quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Posição Doutrinária Espírita na Psiquiatria



Dr. Pedro de Oliveira Mundim*

I - INTRODUÇÃO
Uma das contradições da psiquiatria é a coexistência de inúmeras correntes doutrinárias e suas variantes. Se a Medicina Mental, por um lado, vai se tornando “Torre de Babel”, face à multiplicidade e polimorfismo da teorética psiquiátrica, por outro, há o consenso que aquelas diferentes posições decorrem da natureza pluridimensional do seu objeto - a mente enferma.
Embora exista de fato uma “práxis” psiquiátrica-espírita, caracterizando singularmente o movimento espirítico brasileiro; apesar de que haja uma literatura psiquiátrico-espírita, diga-se talvez incipiente, a partir de “A loucura sob Novo Prisma” de Bezerra de Menezes, perpassando entre outras pelas obras de Inácio Ferreira, a Posição Doutrinária Espírita ainda permanece cientificamente marginalizada.
Consoante argumento alhures, a pretensão de introduzir a Posição Doutrinária Espírita na Psiquiatria não visa rivalizá-la com as demais, ao contrário complementá-las, mais do que isso, dar coerência à “multiplicação da unidade” que é o homem, na definição de Viktor E. Frankl.
Tentativa como a de Osmani Emboaba, malgrado frustrada, deve-se repetir de parte dos psiquiatras espíritas, mormente daqueles que militam no meio acadêmico.
A Posição Doutrinária Espírita na Psiquiatria fundamenta-se no caráter interdisciplinar dessa e no tríplice aspecto daquela. As vertentes Filosófica, Científica e Moral contribuem para a convergência do Espiritismo com a Psiquiatria, por medição do Existencialismo, da Parapsicologia e da Ética Médica, levando à formulação da Psiquiatria de Orientação Espírita.
II - DO EXISTENCIALISMO ESPÍRITA NA PSIQUIATRIA
As diversas “escolas” da Psicologia e Psiquiatria contemporâneas se filiam a determinadas concepções filosóficas concernentes ao homem e ao seu psiquismo. Os pressupostos filosóficos da Psicologia e da Psiquiatria são enfatizados por filósofos e psiquiatras: Jaspers, Kunz, Nobre de MeloSeguin, Uchoa e tantos outros.
“Distinguimos principalmente três tendências doutrinárias representantes do Monismo Materialista (Materialismo Dialético), Dualismo e Existencialismo, respectivamente. Referimo-nos a Psicologia Experimental e Psiquiatria Organicista,Psicologia e Psiquiatria Dinâmicas, Psicologia e Psiquiatria Existenciais.
“Para o Materialismo Dialético a matéria é o princípio único do Universo. A Psicologia Experimental e a Psiquiatria Organiscista esposam a concepção materialista segundo a qual a mente é mero produto da atividade nervosa superior do encéfalo”.
“O Dualismo advoga a Matéria e o Espírito como princípios gerais do Universo. A Psicologia e a Psiquiatria Dinâmicas são dualistas, não que admitam o espírito como entidade autônoma, mas porque não confundem os fenômenos mentais com as funções cerebrais”.
“Superando as contradições do Monismo e do Dualismo, o Existencialismo afirma o homem como Existência... ser-no-mundo... A Psicologia e a Psiquiatria Existenciais procuram compreender o homem por meio dos modos de seu ser-no-mundo”.
“O Espiritismo, conceituando o homem como constituído de Espírito-Perispírito-Corpo, integra nesta concepção trinária, como doutrina de síntese, as demais anteriormente mencionadas. Sob o ponto de vista espírita, o Homem é espírito imortal, encarnado num organismo que lhe serve de instrumento de evolução, através das vidas sucessivas. O Espírito e o Corpo está vinculado pela estrutura semi-material do Perispírito. Assim sendo, o Homem mantém relações com o mundo espiritual e o mundo corporal, influenciando e sendo influenciado pelos mesmos. Portanto, na ótica espiritista e em linguagem existencialistas, o ser-no-mundo do Homem é ao mesmo tempo um ser-no-mundo-corporal e um ser-no-mundo-espiritual. O Ser no Homem é uma subjetividade-encarnada-no-mundo”.
A Dialética de Hegel (1770-1831) em a “Fenomenologia do Espírito”(1806), e o postulado da Evolução de Allan Kardec (1804-1869), e a partir de “O Livro dos Espíritos” (1857) foram precursores das transformações conceituais operadas na Filosofia e nas Ciências, desde a segunda metade do século XIX. Parafraseando Danilo Perestrello diríamos que a Dialética, a Evolução-o-Devir-são, o “Zeitgeist”, o “espírito do tempo”, ao qual Hegel e Kardec anteciparam-se.
