Dr. Pedro de Oliveira Mundim* I - INTRODUÇÃO Uma das contradições da psiquiatria é a coexistência de inúmeras correntes doutrinárias e suas variantes. Se a Medicina Mental, por um lado, vai se tornando “Torre de Babel”, face à multiplicidade e polimorfismo da teorética psiquiátrica, por outro, há o consenso que aquelas diferentes posições decorrem da natureza pluridimensional do seu objeto - a mente enferma. Embora exista de fato uma “práxis” psiquiátrica-espírita, caracterizando singularmente o movimento espirítico brasileiro; apesar de que haja uma literatura psiquiátrico-espírita, diga-se talvez incipiente, a partir de “A loucura sob Novo Prisma” de Bezerra de Menezes, perpassando entre outras pelas obras de Inácio Ferreira, a Posição Doutrinária Espírita ainda permanece cientificamente marginalizada. Consoante argumento alhures, a pretensão de introduzir a Posição Doutrinária Espírita na Psiquiatria não visa rivalizá-la com as demais, ao contrário complementá-las, mais do que isso, dar coerência à “multiplicação da unidade” que é o homem, na definição de Viktor E. Frankl. Tentativa como a de Osmani Emboaba, malgrado frustrada, deve-se repetir de parte dos psiquiatras espíritas, mormente daqueles que militam no meio acadêmico. A Posição Doutrinária Espírita na Psiquiatria fundamenta-se no caráter interdisciplinar dessa e no tríplice aspecto daquela. As vertentes Filosófica, Científica e Moral contribuem para a convergência do Espiritismo com a Psiquiatria, por medição do Existencialismo, da Parapsicologia e da Ética Médica, levando à formulação da Psiquiatria de Orientação Espírita. II - DO EXISTENCIALISMO ESPÍRITA NA PSIQUIATRIA As diversas “escolas” da Psicologia e Psiquiatria contemporâneas se filiam a determinadas concepções filosóficas concernentes ao homem e ao seu psiquismo. Os pressupostos filosóficos da Psicologia e da Psiquiatria são enfatizados por filósofos e psiquiatras: Jaspers, Kunz, Nobre de MeloSeguin, Uchoa e tantos outros. “Distinguimos principalmente três tendências doutrinárias representantes do Monismo Materialista (Materialismo Dialético), Dualismo e Existencialismo, respectivamente. Referimo-nos a Psicologia Experimental e Psiquiatria Organicista,Psicologia e Psiquiatria Dinâmicas, Psicologia e Psiquiatria Existenciais. “Para o Materialismo Dialético a matéria é o princípio único do Universo. A Psicologia Experimental e a Psiquiatria Organiscista esposam a concepção materialista segundo a qual a mente é mero produto da atividade nervosa superior do encéfalo”. “O Dualismo advoga a Matéria e o Espírito como princípios gerais do Universo. A Psicologia e a Psiquiatria Dinâmicas são dualistas, não que admitam o espírito como entidade autônoma, mas porque não confundem os fenômenos mentais com as funções cerebrais”. “Superando as contradições do Monismo e do Dualismo, o Existencialismo afirma o homem como Existência... ser-no-mundo... A Psicologia e a Psiquiatria Existenciais procuram compreender o homem por meio dos modos de seu ser-no-mundo”. “O Espiritismo, conceituando o homem como constituído de Espírito-Perispírito-Corpo, integra nesta concepção trinária, como doutrina de síntese, as demais anteriormente mencionadas. Sob o ponto de vista espírita, o Homem é espírito imortal, encarnado num organismo que lhe serve de instrumento de evolução, através das vidas sucessivas. O Espírito e o Corpo está vinculado pela estrutura semi-material do Perispírito. Assim sendo, o Homem mantém relações com o mundo espiritual e o mundo corporal, influenciando e sendo influenciado pelos mesmos. Portanto, na ótica espiritista e em linguagem existencialistas, o ser-no-mundo do Homem é ao mesmo tempo um ser-no-mundo-corporal e um ser-no-mundo-espiritual. O Ser no Homem é uma subjetividade-encarnada-no-mundo”. A Dialética de Hegel (1770-1831) em a “Fenomenologia do Espírito”(1806), e o postulado da Evolução de Allan Kardec (1804-1869), e a partir de “O Livro dos Espíritos” (1857) foram precursores das transformações conceituais operadas na Filosofia e nas Ciências, desde a segunda metade do século XIX. Parafraseando Danilo Perestrello diríamos que a Dialética, a Evolução-o-Devir-são, o “Zeitgeist”, o “espírito do tempo”, ao qual Hegel e Kardec anteciparam-se. Charles Robert Darwin (1809-82), introduziu o princípio da Evolução na Biologia, com a obra “A Origem das Espécies” (1859). “Freud, como Marx, vê o desenvolvimento do homem em termos evolucionários”(Fromm); o primeiro cria a Psicodinâmica, fundando a Psicanálise, abalando o conceito estático do homem” (Perestrello); o segundo coloca a dinâmica econômica como fundamento da Sociologia e motor da história. Ressalte-se que Gustave Geley (1868-1924), precede a Sigmund Freud (1856-1939), com “O Ser Subconsciente”(1899), sendo o Inconsciente (Uchoa) considerado posteriormente em “A Interpretação dos Sonhos”(1900), “Psicopatologia da Vida Cotidiana”(1901), “O Chiste e sua Relação com o Inconsciente”(1905), “O Inconsciente”(1915). Nas Filosofias da Existência a Evolução aparece como Devir ou “Vir-a-ser”, e o homem é referido como “Sendo”, “Transcendência”(Giles, Heidegger, Kunz, Luijpen, Olson, Sartre). No movimento fenomenológico-existencial destacam-se Soren Aabye Kierkegaard (1813-55), protestante; Edmund Husserl (1859-1938), fundador da fenomenologia; Martin Heidegger (1889-1976) e Jean Paul Sartre (1905), “classificados como ateus”; Karl Jaspers (1883-1969), sem “filiação religiosa formal”; Martin Buber (1878-1965), judeu. O “método fenomenológico” de Husserl, a partir de sua obra inicial “As Investigações Lógicas”(1900), influiu no desenvolvimento das diversas correntes existencialistas, particularmente a heideggeriana e sartreana, bem como no das ciências, especialmente as “ciências do espírito” ou “ciências humanas”. A aplicação da Fenomenologia na Psicopatologia deu lugar à clássica ‘Psicopatologia Geral”(1913) de Jaspers. Ludwig Binswanger e a “Daseinanalyse”, Medard Boss e a “Análise Existencial Psiquiátrica”, representantes mais significativos da Psiquiatria Existencial, inspiraram-se na obra máxima de Heidegger: “Ser e Tempo”(1927). Carl r. Rogers, com sua Psicoterapia Não-Diretiva, confessa-se ligado à tendência fenomenológico-existencial, tanto