (LE 540).
Uma moral não apenas filosófica, mas biológica, psicológica, espiritual. O espírito comandando os genes. O grupo de almas determinando a hereditariedade (LE 215E 14:9Xavier 1955:14). O espírito - a realidade no universo - é o espelho de Deus.

Bibliografia

  • Kardec, Allan – (Abreviaturas)
    LE (O Livro dos Espíritos - os números correspondem às questões);
    E (O Evangelho segundo o Espiritismo); 
    G
     (A Gênese);
    QEE (Que é o Espiritismo?);
    EES (Espiritismo em sua expressão mais simples: página corresponde a edição da FEESP);
    RE (Revista Espírita). Utilizamos as edições francesas, salvo quanto à Revista Espírita (indicamos as páginas da 1a edição da Edicel. Existe também edição do IDE);
    OP (Obras Póstumas).
  • Amorim, Deolindo (1993) – Doutrina Espírita. Salvador. Circulus.
  • Aubrée Marion e Laplantine, François (1990) La Table, le Livre et les Esprits; naissance, évolution et actualité du moviment social spirite entre France et Brésil. France, Éditions Jean-Claude Lattès.
  • Burns, Edward McNall (1955) História da Civilização OcidentalPorto Alegre, Globo, 3ª ed., p. 551s.
  • Denis, Léon (1993) Depois da Morte. Rio de Janeiro, FEB.
  • Denis, Léon (1957) No Invisível. Rio de Janeiro, FEB.
  • Sausse, Henri (1993) Biographie de Allan Kardec. Paris, Pygmalion.
  • Souza, Elzio Ferreira de/Yogashririshnam (1991) Pérolas no Fio. Salvador, Circulus.
  • Xavier, F. C./ Luiz, André (espírito) (1955) Nos Domínios da Mediunidade. Rio de Janeiro, FEB.
  • Xavier, F. C./Emmanuel (espírito) (1990) Doutrina de Luz. São Bernardo do Campo, GEEM.

Entrega

Yogashririshnam (médium Elzio Ferreira de
Souza), Brasil

(Texto extraído do livro "Divina Presença - Comentários Mediúnicos a João da Cruz, espírito
Yogashririshnam, médium Elzio Ferreira de Souza, editora Circulus)

"Sê tu o mensageiro e as mensagens"
Cântico Espiritual - VI: 7.
João da Cruz

Alguém pode informá-lo sobre o sol, a chuva, o mar, o rio e os ventos, mas você só os
conhecerá quando entrar em contato direto com cada um deles. Poderá travar algum
conhecimento sobre eles com professores e livros, mas coisa alguma substituirá a experiência
direta. Não pense que com o Divino possa ser diferente.
Não são os mensageiros que lhe podem transmitir a mensagem do Divino. Tudo quanto eles
podem fazer é orientá-lo para que possa encurtar distâncias, diminuir desvios, ativar o
discernimento. Mesmo quando eles já possuam algum conhecimento, nunca podem dizer-lhe o
real sabor do fruto, nem fazer com que absorva o alimento que não digeriu. A experiência do
Divino é única.
Não se engane, pois, com a fenomenologia. Os fênomenos podem ser sinais indicadores,
todavia você não se deslocará para lugar algum, só por conhecer os sinais de trânsito, nem
continuará paralisado, conquanto se desloque, só porque eles não existam. Muitos sinais
geralmente significam a existência de múltiplos perigos. Não acredite que só os fenômenos
podem ser sinais da presença divina ou de sua aproximação.
A vida encontra-se plena de maravilhosos fenômenos físicos-químicos, mas você não consegue
ver a Deus, embora as leis que os regem indiquem a sabedoria de quem as formulou. Você
deve ir além do fenômeno: vá para o silêncio de si mesmo na obra de transformação, se quer
marcar o Encontro.
Ninguém pode conceber o Divino, se apenas recebe mensagens de intermediários. Os estafetas
não são o Senhor, e as cartas nunca podem traduzir a Presença.
Se você quer o Encontro, não se contente com nada, respeite a tudo e a todos, agradeça todas
as mensagens e mensageiros, mas não se dê por safisfeito. O Senhor aguarda apenas a sua
perseverança. Você não deve contentar-se com menos. Não acredite em distâncias, quando
falar de Deus. O longe pode estar perto. O caminho é não ter caminho.
Você não pode dizer - "agora". Mas se você não se contentar com mensagens e mensageiros,
se estiver pronto para aceitar todas as condições que são não ter qualquer condição, não fazer
qualquer exigência, se você for capaz de entregar-se e confiar, então poderá ir além das
notícias que lhe trazem, para viajar dentro do silência divino.
Você não deve contentar-se com simples notícias, por mais alta que seja a mensagem. Rogue
ao Senhor que Ele seja o Mensageiro e a Mensagem, porque só assim conhecerá realmente
quem a recebe.

Elzio Ferreira de Souza



Nasceu em Salvador, Bahia, em 27 de setembro de 1926, mesma cidade onde desencarnou, em 20 de outubro de 2006, com 80 anos.
Homem de rara cultura, graduou-se em direito na decada de 1950 e tornou-se promotor público. Depois, passou a atuar como procurador de justiça, função na qual se aposentou. Além disso, também desenvolveu atividades como professor de Direito Penal, tendo abrilhantado a academia com seu notório saber jurídico.
Elzio tornou-se espírita na década de 1950. A partir de então, passou a integrar reuniões de estudo do Evangelho. Nas cidades baianas de Serrinha e Queimadas, integrou e fundou grupos espíritas e ficou conhecido como um homem de rara bondade e de profundo bom senso. No campo da mediunidade, possuía algumas faculdades, como psicofonia e vidência, mas se destacou pela psicografia, revelando acentuado critério na recepção e publicação de livros mediúnicos. Foi intermediário dos espíritos Yogashririshnam, de quem psicografou Divina presenca, Vozes de um encontro, entre outros; e de Deolindo Amorim, com as obras Espiritismo em movimento e Convite à reflexão. De sua propria produção, existem artigos que escrevia para os jornais Mundo Espírita e Folha Espírita, bem como a obra Socialismo cristão, que recebeu uma série de comentarios favoráveis, entre eles os de Deolindo Amorim e Humberto Mariotti.




Ermance de La Jonchére Dufaux





Nasceu em 1841, na cidade de Fontainebleu, França.
Colaborou como médiun, no trabalho de Kardec, na elaboração da segunda edição de "O Livro dos Espíritos" em 1860. Seu guia espiritual deu grande incentivo à Kardec para publicar a "Revue Espírite" - Revista Espírita. Ermence, com seu pai, tornou-se sócia fundadora da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
Ainda como médium foi autora do livro " A Vida de Joana D'arc" contada por ela mesma.
Como autora espiritual tem prestado grande contribuição no plano da espiritualização e da educação nos roteiros do amor , com as obras psicografadas através do médium Wanderley Oliveira.