Charles Robert Darwin (1809-82), introduziu o princípio da Evolução na Biologia, com a obra “A Origem das Espécies” (1859).
“Freud, como Marx, vê o desenvolvimento do homem em termos evolucionários”(Fromm); o primeiro cria a Psicodinâmica, fundando a Psicanálise, abalando o conceito estático do homem” (Perestrello); o segundo coloca a dinâmica econômica como fundamento da Sociologia e motor da história.
Ressalte-se que Gustave Geley (1868-1924), precede a Sigmund Freud (1856-1939), com “O Ser Subconsciente”(1899), sendo o Inconsciente (Uchoa) considerado posteriormente em “A Interpretação dos Sonhos”(1900), “Psicopatologia da Vida Cotidiana”(1901), “O Chiste e sua Relação com o Inconsciente”(1905), “O Inconsciente”(1915).
Nas Filosofias da Existência a Evolução aparece como Devir ou “Vir-a-ser”, e o homem é referido como “Sendo”, “Transcendência”(Giles, Heidegger, Kunz, Luijpen, Olson, Sartre).
No movimento fenomenológico-existencial destacam-se Soren Aabye Kierkegaard (1813-55), protestante; Edmund Husserl (1859-1938), fundador da fenomenologia; Martin Heidegger (1889-1976) e Jean Paul Sartre (1905), “classificados como ateus”; Karl Jaspers (1883-1969), sem “filiação religiosa formal”; Martin Buber (1878-1965), judeu.
O “método fenomenológico” de Husserl, a partir de sua obra inicial “As Investigações Lógicas”(1900), influiu no desenvolvimento das diversas correntes existencialistas, particularmente a heideggeriana e sartreana, bem como no das ciências, especialmente as “ciências do espírito” ou “ciências humanas”.
A aplicação da Fenomenologia na Psicopatologia deu lugar à clássica ‘Psicopatologia Geral”(1913) de Jaspers.
Ludwig Binswanger e a “Daseinanalyse”, Medard Boss e a “Análise Existencial Psiquiátrica”, representantes mais significativos da Psiquiatria Existencial, inspiraram-se na obra máxima de Heidegger: “Ser e Tempo”(1927).
Carl r. Rogers, com sua Psicoterapia Não-Diretiva, confessa-se ligado à tendência fenomenológico-existencial, tanto quanto os psicólogos Gordon Allport, Abraham Maslow e Rollo May, percebendo-se uma identidade de pensamento entre a linha rogeriana e a “Ontologia da Relação”de Buber em “Eu e Tú”.
Henri Ey, em sua crítica à Antipsiquiatria, mostra a influência da obra sartreana sobre as idéias de Devid Cooper e Ronald Laing.
Ora, se de acordo com sua feição doutrinária menciona-se um existencialismo ateu, existencialismo católico (Miguel de Unamuno, Gabriel Marcel), existencialismo protestante, existencialismo judeu, porque não o Existencialismo Espírita?! E se a Fenomenologia-Existencial, toma lugar na Psicopatologia e na Psicoterapia Analítico - Existencial, procede negar-se uma Psiquiatria Existencial Espírita?!
Anterior aos expoentes do Existencialismo, é de Kardec o enunciado do “Devir Transexistencial Espírita”: “Naitre, mourir, renaitre encore et progresser sans cesse, telle est la loi”. Desde as “obras básicas” da Codificação até as “obras complementares”, o Espiritismo se ocupa com a temática ontológico-existencial do homem, como autêntica doutrina existencialista. Entre os “clássicos”, Leon Denis (1846-1927); na atualidade J. Herculano Pires com significativo ensaio de “Ontologia Interexistencial”, colocam o posicionamento doutrinário espírita em termos das filosofias da existência.
Assim, confrontando as correntes existencialistas, com o Espiritismo, vislumbramos um “paralelismo complementar”entre essas filosofias:
Existencialismo
Dever
Existência
Ser-no-mundo
Liberdade
Facticidade
Projeto
Possibilidades
Angústia
Culpa
Ser-para-a-morte
Espiritismo
Evolução
Transexistência (Interexistência) Ser-no-mundo-corporal
Ser-no-mundo-espiritual
Livre-arbítrio
Carma
Projeto
Vidas sucessivas
Provação
Expiação
Ser-para-além-da-morte
Destarte a Posição Doutrinária Espírita na Psiquiatria se alinha junto às vertentes da Psiquiatria Existencial, ou seja, afirma-se como Psiquiatria Existencial Espírita, enriquecendo a compreensão ontológico-existencial do “Dasein”:
Quem? Individualidade
O Que? Fato (evento)
Onde? Lugar
Quando? Tempo
Porque? Motivo
Como? Condição
Para Que? Finalidade
Não seria por isso validade uma Psicoterapia Analítico-Existencial Espírita?! Frankl reclama por uma psicoterapia que transcenda o psíquico, abrangendo a “esfera do espírito”: “psicoterapia feita até a data bem pouco nos deixou ver da realidade espiritual do homem”. “Perguntamos a nós próprios se...não será permitido ou mesmo exigido o avanço para uma dimensão mais ampla... para chegarmos a uma imagem adequada da total realidade somático-anímico-espiritual que é o homem...”. Não estaria aqui inestimável recurso terapêutico para a “neurose noogênica” de Frankl, a neurose de vazio existencial, da perda do sentimento existencial, denunciada também por Boss e outros psiquiatras existenciais e mesmo psicanalista culturalista como Fromm que nos fala da necessidade de transobrevivência”?