quanto os psicólogos Gordon Allport, Abraham Maslow e Rollo May, percebendo-se uma identidade de pensamento entre a linha rogeriana e a “Ontologia da Relação”de Buber em “Eu e Tú”. Henri Ey, em sua crítica à Antipsiquiatria, mostra a influência da obra sartreana sobre as idéias de Devid Cooper e Ronald Laing. Ora, se de acordo com sua feição doutrinária menciona-se um existencialismo ateu, existencialismo católico (Miguel de Unamuno, Gabriel Marcel), existencialismo protestante, existencialismo judeu, porque não o Existencialismo Espírita?! E se a Fenomenologia-Existencial, toma lugar na Psicopatologia e na Psicoterapia Analítico - Existencial, procede negar-se uma Psiquiatria Existencial Espírita?! Anterior aos expoentes do Existencialismo, é de Kardec o enunciado do “Devir Transexistencial Espírita”: “Naitre, mourir, renaitre encore et progresser sans cesse, telle est la loi”. Desde as “obras básicas” da Codificação até as “obras complementares”, o Espiritismo se ocupa com a temática ontológico-existencial do homem, como autêntica doutrina existencialista. Entre os “clássicos”, Leon Denis (1846-1927); na atualidade J. Herculano Pires com significativo ensaio de “Ontologia Interexistencial”, colocam o posicionamento doutrinário espírita em termos das filosofias da existência. Assim, confrontando as correntes existencialistas, com o Espiritismo, vislumbramos um “paralelismo complementar”entre essas filosofias:
Destarte a Posição Doutrinária Espírita na Psiquiatria se alinha junto às vertentes da Psiquiatria Existencial, ou seja, afirma-se como Psiquiatria Existencial Espírita, enriquecendo a compreensão ontológico-existencial do “Dasein”: Quem? Individualidade O Que? Fato (evento) Onde? Lugar Quando? Tempo Porque? Motivo Como? Condição Para Que? Finalidade Não seria por isso validade uma Psicoterapia Analítico-Existencial Espírita?! Frankl reclama por uma psicoterapia que transcenda o psíquico, abrangendo a “esfera do espírito”: “psicoterapia feita até a data bem pouco nos deixou ver da realidade espiritual do homem”. “Perguntamos a nós próprios se...não será permitido ou mesmo exigido o avanço para uma dimensão mais ampla... para chegarmos a uma imagem adequada da total realidade somático-anímico-espiritual que é o homem...”. Não estaria aqui inestimável recurso terapêutico para a “neurose noogênica” de Frankl, a neurose de vazio existencial, da perda do sentimento existencial, denunciada também por Boss e outros psiquiatras existenciais e mesmo psicanalista culturalista como Fromm que nos fala da necessidade de transobrevivência”? A Psiquitria Existencial ocupando-se com a “patologia relacional”(Cyrille Koupernik), considera a “doença mental”não como entidade clínica, mas como um modo-de-existir (Boss), como modo-de-ser-ao-mundo, atualizando a afirmação hipocrática de que não há doenças e sim doentes! Chegamos, finalmente, às concepções da Antipsiquiatria: “...existe uma posição comum para todas as formas de Antipsiquitria: é a idéia de que não existem doenças mentais na acepção médico do termo...”(Jean-Claude Arfouilloux). Thomas S. Szasz, nega o conceito de doença mental designando-a como “problemas existenciais”com envolvimento “moral e político”. Para o mencionado autor as “doenças mentais”não são doenças cerebrais: “Utilizo aqui a palavra Psiquiatria para me referir à disciplina contemporânea concernente aos problemas existenciais, e não às doenças cerebrais, pertencentes à Neurologia”... Nesta acepção, a obsessão “loucura sem lesão corporal” . Bezerra de Menezes antecipa historicamente o ponto de vista antipsiquiátrico! A Antipsiquiatria opõe-se à medicalização da Psiquiatria, recusando-se a tratar com as terapêuticas tradicionais. De sua parte, o Espiritismo reverte a causalidade das doenças, evidenciando as causas espirituais, como “causa das causas” e preconiza terapêuticas que desbordam os limites da Medicina. Afinal, consoante o posicionamento aqui delineado, não seria nessa perspectiva a Psiquiatria Espírita também Antipsiquiatria? III - DA FENOMENOLOGIA ESPÍRITA NA PSIQUIATRIA Se a Psicologia e a Psiquiatria se acham desatualizadas em relação à Parapsicologia, que já é “ciência oficial”, compreensível aconteça o mesmo a respeito da Fenomenologia Espírita. Ainda não se operou: “uma revisão dos conceitos básicos da Psiquiatria, reclamada por Ehrenwald e Thouless, citado por Rhine, alicerçada nos achados da pesquisa parapsicológica e na comprovação científica das teses espíritas...”. Em nosso meio, o psicólogo Pierre Weil, citado por Denizard Souza, vem desenvolvendo “um ramo da Psicologia especializada no estudo dos estados de consciência, dos dotados de experiências cósmicas, dos estados ditos “superiores” ou ampliados de consciência, que é a Psicologia Transpessoal”. Souza referenda Weil: “estes estados consistem na entrada numa “dimensão”fora do espaço-tempo tal como costuma ser percebida pelos nossos cinco sentidos. É uma ampliação da consciência comum com visão direta de uma “realidade”que se aproxima muito dos conceitos da física moderna. Em nossa opinião (Mundim), os subsídios mais relevantes do Espiritismo Científico e da Parapsicologia à Psicologia e à Psiquiatria são as demonstrações de uma instância não-física ou espiritual no homem, da imortalidade e da comunicabilidade do espírito, bem como da reencarnação. Alberto Lyra, abordando pioneiramente a Parapsicologia e suas co-relações com a Psicologia e a Psiquiatria em obra de Psicologia Médica, afirma que só a telepatia, a clarividência e a precognição estão suficientemente validadas cientificamente. Segundo Lyra “dadas a vulnerabilidade das observações e a fragilidade das comprovações” ainda não estariam definitivamente estabelecidos, fenômenos como “memória extra-cerebral”, auto-projeção e ou experiência extra-corpórea (desdobramento) e psitheta. Em contrapartida, em nosso ponto de vista o fato de que um dado fenômeno ainda não se formule cientificamente, não o invalida definitivamente. A história das ciências demonstra que a compreensão científica depende da evolução dos conhecimentos humanos. Os fenômenos preexistem à sua formulação científica, por exemplo, a existência da água não dependeu da revelação de sua composição química. O preconceito científico, o cientismo, radicalizando o valor das ciências, inverte os termos ao pretender negar o fenômeno quando o mesmo ainda não seja demonstrável, verificável ou formulável, conforme os parâmetros do estágio em que as ciências se acham limitadas. Daí que as ciências devem ser sistemas abertos ao questionamento de toda realidade, de todo e qualquer fenômeno, não estacionando ao nível de conclusões apriorísticas que as hipotrofiam. (Se cerramos as pálpebras e tampamos os ouvidos não podemos enxergar e escutar!). De outra parte, há que se adequar a metodologia científica à natureza do objeto de pesquisa. Não se mede temperatura com fita métrica, nem pressão arterial com termômetro. Os fenômenos paranormais requerem método apropriado ao seu estudo, transcendendo a Física e a Biologia, como também a Psicologia e a Psiquiatria. O paranormal não se confunde com o Psicopatológico, embora fenomenicamente possam aparentar a mesma feição - ( D. Souza). “O estudo dos fenômenos psi poderá modificar certos conceitos nosológicos ao se reconhecer que indivíduos com dons psi não são psicóticos e que alguns que apresentam fenômenos estranhos sejam considerados, mesmo a título de hipótese de trabalho, como alvo de obsessões espiríticas, o que determinará alterações na prática psicoterápica”(Lyra). Paulatinamente, as terapêuticas espíritas vão alcançando substrato científico, tal como ocorre atualmente com o tratamento magnético face à kirliangrafia (Jarbas George Marinho). Stanley Dean, citado por Lyra, “professor de psiquiatria clínica na Universidade de Miami, propõe a Metapsiquiatria, que tratará da pesquisa dos estados especiais de superconsciência, meditação transcendental, comunicações telepáticas entre pais e filhos, estudo do pensamento como uma forma de energia com propriedades de um “campo” universal, psiquiatria transcultural dirigida para os fenômenos do chamanismo e semelhantes, assim como para a investigação científica das curas e dos curadores psi”. A resistência da Psiquiatria acadêmica aos poucos cede terreno, a ponto de não nos surpreender quase todo um número de “The Journal of Nervous and Mental Disease”, do Department of Psychiatry, Institute of Psychiatry and Human Behavior, University of Maryland-School of Medicine, de Baltimore (Maryland), dedicado a “Ian Stevenson on Reincarnation”. A conjunção do Espiritismo Científico com a Parapsicologia conduzirá a: a - formulação de teoria espírita-parapsicológica da personalidade; b - interpretação espírita-parapsicológica dos fenômenos psico-patológicos - Parapsicopatologia; c - contribuição à diagnose, terapêutica e profilaxia das doenças mentais - Parapsiquiatria (ou Metapsiquiatria). IV - DA ÉTICA EVANGÉLICO-ESPÍRITA NA PSIQUIATRIA Na definição de Kardec, o Espiritismo é filosofia, Ciência e Moral (religião). Entendemos, de outra sorte, a Medicina não só como Ciência e Arte, mas, também como Ética. Ética tão descurada relativamente aos aspectos técnicos do labor hipocrático. Daí porque a Moral Evangélica há de ser “o espírito” da Psiquiatria de Orientação Espírita! “Baldados serão os esforços de recompor a personalidade humana desorganizada por conflitos de variedades jaez, se não lhe traçarmos a conduta na pauta da moral evangélica. Tanto quanto a droga controla as manifestações intempestivas a nível somático, o Evangelho estanca as forças negativas da alma. Se as terapias de choque convulsionam o organismo despertando as suas defesas, as advertências evangélicas mobilizam nossas reservas morais para as tarefas de retificação. As terapêuticas psicológicas têm operado benefícios anímicos, quase sempre intuitivamente, reequilibrando aqueles que tresmalharam nos descaminhos da culpa e da angústia. No entanto, somente o Evangelho de Jesus, vivido e exemplificado, pode prodigalizar a paz verdadeira e duradoura. As terapias ocupacionais elegeram o trabalho como técnica de reajuste; mas, só o trabalho desinteressado no serviço do próximo, pontifica crédito na contabilidade cármica do espírito endividado. Socioterapias aplicam atividades comunitárias visando a readaptação social. Entretanto, elas não serão efetivas se não permeadas de solidariedade, fraternidade, compreensão e amor. Associemos aos recursos indispensáveis que atuam na organização psicossomática, o Evangelho por terapia do Espírito, sem o que as “curas” obtidas serão mera aparência (Mundim) * Professor Titular de Psiquiatria da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande (MS) e Membro da Associação Médico-Espírita de São Paulo. Fonte: O texto acima foi retirado do Boletim Médico Espírita, ano I, nº 1 - Março 1984, da Associação Médico-Espírita de São Paulo |
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
A Posição Doutrinária Espírita na Psiquiatria
FUNDAÇÃO LONDRINA USA DESOBSESSÃO COMO TERAPIA
(matéria publicada na Folha Espírita em fevereiro de 2004)
A Folha Espírita entrevistou o Dr. Alan Sanderson, psiquiatra,fundador da The Spirit Release Foundation (Fundação para a Liberação de Espíritos – ou desobsessão, em linguagem espírita)
O psiquiatra londrino Alan Sanderson começou a se interessar por assuntos espirituais, especialmente pelo tratamento da obsessão, há aproximadamente 12 anos, quando conheceu uma pessoa que lidava com esse tipo de trabalho. Desde então, tem se dedicado à aplicação dessa terapia, inicialmente no sistema de saúde pública, no qual encontrou algumas dificuldades, o que o levou a trabalhar de maneira particular.
Há mais ou menos quatro anos, juntamente com algumas pessoas, decidiu fundar uma organização que se denomina The Spirit Release Foundation (Fundação para a Liberação de Espíritos – ou desobsessão, em linguagem espírita) e que agora conta com 170 associados. Entre estes não há muitos médicos, mas terapeutas complementares e pessoas com formações diversas, tais como psicólogos, aconselhadores, passistas, médiuns, enfim, pessoas interessadas nesse tipo de trabalho. Segundo Sanderson, a instituição está crescendo e se desenvolvendo, o que o faz acreditar que, no futuro, talvez ela possa convidar pessoas do exterior para lhes falar, facilitando, assim, o intercâmbio e a troca de experiências com entidades afins.