A Psiquitria Existencial ocupando-se com a “patologia relacional”(Cyrille Koupernik), considera a “doença mental”não como entidade clínica, mas como um modo-de-existir (Boss), como modo-de-ser-ao-mundo, atualizando a afirmação hipocrática de que não há doenças e sim doentes! Chegamos, finalmente, às concepções da Antipsiquiatria: “...existe uma posição comum para todas as formas de Antipsiquitria: é a idéia de que não existem doenças mentais na acepção médico do termo...”(Jean-Claude Arfouilloux).
Thomas S. Szasz, nega o conceito de doença mental designando-a como “problemas existenciais”com envolvimento “moral e político”. Para o mencionado autor as “doenças mentais”não são doenças cerebrais: “Utilizo aqui a palavra Psiquiatria para me referir à disciplina contemporânea concernente aos problemas existenciais, e não às doenças cerebrais, pertencentes à Neurologia”... Nesta acepção, a obsessão “loucura sem lesão corporal” . Bezerra de Menezes antecipa historicamente o ponto de vista antipsiquiátrico!
A Antipsiquiatria opõe-se à medicalização da Psiquiatria, recusando-se a tratar com as terapêuticas tradicionais. De sua parte, o Espiritismo reverte a causalidade das doenças, evidenciando as causas espirituais, como “causa das causas” e preconiza terapêuticas que desbordam os limites da Medicina. Afinal, consoante o posicionamento aqui delineado, não seria nessa perspectiva a Psiquiatria Espírita também Antipsiquiatria?
III - DA FENOMENOLOGIA ESPÍRITA NA PSIQUIATRIA
Se a Psicologia e a Psiquiatria se acham desatualizadas em relação à Parapsicologia, que já é “ciência oficial”, compreensível aconteça o mesmo a respeito da Fenomenologia Espírita. Ainda não se operou: “uma revisão dos conceitos básicos da Psiquiatria, reclamada por Ehrenwald e Thouless, citado por Rhine, alicerçada nos achados da pesquisa parapsicológica e na comprovação científica das teses espíritas...”.
Em nosso meio, o psicólogo Pierre Weil, citado por Denizard Souza, vem desenvolvendo “um ramo da Psicologia especializada no estudo dos estados de consciência, dos dotados de experiências cósmicas, dos estados ditos “superiores” ou ampliados de consciência, que é a Psicologia Transpessoal”. Souza referenda Weil: “estes estados consistem na entrada numa “dimensão”fora do espaço-tempo tal como costuma ser percebida pelos nossos cinco sentidos. É uma ampliação da consciência comum com visão direta de uma “realidade”que se aproxima muito dos conceitos da física moderna.
Em nossa opinião (Mundim), os subsídios mais relevantes do Espiritismo Científico e da Parapsicologia à Psicologia e à Psiquiatria são as demonstrações de uma instância não-física ou espiritual no homem, da imortalidade e da comunicabilidade do espírito, bem como da reencarnação.
Alberto Lyra, abordando pioneiramente a Parapsicologia e suas co-relações com a Psicologia e a Psiquiatria em obra de Psicologia Médica, afirma que só a telepatia, a clarividência e a precognição estão suficientemente validadas cientificamente. Segundo Lyra “dadas a vulnerabilidade das observações e a fragilidade das comprovações” ainda não estariam definitivamente estabelecidos, fenômenos como “memória extra-cerebral”, auto-projeção e ou experiência extra-corpórea (desdobramento) e psitheta. Em contrapartida, em nosso ponto de vista o fato de que um dado fenômeno ainda não se formule cientificamente, não o invalida definitivamente. A história das ciências demonstra que a compreensão científica depende da evolução dos conhecimentos humanos.
Os fenômenos preexistem à sua formulação científica, por exemplo, a existência da água não dependeu da revelação de sua composição química. O preconceito científico, o cientismo, radicalizando o valor das ciências, inverte os termos ao pretender negar o fenômeno quando o mesmo ainda não seja demonstrável, verificável ou formulável, conforme os parâmetros do estágio em que as ciências se acham limitadas.