Quando de minha passagem por Londres, em novembro, realizei esta entrevista para a Folha Espírita, que contou com a inestimável ajuda da competente intérprete e querida amiga Ana Sinclair.
FE - Quais os principais objetivos da Spirit Release Foundation?Sanderson - Treinar pessoas em spirit release (desobsessão) para que sejam qualificadas, de acordo com nossos critérios, a fazer o trabalho e também a divulgá-lo junto aos médicos, a outros terapeutas e pessoas da comunidade, de modo a explicar a dimensão espiritual, os benefícios do spirit release e a influência do spiritual attachment (obsessão).
FE - Quais os métodos de que se utilizam?Sanderson - Podem ser divididos de maneira abrangente em dois: o método que chamamos de interativo, que utiliza estados alterados da consciência, tais como hipnose, em que se dialoga com o paciente ou com o espírito através do paciente; e o intuitivo, em que há muitas maneiras pelas quais pessoas com habilidades psíquicas podem contatar os espíritos e ajudá-los a partir. A escolha do tipo de método dependerá das habilidades do terapeuta. E, naturalmente, se estamos tratando uma criança ou uma pessoa que mora longe, iremos utilizar o método a distância. Assim, poderemos nos valer de um terapeuta com habilidades psíquicas ou dois deles, sendo que um permitirá, através de um estado alterado de consciência, que o espírito fale por seu intermédio, enquanto o outro dialogará com o espírito.
FE - Que tipo de resultados tem obtido para seus pacientes?Sanderson - Às vezes, são maravilhosos e rápidos. Mas há outros que demoram a chegar. Não raramente encontramos pacientes que, por uma razão ou outra, estão fortemente possuídos. Recomendo-os, então, a alguns colegas que cuidam desses casos, por exemplo, um que é especialista em possessões demoníacas. Esse colega trabalha com pessoas que têm possessões muito severas. Em geral, dedica longos períodos no tratamento delas, utilizando meditação do coração para fortalecê-las. Agora, estamos formando um grupo composto de seis de nós para trabalharmos juntos, na expectativa de que possamos obter melhores resultados nesses casos mais difíceis.
FE - Como a Medicina ortodoxa britânica vê o seu trabalho?Sanderson - A Medicina ortodoxa britânica não vê nosso trabalho, olha para o outro lado (risos). No entanto, posso dizer que há, agora, na Real Sociedade de Psiquiatras, um grupo formado por cerca de 700 pessoas que revelou especial interesse em assuntos espirituais. Em maio, tivemos um encontro sobre Spirit Release Therapy (Terapia de Desobsessão), que ficou completamente lotado. A freqüência a esse evento foi maior do que a de qualquer outro que tiveram. E isso foi notável, pois nunca esperava poder ter um encontro na Real Sociedade de Psiquiatras abordando esse assunto. Os tempos estão mudando e isso é muito estimulante.
ABORDAGEM MORAL E ESPIRITUAL DA DEPRESSÃO
(matéria publicada na Folha Espírita em fevereiro de 2006)
Roberto Lúcio Vieira de Souza (vice-presidente da AME-Brasil), diretor de publicações da AME-MG e diretor clínico do Hospital Espírita André Luiz, em Belo Horizonte (MG), Dr. Jaider Rodrigues e Paulo (presidente da AME-MG), psiquiatra e Dr. Osvaldo Hely Moreira, (vice-presidente da AME-MG), cardiologista.
Atualmente, a depressão é um dos problemas médicos mais difundidos no mundo, ocupando, segundo estudo conjunto da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos EUA, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Banco Mundial, o quarto lugar entre as causas de doenças degenerativas e de mortes prematuras. A previsão é de que ela se torne, em 2020, a segunda doença em importância, ficando apenas atrás dos males cardíacos.
Após vários anos de pesquisas, chegou-se à conclusão de que a depressão, cuja incidência aumenta a cada dia em nosso planeta, tem bases biológicas e é, freqüentemente, influenciada por estresse psicológico ou social. Mas há também os fatores espirituais, que, na verdade, são a base da doença. “Os deprimidos são pessoas de um nível evolutivo mediano, boas, responsáveis, com boas intenções, mas possuem um baixo nível de aceitação deles mesmos e de suas relações com o Criador. Investem uma energia muito negativa contra si mesmos, à medida que não conseguem ser aquilo que gostariam de ser”, declara Jaider Rodrigues de Paulo, psiquiatra, homeopata e presidente da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais.
Apesar de termos a idéia de que o deprimido é quietinho e quer ficar isolado, o psiquiatra afirma que ele é um rebelde e extremamente agressivo. “Ele não quer viver nem que os outros vivam. No seu subconsciente, não aceita que está errado, acha que é o indivíduo mais sofrido do mundo e que tudo o que os outros fazem é contra ele”, completa. São várias as vertentes da doença, apesar de ter um único motor que é a não aceitação. “A partir daí vão se desenvolvendo em cadeia vários processos que são agravantes, inclusive o genético. A genética na depressão não é conseqüência, com efeito, é causa”, informa.
Auto-obsessãoO psiquiatra Roberto Lúcio Vieira de Souza, diretor de publicações da AME-MG e diretor clínico do Hospital Espírita André Luiz, em Belo Horizonte (MG), acredita que, do ponto de vista moral, a depressão é um processo auto-obsessivo pelo fato de o deprimido ser um rebelde, cuja energia destrutiva é, antes de tudo, voltada contra si. “Dentro da abordagem espiritual, existem dois grandes grupos de depressão. São as de fundo carmático, oriundas de ações moralmente doentias do espírito, em uma ou diversas encarnações, nas quais prejudicou a si ou a terceiros, demarcando, quando do processo reencarnatório, a escolha de um material genético comprometido, capaz de dar origem à doença. E as desencadeadas por situações atuais de profundo comprometimento da tristeza, geralmente de intensidade mais leve e que não respondem ao tratamento convencional de maneira satisfatória”, explica.
Mas como seria essa ação mental, capaz de fazer surgir uma crise depressiva? Os espíritos poderiam atuar diretamente no material genético de outra criatura, determinando uma probabilidade de surgimento da patologia? Isso aconteceria antes ou depois do processo reencarnatório? Souza lembra que, de acordo com O Livro dos Espíritos, a atuação dos espíritos pode acontecer tanto na natureza física quanto na direção de outros espíritos, levando-os a situações de dificuldade. “Desse modo, pode-se dizer que espíritos adestrados e conhecedores das leis naturais, que agem no campo biológico, atuam, pela força mental, em determinadas situações, diretamente no material genético, seja no momento da escolha do óvulo e do espermatozóide, ou ainda na mutação desse material, predispondo o outro, ao reencarnar, para a propensão à doença”, afirma. “Tais atitudes, aparentemente negativas, dando a entender que estaria ocorrendo um desamparo dos planos superiores da vida, estariam sob o jugo da lei da justiça, quando a considerada vítima, ferindo a lei divina, permitiu-se ser alvo de entidades momentaneamente perversas”, diz.
No momento, várias pesquisas vêm surgindo com a utilização de tratamentos espirituais, envolvendo a prece, a meditação e tantos outros recursos, mas que necessitam do ponto de vista científico de outras tantas pesquisas que corroborem os seus resultados. No entanto, sabe-se hoje, com certeza, que pessoas religiosas são menos propensas aos quadros depressivos ou respondem melhor aos tratamentos chamados convencionais do que criaturas consideradas descrentes ou sem vínculos religiosos.
Crianças e adolescentes deprimidosAtualmente, não é difícil encontrarmos adolescentes e crianças deprimidos. De acordo com Jaider, seria uma situação de espírito. “Muitas vezes, são os desencontros conjugais dos pais que geram insegurança nos filhos. Também há o choque de vibrações pelo qual o planeta está passando. As crianças estão vivendo um aspecto evolutivo muito rápido. As que antigamente brincavam na rua, jogavam bola de gude, subiam em árvores, hoje ficam na frente de videogames, de computadores. São mudanças muito rápidas”, diz.
O psiquiatra lembra que a família tem de ser a base de tudo. “Uma família bem estruturada tende a gerar uma prole mais bem estruturada. Então daí você vê que a situação demanda outros aspectos, o familiar, o social. A depressão hoje é a ponta do iceberg de problemáticas milenares de grupos familiares, do próprio indivíduo e da relação dele com o Criador. Como disse Chico Xavier uma vez, é uma contabilidade cármica à flor da pele, que precisamos resolver para galgar um patamar acima”, finaliza.
Pesquisas comprovam relação com outras doençasApesar de ser uma patologia comum e relatada desde os primórdios da história da Medicina, ainda hoje há muito desconhecimento sobre o assunto. Mas, nos últimos anos, as pesquisas têm trazido inúmeros dados que apontam a íntima relação entre depressão e diversas patologias orgânicas, aumentando ainda mais a importância de tais estudos.
“O deprimido é mais propenso a ter um câncer, mais sensível a doenças, a infecções, a transtornos mentais. É muito comum a depressão ser acompanhada de síndrome do pânico, fobia social, transtorno da ansiedade generalizada, assim como surtos psicóticos. Além dos aspectos obsessivos, possibilita um mosaico de sofrimentos para a pessoa”, relata Jaider Rodrigues de Paulo.
A depressão tem sido responsável por diversas manifestações clínicas no sistema digestório, e quem a possui também está mais propenso a infartos do miocárdio, coronariopatias e outras doenças cardiovasculares. Segundo o cardiologista Osvaldo Hely Moreira, vice-presidente e coordenador acadêmico da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais, ela aumenta de três a quatro vezes a chance de o indivíduo ser um doente do coração, do que aquele que não é deprimido, assim como o índice de mortalidade da doença cardiovascular, complicando ainda a já existente. “Há consenso internacional sobre o assunto e estudos sobre o uso de tratamento específico da depressão, visando melhorar o prognóstico do doente cardiológico”, revela. Estudos importantes apresentam clara relação da resposta de pacientes cardíacos às diversas terapêuticas da área, com a presença ou não de um quadro depressivo. Alguns deles já determinam que, na sintomatologia depressiva, haveria pior resultado nas cirurgias cardíacas, por exemplo.
Alterações
A depressão interfere em todas as doenças cardiovasculares, mas principalmente naquelas em que as artérias são acometidas. “Por exemplo, os derrames que são da área vascular, os infartos e os acometimentos de veias como as tromboses venosas e as flebites, onde estão em jogo coagulação, função da parede das artérias e veias, tudo isso tem hoje comprovação estatística e entendimento bioquímico de que, havendo alteração dos fatores da coagulação por causa da depressão, haverá também alteração da função da parede dos vasos, levando a fenômenos agudos como infarto do miocárdio e derrames cerebrais”, explica.
A depressão interfere em todas as doenças cardiovasculares, mas principalmente naquelas em que as artérias são acometidas. “Por exemplo, os derrames que são da área vascular, os infartos e os acometimentos de veias como as tromboses venosas e as flebites, onde estão em jogo coagulação, função da parede das artérias e veias, tudo isso tem hoje comprovação estatística e entendimento bioquímico de que, havendo alteração dos fatores da coagulação por causa da depressão, haverá também alteração da função da parede dos vasos, levando a fenômenos agudos como infarto do miocárdio e derrames cerebrais”, explica.
“Como o próprio meio médico está atualmente especializado demais, é bem possível que o cardiologista não esteja capacitado para diagnosticar um processo depressivo, do mesmo modo que o psiquiatra, no que diz respeito à detecção de uma doença cardiológica. É por isso que a Medicina precisa voltar a ver o ser integral, que é exatamente o que nós estamos querendo, ver o indivíduo como um espírito. O paciente se ver como um ser global e o médico ver o seu paciente da mesma forma vai permitir que se busquem fatores mentais associados a fatores orgânicos”, opina Moreira.
|Posição médico-espírita em livroDepressão: abordagem médico-espírita é o título do livro assinado por Jaider Rodrigues de Paulo, psiquiatra, homeopata e presidente da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais; Osvaldo Hely Moreira, vice-presidente e coordenador acadêmico da AME-MG; e Roberto Lúcio Vieira de Souza, diretor de publicações da AME-MG e diretor clínico do Hospital Espírita André Luiz, em Belo Horizonte (MG).
No livro, de 192 páginas, editado pela Associação Médico-Espírita do Brasil, eles tratam dos vários aspectos da depressão, com a abordagem médica e a médico-espírita, beneficiando profissionais de Saúde interessados em cuidar de seus pacientes de forma mais abrangente. Outras informações na AME-Brasil, pelo telefone (11) 5585-1703 ou e-mail amebr@uol.com.br.