Daí que as ciências devem ser sistemas abertos ao questionamento de toda realidade, de todo e qualquer fenômeno, não estacionando ao nível de conclusões apriorísticas que as hipotrofiam. (Se cerramos as pálpebras e tampamos os ouvidos não podemos enxergar e escutar!).
De outra parte, há que se adequar a metodologia científica à natureza do objeto de pesquisa. Não se mede temperatura com fita métrica, nem pressão arterial com termômetro. Os fenômenos paranormais requerem método apropriado ao seu estudo, transcendendo a Física e a Biologia, como também a Psicologia e a Psiquiatria.
O paranormal não se confunde com o Psicopatológico, embora fenomenicamente possam aparentar a mesma feição - ( D. Souza).
“O estudo dos fenômenos psi poderá modificar certos conceitos nosológicos ao se reconhecer que indivíduos com dons psi não são psicóticos e que alguns que apresentam fenômenos estranhos sejam considerados, mesmo a título de hipótese de trabalho, como alvo de obsessões espiríticas, o que determinará alterações na prática psicoterápica”(Lyra).
Paulatinamente, as terapêuticas espíritas vão alcançando substrato científico, tal como ocorre atualmente com o tratamento magnético face à kirliangrafia (Jarbas George Marinho).
Stanley Dean, citado por Lyra, “professor de psiquiatria clínica na Universidade de Miami, propõe a Metapsiquiatria, que tratará da pesquisa dos estados especiais de superconsciência, meditação transcendental, comunicações telepáticas entre pais e filhos, estudo do pensamento como uma forma de energia com propriedades de um “campo” universal, psiquiatria transcultural dirigida para os fenômenos do chamanismo e semelhantes, assim como para a investigação científica das curas e dos curadores psi”.
A resistência da Psiquiatria acadêmica aos poucos cede terreno, a ponto de não nos surpreender quase todo um número de “The Journal of Nervous and Mental Disease”, do Department of Psychiatry, Institute of Psychiatry and Human Behavior, University of Maryland-School of Medicine, de Baltimore (Maryland), dedicado a “Ian Stevenson on Reincarnation”.
A conjunção do Espiritismo Científico com a Parapsicologia conduzirá a:
a - formulação de teoria espírita-parapsicológica da personalidade;
b - interpretação espírita-parapsicológica dos fenômenos psico-patológicos - Parapsicopatologia;
c - contribuição à diagnose, terapêutica e profilaxia das doenças mentais - Parapsiquiatria (ou Metapsiquiatria).
IV - DA ÉTICA EVANGÉLICO-ESPÍRITA NA PSIQUIATRIA
Na definição de Kardec, o Espiritismo é filosofia, Ciência e Moral (religião). Entendemos, de outra sorte, a Medicina não só como Ciência e Arte, mas, também como Ética. Ética tão descurada relativamente aos aspectos técnicos do labor hipocrático.
Daí porque a Moral Evangélica há de ser “o espírito” da Psiquiatria de Orientação Espírita!
“Baldados serão os esforços de recompor a personalidade humana desorganizada por conflitos de variedades jaez, se não lhe traçarmos a conduta na pauta da moral evangélica.
Tanto quanto a droga controla as manifestações intempestivas a nível somático, o Evangelho estanca as forças negativas da alma.
Se as terapias de choque convulsionam o organismo despertando as suas defesas, as advertências evangélicas mobilizam nossas reservas morais para as tarefas de retificação.
As terapêuticas psicológicas têm operado benefícios anímicos, quase sempre intuitivamente, reequilibrando aqueles que tresmalharam nos descaminhos da culpa e da angústia. No entanto, somente o Evangelho de Jesus, vivido e exemplificado, pode prodigalizar a paz verdadeira e duradoura.
As terapias ocupacionais elegeram o trabalho como técnica de reajuste; mas, só o trabalho desinteressado no serviço do próximo, pontifica crédito na contabilidade cármica do espírito endividado.
Socioterapias aplicam atividades comunitárias visando a readaptação social. Entretanto, elas não serão efetivas se não permeadas de solidariedade, fraternidade, compreensão e amor.
Associemos aos recursos indispensáveis que atuam na organização psicossomática, o Evangelho por terapia do Espírito, sem o que as “curas” obtidas serão mera aparência (Mundim)

* Professor Titular de Psiquiatria da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande (MS) e Membro da Associação Médico-Espírita de São Paulo.

Fonte: O texto acima foi retirado do Boletim Médico Espírita, ano I, nº 1 - Março 1984, da Associação Médico-Espírita de São Paulo