Queixas semelhantes
A depressão não aparece nos exames de sangue, nas radiografias, eletroencefalogramas e ninguém palpa ou ausculta a doença. Por isso, segundo o cardiologista Osvaldo Hely Moreira, é importante colocar os itens abaixo como um diagnóstico diferencial obrigatório, com o psiquiatra pedindo a avaliação do cardiologista e o cardiologista, a avaliação do psiquiatra.
A depressão não aparece nos exames de sangue, nas radiografias, eletroencefalogramas e ninguém palpa ou ausculta a doença. Por isso, segundo o cardiologista Osvaldo Hely Moreira, é importante colocar os itens abaixo como um diagnóstico diferencial obrigatório, com o psiquiatra pedindo a avaliação do cardiologista e o cardiologista, a avaliação do psiquiatra.
• Cansaço – o deprimido tem falta de energia, mas o doente cardiológico, pela falência da função do coração, também tem cansaço.
• Insônia – queixa do deprimido e do cardiopata.
• Sonolência – ter sono durante o dia pode ser uma disfunção do coração, mas também depressão.
• Desconforto no peito – é a angústia do deprimido e a angina do cardiopata.
• Palpitação – arritmia do cardiopata e um sintoma psicossomático do deprimido.
Principais sintomas
Quando se busca o diagnóstico da depressão, deve-se pesquisar os sintomas psíquicos, fisiológicos e alterações comportamentais.
Quando se busca o diagnóstico da depressão, deve-se pesquisar os sintomas psíquicos, fisiológicos e alterações comportamentais.
• Falta de energia
• Falta de prazer
• Tendência à solidão
• Sensação de tristeza por mais de uma semana consecutiva
• Impaciência
• Agressividade
• Intolerância
• Falta de prazer
• Tendência à solidão
• Sensação de tristeza por mais de uma semana consecutiva
• Impaciência
• Agressividade
• Intolerância
Se você estiver com esses sintomas e eles persistirem, procure um médico.
Os vícios à luz da Doutrina Espírita
(matéria publicada na Folha Espírita em novembro de 2007)
Fernando Antônio Neves
Os vícios são, sem dúvida alguma, a maior chaga moral da humanidade, nos tempos atuais. Segundo o neurocientista Stefen Clein, em seu livro A Fórmula da Felicidade, quando enveredamos na obtenção dos prazeres grosseiros, a área cerebral estimulada é exatamente a mesma, com larga produção de serotonina e dopamina, que nos dão uma sensação transitória de prazer. A má notícia é que, imediatamente após, os hormônios contrarreguladores são liberados, dando-nos uma sensação de mal-estar e indisposição.
Quando ingerimos bebidas alcoólicas, buscamos a sexolatria sem afetividade, comemos doces exageradamente ou nos drogamos, estamos, portanto, estimulando a mesma área do sistema límbico, numa busca desenfreada por serotonina em nosso organismo. O problema é que, após a bebida, vem a ressaca; após os lautos banquetes, a indigestão e a sonolência; após o sexo sem amor, a melancolia e o desinteresse. No longo prazo, destruímos prematuramente o nosso templo físico, pois, como diz Paulo de Tarso, “o salário do pecado (vício) é a morte” (Romanos 6:23).
Esta é a diferença básica entre os prazeres materiais e espirituais: os primeiros são transitórios e imediatamente sucedidos pela dor, levando-nos lentamente à desencarnação prematura; os segundos, embora mais sutis, têm maior durabilidade e nenhuma dor, pois tudo o que se refere ao espírito se eterniza e vivifica por si, pela vinculação intrínseca à Fonte de Tudo.
Esses prazeres espirituais a que me refiro são o bem que fazemos aos outros e a nós mesmos, através da caridade, da oração e da meditação.
Quando fazemos, por exemplo, uma campanha do quilo ou visitamos um hospital ou abrigo de idosos, sentimos uma agradável sensação que, muitas vezes, persiste a semana inteira.
Uma forma simples, portanto, de vencermos as tendências inferiores é substituirmos os prazeres materiais pelos espirituais. Substituirmos os pensamentos negativos por positivos. Na pergunta 917 de O Livro dos Espíritos, Fénelon nos orienta que a predominância da vida moral sobre a vida material é um poderoso instrumento para enfraquecermos o nosso egoísmo, causa de todos os vícios (p. 913). Ocuparmos o nosso tempo com leituras edificantes, palestras esclarecedoras e tarefas evangélicas é instrumento valioso para bem empregarmos a nossa libido e direcionarmos nossos pensamentos, preenchendo com sabedoria os horários vagos.
No primeiro mandamento “Ama a Deus sobre todas as coisas”, Jesus nos orienta, com exatidão, sobre como nos libertarmos da escravidão material. Como tudo, no universo, está impregnado da Divina Presença, segundo nos esclarece o mestre de Lyon no capítulo II da gênese kardequiana (a Providência Divina) ao nos apegarmos a algo material, estamos substituindo o Todo pela parte e isso nos causa dor e dependência. Quando direcionamos nossas mentes para a Fonte, fazemos o processo contrário e, portanto, plenificamos o nosso vazio psicológico pela consciência de plenitude, a solidão pelo Amor Maior, a parte pelo todo, o sofrimento pela felicidade da percepção do contato íntimo com o Cristo, numa forma de prazer infinitamente maior e mais duradoura.
“Amar a Deus sobre todas as coisas” significa, portanto,substituirmos prazeres menores, materiais, grosseiros e efêmeros por um prazer incomensuravelmente maior, mais suave e eterno. Quando seguimos o primeiro mandamento, portanto, colocamos o que é espiritual acima do material e isso nos põe em contato com a nossa verdadeira essência, nos reposicionando nos trilhos da nossa missão na Terra e nos felicitando com a paz espiritual dos justos.
Vale salientar que existe um forte sinergismo entre o “Amar a Deus”, “Amar ao próximo” e “Amar a si”, pois esses mandamentos áureos se retroalimentam:
1. Não poderemos amar ao nosso próximo, sem amarmos a nós mesmos, se estamos nos desvalorizando e autodestruindo fisicamente através dos vícios.
2. Amar a Deus é amar a si da melhor forma possível, pois percebemos que o nosso Si não é o corpo físico, mas o espírito imortal que, por sua vez, já está mergulhado na Consciência Maior que o eterniza e ilumina.
3. Amar a Deus é amar a si, porque a qualidade de nossa vida melhora infinitamente quando submetemos a nossa pequena vontade pessoal à Vontade maior. Quando nos libertamos dos vícios, encontramos o Cristo que habita nossos corações e nos permitimos ouvir sua voz, que nos guia invariavelmente à felicidade própria e a das pessoas que amamos.
4. Quando nos autodestruimos estamos desrespeitando o amor ao próximo, porque prejudicamos justamente as pessoas que mais amamos. Nossa esposa, filhos, pais e amigos são os mais afetados, se os trocarmos pela viciação, que antecipará a nossa morte física. Essa é outra forma extremamente eficaz de evitarmos o primeiro gole, a primeira mordida compulsiva ou uma relação extraconjugal: colocarmos na tela mental a figura da nossa esposa e filhos e perceber o quanto lhe causaremos dor com nossa atitude!
O maior dos vícios, segundo a pergunta 913 de O Livro dos Espíritos, é o egoísmo e a maior virtude é o desinteresse pessoal (pergunta 893).
Portanto, a chave da felicidade e da liberdade é submetermos nossa pequena vontade à Vontade Maior, que, num nível mais profundo, também é a nossa e, entrando em contato com o amor que emana dos nossos corações, exteriorizar o Cristo, o Sublime Amor, que nos vivifica e que teve sua maior expressão no meigo rabi da Galiléia.
O amor, portanto, substituirá todas as nossas necessidades, enchendo de alegria todos os instantes da nossa vida, conduzindo-nos rumo ao futuro radiante que a todos nos aguarda.
Fernando Antônio Neves é médico, com formação em Psicologia Transpessoal, e conferencista espírita em Recife (PE)
CONTRIBUIÇÃO ESPÍRITA AO TRANSTORNO BIPOLAR
(matéria publicada na Folha Espírita em agosto de 2006)
Dr. Luiz Antônio de Paiva é médico psiquiatra e vice-presidente da Associação Médico-Espírita de Goiás
O transtorno bipolar é uma doença funcional do cérebro relacionada aos neurotransmissores cerebrais, que provoca oscilações imprevisíveis do humor, que vai da depressão aos estados mais elevados, chamados de hipomania ou mania.
Afetando em torno de 1% da população, distribuído igualmente entre homens e mulheres, o TB (transtorno bipolar) permanece como crônico em 1/3 dos acometidos, perdurando por toda vida. Surge geralmente na terceira década de vida e os sintomas depressivos predominam na maior parte do tempo.
Conquanto receba o nome de transtorno bipolar do humor, ele tem subespécies em que só se manifesta a mania ou a depressão ou estados mistos de mania e depressão, em que predomina a irritabilidade. Comumente, quando se apresenta com o predomínio dos sintomas depressivos é mal diagnosticado como depressão maior e tratado erroneamente com antidepressivos somente, o que piora o quadro.
Por isso, o diagnóstico deve ser feito por profissional qualificado, após exame clínico acurado e colhida história detalhada da enfermidade e sua evolução.
Sabe-se que o transtorno funcional dos neurotransmissores como noradrenalina, serotonina e dopamina desempenham papel fundamental na doença, e estudos mostram uma base genética também, pois incide mais freqüentemente em algumas famílias.
Conquanto existam os fatores predisponentes, há também as situações desencadeantes, geralmente associadas ao estresse ambiental ou uso e abuso de substâncias psicotrópicas, legais e ilegais.
Pelo que você pode observar, até agora analisamos apenas os fatores biológicos e ambientais, ficando uma lacuna nos aspectos psíquicos e espirituais. Há fatores intrapsíquicos, como a estrutura de personalidade, que joga como um fator de facilitação para a emersão do estado patológico.
Aqui, de igual forma, torna-se impossível separar os fatores espirituais, cármicos, dos fatores psíquicos, pois ambos procedem de uma mesma fonte, qual seja, o espírito imortal.
Torna-se vital avaliarmos o papel que desempenha o cérebro e o corpo físico como um todo no processo da evolução espiritual. O cérebro e o sistema endócrino-humoral são um grande sistema cibernético ou computadorizado, de natureza analógica e não digital, isto é, responde às gradações de forma gradual e não pelo tudo ou nada. Isso faculta ao cérebro ser um meio modulador dos impulsos mentais advindos do espírito, atenuando-os ou potencializando-os, conforme as necessidades adaptativas ou educativas da interação espírito-matéria.
Assim sendo, as tendências patológicas agem como um alarme, fazendo o espírito automodular-se nas tendências e paixões. É a própria Lei de Causa e Efeito a serviço da educação, finalidade maior de sua existência no grande plano pedagógico de Deus.
À guisa de metáfora, seria como um mau motorista que, notório abusador dos recursos do veículo, desgastando-o prematuramente no descontrole da velocidade e nas frenagens, arriscando-se e levando riscos aos outros, recebesse como parte do seu processo reeducativo um veículo com deficiência nos freios, obrigando-o a restringir a velocidade e a utilizar marchas adequadas, de modo a lhe permitir o devido controle no direcionamento veicular.
Assim, podemos melhor compreender a injunção cármica dos transtornos mentais como um todo, que servem de recursos retificadores dos trânsfugas espirituais que, destarte, corrigem em si mesmos os desvios das paixões alucinantes, do suicídio direto e indireto, dos abusos da inteligência e de outras formas de viciação e alienação do espírito.
No âmbito do tratamento, embora a própria enfermidade seja em si mesma uma forma de cura da causa original do problema, a providência divina concedeu à medicina humana os meios paliativos e mesmo efetivos de controlar, digamos, o descontrole. No caso do transtorno bipolar temos uma imensa gama de substâncias chamadas de estabilizadores do humor que se utilizam no tratamento de crise e no de longo prazo dessa devastadora doença.
Sob o ponto de vista espiritual, strictu sensu, a reforma íntima, a vigilância e a oração, o propósito no bem, as ações beneficentes constituem-se na melhor profilaxia e tratamento. Não raro, os portadores de TB trazem um séquito de cobradores do passado que podem vir a ser soezes obsessores, complicando um quadro já em si complexo e difícil. O transtorno bipolar do humor parece ser um facilitador da manifestação de faculdades mediúnicas, o que junto às afinidades espirituais do passado e os seus compromissos, vulnerabilizam sobremaneira o enfermo, que se torna assim presa fácil de múltiplos fatores alienantes. É desnecessário dizer que a utilização da terapêutica espírita é de grande valia, se acompanhada do devido esforço regenerativo por parte do doente.
Psiquiatria e Espiritismo
José Herculano Pires
O conflito entre Psiquiatria e Espiritismo tomou vulto entre nós, em virtude do crescimento do movimento espírita. O preconceito religioso influi muito na questão, estimulando o preconceito científico. Mas as últimas conquistas das Ciências abriram uma perspectiva de trégua. Na proporção em que o conceito de matéria se pulverizou nas mãos dos físicos e atingiu o plano da antimatéria, verificou-se uma nova revolução copérnica no tocante à concepção do homem. Coube a um famoso psiquiatra norte americano, Ian Stevenson, dar novo impulso às pesquisas sobre a reencarnação. Na URSS o psiquiatra Wladimir Raikov, da Universidade de Moscou, reconheceu o fenômeno de lembranças de vidas anteriores e iniciou pesquisas a respeito, partindo do pressuposto de sugestões telepáticas. Hoje há grande número de psiquiatras espíritas, o que estabelece o diálogo entre os campos opostos.
As pesquisas parapsicológicas com débeis mentais deram razão à tese espírita da distinção entre cérebro e mente. Os débeis mentais agem no plano de psi (fenômenos paranormais) em igualdade de condições com as pessoas normais. Isso parecia mostrar que a debilidade era apenas cerebral e não mental. Quando Rhine sustentou a natureza extrafísica da mente, que Vassiliev tentou refutar sem consegui-lo, o problema se tornou mais claro. Muitos enigmas da Psiquiatria se tornaram mais facilmente equacionáveis para uma solução. Entre eles, talvez o mais complexo, que é o da Esquizofrenia. Certos casos de amnésia, em que os pacientes substituem a memória atual por outra referente a uma possível vida anterior, lançaram nova luz sobre o intrincado problema.
A divisão da mente, a diluição da memória, o afastamento da realidade parecem denunciar uma espécie de nostalgia psíquica que determina a inadaptação do espírito à realidade atual. Teríamos dessa forma um caso típico de auto-obsessão nas modalidades variáveis da Esquizofrenia. Os casos se agravam com a participação de entidades obsessoras geralmente atraídas pelo estado dos pacientes. Eles se encontravam em estado de ambivalência e são forçados a optar pelo passado ante a pressão obsessiva. Este é mais um fato favorável à prática da desobsessão. Psiquiatria e Espiritismo podem ajudar-se mutuamente, ao que parece em futuro bem próximo. Não há razão para condenações psiquiátricas atuais dos processos espíritas de cura dos casos de obsessão.
TRANSTORNO BIPOLAR: UMA LEITURA ESPÍRITA
by jcnatal
13/08/2008 - 03:58
Maria José dos Santos Gomes Soares – Psicóloga Clínica
Transtorno bipolar é um transtorno de humor, outrora conhecido como psicose maníaco-depressiva. Caracteriza-se por variações extremas de humor, onde “euforia” e “depressão” alternam-se de formas exageradas e bem diferentes das variações de humor, que ocorrem no dia-a-dia das pessoas em geral.
Na fase da “euforia”, também conhecida como “fase da mania” ou “hipomania”, a pessoa apresenta um estado mental alterado, com aumento de energia, redução da necessidade de sono, pensamento acelerado, irritação e/ou agressividade verbal ou física, excitação, que em alguns casos leva a pessoa a comprar desnecessariamente e a gastar além de suas possibilidades. Aumento da libido, alegria, otimismo, sensação de poder e autoconfiança em excesso podem levar à perda da realidade, uma vez que para esta pessoa tudo é fácil de ser resolvido. Expõe-se a riscos desnecessários devido ao sentimento de onipotência e torna-se irresponsável por seus atos.
O outro pólo deste transtorno manifesta-se através da “fase da depressão”, também conhecida como “distímica”, em que a pessoa pode apresentar baixa auto-estima, sentimento de culpa, sensação de vazio, cansaço, desamparo, alterações no sono e no apetite (para mais ou menos) e na libido (para menos), apatia em relação ao quotidiano.
O transtorno bipolar é uma doença funcional do cérebro relacionada aos neurotransmissores cerebrais, que provoca variações imprevisíveis do humor, que vai da depressão aos estados mais elevados. Apesar de existirem os fatores orgânicos, há também as situações desencadeantes, geralmente associadas ao estresse ambiental ou uso e abuso de substâncias psicotrópicas, legais e ilegais. Porém não devemos nos esquecer que estas 02 origens, procedem da mesma fonte, qual seja, o espírito imortal.
Assim sendo, por apresentar raízes profundas no Espírito, o transtorno bipolar (euforia e distimia) transfere-se do campo psíquico para o corpo físico através da hereditariedade, constituindo um caráter expiatório. Desta forma cabe ao cérebro modular os impulsos mentais oriundos do espírito, atenuando-os ou potencializando-os, conforme as necessidades adaptativas ou educativas da interação espírito-matéria.
Segundo Joanna de Angelis, a consciência de culpa pelos atos infelizes praticados no passado distante, aflora no presente, fazendo com que a pessoa transfira para a atualidade, a necessidade de recuperar a tranqüilidade perdida. Esta consciência da culpa impressa no Espírito, expressa-se pelo humor rebaixado e pela produção orgânica dos fenômenos exteriores, que só poderão ser amenizados mediante mudança de comportamento do paciente, visando recuperar-se dos erros cometidos no passado.
Assim como um pêndulo de relógio, que movimenta-se de um lado para o outro, os dois pólos deste transtorno levam-nos a deduzir que: enquanto no pólo caracterizado pela depressão o Espírito culpado, vive no presente a dor que ele julga necessária, para aplacar seus débitos, o segundo movimento (fase da mania) sugere-nos uma “rebeldia” do Espírito tentando negar sua culpa.
O transtorno bipolar constitui-se, pois numa doença da alma, que necessita de adequado tratamento, e para isto é necessária uma atuação interdisciplinar combinando intervenção psiquiátrica - com o uso paliativo de medicamentos, visando “controlar” os sintomas – à psicoterapia com abordagens corporais, (bioenergética, cinesiologia psicológica, etc) no sentido de alterar o campo vibratório do paciente. O tratamento inclui principalmente o ponto de vista espiritual através da reforma íntima, com alteração da conduta do paciente que através de grandes sacrifícios, estabelecerá metas edificantes visando diminuir sua dívida moral. A terapêutica espírita é de grande valia, se acompanhada do devido esforço regenerativo do doente.
O ARAUTO
Publicação Bimestral Órgão Oficial da USE Intermunicipal de Piracicaba
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